“Não sou nenhum herói, mas um sobrevivente da Covid-19”

Carlos Eduardo Moura, médico anestesista em União da Vitória, celebra vida nova após 55 dias internado na UTI

Carlos Eduardo Moura, médico anestesista, que vinha atuando na linha de frente contra a Covid-19 em União da Vitória e que acabou sendo infectado pela doença, hoje celebra vida nova.

Aos 66 anos, ele que é natural de União da Vitória, porém com residência em Porto União, relatou os 55 dias em que esteve internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Em festa, a equipe da Associação de Proteção à Maternidade e à Infância (APMI) de União da Vitória celebrou a recuperação do médico, assim como os profissionais que o atenderam no Hospital Marcelino Champagnat, em Curitiba (PR).

 Experiente em União da Vitória no exercício da medicina, Carlos Eduardo Moura – que também é médico legista no Instituto Médico Legal (IML) de Porto União -, assim como os seus demais colegas de profissão, definem a pandemia da Covid-19 como um dos maiores desafios a ser superado. Moura admite tristeza e sensação de impotência quando um paciente não resiste à doença. O cenário é simplesmente desolador.

De acordo com o doutor Moura, como é conhecido no Vale do Iguaçu, sua história de superação diante da Covid-19 é capaz de preencher um livro, muito embora não recorde dos detalhes por conta da sedação. Dos vários ‘flashes’ que vem à sua mente, fez questão de compartilhar com o leitor, como uma oportunidade de levar esperança a todos que estão passando por este momento difícil.


“Não sou nenhum herói”

            Da linha de frente à condição de paciente.

O doutor Moura sentiu na pele a sensação de ser diagnosticado com a Covid-19.

“Não sou nenhum herói, mas sim um sobrevivente da Covid-19”, afirma.  

Em janeiro deste ano, o médico apresentou os primeiros sintomas da doença.

“Lembro que faltavam dois dias para que o pessoal de saúde no Vale do Iguaçu fosse vacinado contra a Covid. Eu comecei a sentir umas ferroadas pelo corpo e calafrios, algo similar com um quadro de gripe inicial. Me senti mal e pensei: deve ser Covid! Coletei o exame e já realizei uma tomografia. Os sintomas evoluíram. Fiquei três dias em casa e a partir de então não tenho mais lembrança dos fatos que se sucederam. Minha família conta que eu estava conversando normalmente, mas disso eu não lembro. Na tomografia o diagnóstico foi de comprometimento pulmonar. Após isso, fiquei mais uns quatro dias internado na ala Covid. Os colegas médicos da APMI entenderam por bem e pela evolução da doença que eu fosse transferido para a UTI. Neste dia já solicitei que eu fosse intubado, pois estava com dificuldade em respirar. Após a sedação, não lembro de mais nada”.

Conta Moura, que o seu estado clínico não apresentava boas notícias.

“Tudo o que estou relatando foi o que me contaram, pois quase não recordo de nada. Necessitei da transferência da APMI para uma vaga na ala Covid do Hospital Marcelino Champagnat. Naquele dia, não tinha como uma aeronave vir me buscar e o transporte aconteceria em uma ambulância. Meu quadro de saúde apresentou instabilidade e fiquei por uns 15 minutos mal, até que me estabilizaram. Então, quase que não fui transferido para Curitiba”, disse.

O médico contabilizou 55 dias internado na UTI, destes 35 dias intubado. “Em todo esse período a minha cabeça não parava de funcionar, ou seja, sensação de inúmeros pensamentos a todo o momento. A cabeça não para, não para e não para. Certo dia, acordei como se eu estivesse nos Estados Unidos, trabalhando lá, em uma ala da Covid. Em outra ocasião, acordei como se estivesse em uma unidade de tratamento, em uma espécie de cúpula e que ficava à beira mar. Eu estava com dificuldade respiratória e dizia: estou aqui, longe de tudo e não sei como vim parar aqui; preciso avisar as minhas pessoas queridas e não tenho celular aqui. Sentia muita angústia”, diz.

Neste período, o médico também apresentou duas infecções hospitalares e dois choques sépticos, que é o estágio mais grave de uma infecção.

“Necessitaram aplicar mais medicação para que a minha pressão arterial aquentasse. Foram momentos críticos e que os meus rins também suportaram os medicamentos. Por duas situações, chamaram meus familiares para falar que talvez não teria mais o que fazer. Era preciso aguardar o desenrolar do meu estado de saúde. Foi uma batalha e uma luta para estar aqui hoje. Meu filho mais velho, o José Eduardo e a minha nora, que são médicos e moram em São Paulo, eram chamados e eles retransmitiam o meu estado aos demais familiares”.


*Informações com a repórter Gabrielly Cesco.