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Por Mariana Honesko

Acordar cedo, esquentar a água, preparar a cuia e sim, finalmente sentar para apreciar um bom chimarrão e começar o dia como se deve. O costume, especialmente comum na região Sul do País, é ainda mais concentrado no Rio Grande do Sul. Conforme publicações do gênero divulgadas em reportagens de 2015, os gaúchos apreciam a bebida quente até no Verão e garantem o consumo de 50 milhões de quilos de erva-mate por ano, ingrediente essencial da bebida.

Essa degustação toda especial só acontece porque a erva está sempre ali, fresca e embalada, nos balcões do mercado, nas lojas especializadas. E embora consuma bem (sem economizar nos morros pomposos onde se mergulha a bomba), o Rio Grande do Sul não lidera o ranking de produção da erva-mate. Na verdade, a maior produção da erva-mate sombreada do mundo – isso mesmo, do mundo – fica na região de União da Vitória, pulverizada no interior e nos municípios vizinhos. É o “ouro verde”, que coloca a região como referência.

Dados de 2015 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) confirmam a posição da região no cenário nacional. Com exceção de Fontoura Xavier (RS) e Guatambu (SC), os demais municípios que compõe a lista dos 20 maiores produtores são paranaenses. Neste ranking, aparecem as cidades de Cruz Machado, São Mateus do Sul e Bituruna, ambas pertencentes à Associação dos Municípios do Sul do Paraná (Amsulpar). A pesquisa do IBGE ainda mostrou que na comparação com 2014, houve um aumento de 1,7%, onde o Brasil alcançou 338,8 mil toneladas: isso tudo em apenas quatro estados e o Paraná o maior produtor (86,4%). Ao todo, essa potência produtiva é capitaneada por apenas 180 mil famílias espalhadas pelos três estados da região Sul.

Entender o mapa da região é fundamental para compreender o quanto isso significa. Em União da Vitória, por exemplo, a maior das dez cidades que compõe a Amsulpar, não há sequer mil agricultores. Uma análise mais micro, mostra que mesmo sendo poucos, os produtores trabalham em culturas diferentes, logo, teoricamente, sem condições para se tornar especialista nesta ou naquela área.

Mesmo assim, União da Vitória está no meio de uma região líder na cultura da erva-mate. “Cito até pela ordem de importância, a extração da madeira, a erva-mate, a soja, o leite, o hortifrutigranjeiro e a uva. Mas, a região é a maior produtora do mundo. Ela produz a melhor erva para o chimarrão”, confirma o gerente da Emater local, Cleacir Junior Dall Agnol. “A erva-mate é o principal, que gera mais renda”, completa.

Voltando no passado, ocupar o topo hoje, é uma forma de recompensa. É que a cultura da planta, ao lado da extração madeireira, acompanha o nascimento deste núcleo urbano. Dominar o mercado compensa as histórias de tantos imigrantes que encontraram na região – e na cultura da erva – uma forma de escrever seu próprio ciclo pessoal. “A cultura da erva-mate e a madeira, foram os dois primeiros produtos que o Paraná explorou, tanto que resultou na emancipação do Estado, em 1853”, lembra Dall Agnol.

A erva-mate colocou o Paraná no mapa do País e do mundo, chegando a representar 85% da economia no final dos anos 20. O ciclo econômico da planta foi um dos grandes ciclos da economia brasileira. Iniciou em 1820 e declinou junto com o restante da economia mundial na crise de 1930. Até este período, foi a base econômica dos estados do Sul. Não é à toa que, além da araucária, o ramo da erva-mate está no brasão da bandeira do Estado.

Diferente de outras regiões, como o Rio Grande do Sul, onde a erva-mate é cultivada “no limpo”, a céu aberto, no Paraná predomina a planta nativa, que cresce naturalmente embaixo da sombra de outras plantas. As espécies que fazem vizinhança ao erval, permitem com que os raios de sol não incidam diretamente sobre a planta. O cultivo assim, traz benefícios, que vão desde o auxílio na preservação de espécies nativas ao bolso do produtor: as ervateiras chegam a pagar R$ 1 pelo quilo do produto, algo bastante expressivo e rentável. Isso porque a folha da planta sombreada, que é verde-escura, tem um sabor mais adocicado e, no mercado, a característica agrada ao paladar do consumidor.

Sim, é o agronegócio que vem mudando o cenário político e econômico do País. Indústrias pequenas e até a agricultura familiar, como é o caso dos produtores da região da erva-mate, estão incluídas neste nicho que vem melhorando a saúde financeira do Brasil. “Ele (o agro) vem sendo há tempos a salvação do PIB brasileiro”, defende o secretário da Agricultura de União da Vitória, Nei Antônio Kukla.

É Preciso Avanço

Se tem uma coisa que aproxima os amigos e quebra qualquer barreira, é uma roda de chimarrão. Na região Sul, degustar de um bom mate, é quase um ritual. Há toda uma preparação da erva, a escolha da cuia, da bomba. É preciso harmonia em todos os ingredientes para que finalmente, a água bem quente, abençoe o processo. O chimarrão está na casa da dona de casa, mas também na sala do empresário. É um convite para um bate-papo ou até para uma conversa séria. A versão assim, forte e quente, é a mais popular para o uso da erva-mate. Mas, não é só de chimarrão que vive a erva-mate. O portfólio da planta é bem mais extenso do que se pensa, mas na maior região produtora da planta do mundo, as opções ainda são escassas.

As várias formas de uso da erva-mate foi tema de pesquisa da então mestranda em Desenvolvimento Regional pela Universidade do Contestado (UnC), em 2016, Valéria Furini. Apenas para situar o leitor: a UnC fica em Santa Catarina – a dissertação foi defendida em Marcílio Dias – mas por estar bastante próximo do Paraná, os conceitos da planta se aplicam também. Conforme a pesquisa de Valéria, “a variedade de produtos que atualmente utilizam essa matéria-prima, representa avanços inovadores, considerando que até pouco tempo seu uso se restringia à produção da erva-mate para chimarrão e chá”.

A dissertação mostra as possibilidades de versões e defende o investimento no beneficiamento para o Planalto Norte Catarinense (PNC), região que historicamente se destaca na produção de erva-mate estão instaladas dezenas de empresas do setor, mas em que na maioria, só tem o chimarrão como produto. Dados de 2016 mostram que a maioria da erva produzida no País, 96%, era usada como chimarrão. Os 4% restantes, como chás.

Seja qual for o uso, o fato é que estudos mostram que a erva-mate traz benefícios à saúde por conta de suas funções orgânicas. Os principais componentes da planta atuam como auxiliadores em dietas, como diurético, digestivo e também ajudam no tratamento da fadiga funcional. Segundo um estudo feito pela Universidade Feevale de Novo Hamburgo (RS), o mate, além de estimulante, também faz bem ao coração. O trabalho mostra que o uso diário de cem gramas da erva-mate pode causar a diminuição de 29% dos níveis de colesterol e de 62% nos triglicerídeos, afastando os riscos de problemas cardíacos. O mate também contém sais minerais, antioxidantes, auxilia na regeneração das células e estimula a atividade física.

O avanço no beneficiamento, de fato, é lento, mas já gera empregos e novos negócios. Voltando à região da Amsulpar, Cruz Machado, que em 2017 produziu 89 milhões de quilos de erva-mate e espera para esta colheita aumento de 10%.

Um Poema ao Chimarrão

Palmeio o velho porongo
derramo a erva com jeito
encosto a cuia no peito
batendo a erva prá um lado;
com os quatro dedos curvados
formo um topete bem feito.Com um poquito de água morna
bem devagar despejado,
tenho o amargo ajeitado
que ponho a um canto pra inchar;
e espero a água esquentar
pitando o baio sovado.A pava chiou no fogo.
Encho a cuia que promete;
a espuma se arremete
bem pra cima, borbulhando,
e acariciante, beijando,
branqueia todo o topete.

Agarro a bomba de prata,
tapo o bocal com o dedão,
calço o bojo bem no chão
da cuia e vou destapando
a bomba que vai chupando
um pouco de chimarrão.

Derramo outro pouco d’água
para aumentar o calor…
e o mate confortador
vou sorvendo em trago largo,
pois me saiu um amargo
despachado e roncador.

(Glaucus Saraiva)

Com famílias inteiras no campo, ervateiras e com a mão-de-obra que transforma a matéria-prima em produtos, cidade ganha destaque

O cultivo aumenta a renda de muitas famílias na cidade. Cruz Machado é um dos maiores produtores nacionais da planta. A cidade, que tem mais de 90% de sua população morando no campo, tem na erva-mate um pouco de suas vidas também. Nas lavouras, são famílias inteiras, na labuta diária, no plantio, na colheita e no processamento do “ouro verde”. O resultado de todo o trabalho, embora consumido também na cidade, vai para outras regiões do Paraná e de Santa Catarina. O Uruguai e a Argentina, são exemplos de lugares que consomem a erva-mate produzida em Cruz Machado. É a verdadeira aplicação do ditado, “quem planta, colhe”.Apenas em 2014, por exemplo, o município produziu 75 mil toneladas de erva-mate, gerando uma economia bastante considerável aos cofres da cidade. O município está localizado no coração da região de ervais nativos. As plantas produzem a erva nativa, com qualidade superior de cor e sabor. Os ervais nativos, como o próprio nome diz, são árvores que não foram plantadas pelo homem, mas sim, são originais da mata nativa da região.

Além disso, o município também está localizado na estratégica região do sul do Paraná. A cidade fica no centro dos maiores consumidores de erva-mate do País. O terreno “dobrado” (com muitos aclives e montanhas), acaba sendo um destino para o plantio: em áreas assim, a erva-mate acaba se tornando a melhor opção de cultura. Por tudo isso, Cruz Machado é o paraíso para o cultivo da planta. “Noventa e oito por cento das propriedades aqui tem erva-mate. A cidade é privilegiada de água e a topografia e clima são ideais para a cultura”, confirma o secretário da Agricultura e do Meio Ambiente, Valdir Fernando Ostrowski.

A cidade também se destaca na produção de um tipo especial da planta, a sombreada, ou seja, é quando a erva-mate cresce junto com outras espécies, naturalmente. “O casamento perfeito é a erva-mate com a araucária. O sombreamento não deixa a folha tão amarga. O sombreamento é especial”, explica o secretário.

Uma plantação assim é o que tem o produtor de Cruz Machado Valdecir Vkopne, 34. São onze alqueires, mais uma área onde fica no terreno da casa do seu pai, que também cultiva a planta. Valdecir é jovem e desde mais jovem ainda, trabalha com a planta. A erva-mate, é sinônimo de renda e de vida. “Para nossa região, é a melhor opção. Os terrenos são dobrados, difícil para trabalhar com a lavoura. Acho que a erva-mate é uma das melhores opções”, explica. E Valdecir é caprichoso. Na plantação, as culturas estão organizadas: de um lado, tem erva-mate grande, pronta para a colheita; de outro, pés novinhos, preparados para os próximos dois ou três anos de crescimento. É uma poupança à céu aberto. “Na minha vida, a erva-mate é minha fonte de renda. É tudo e eu gosto de trabalhar com a planta”, sorri.

A produção extraída dos campos é comercializada em Cruz Machado e também em municípios vizinhos. Valdecir, que planta a espécie e tem viveiro também, comercializa o produto em toda a região. “A gente vende para uma empresa, para outra, para várias ervateiras”, confirma. O produtor, que toma todos os dias chimarrão – a versão mais popular para o consumo da erva-mate – aprecia especialmente o sabor mais adocicado das folhas, justamente o que ele produz em sua propriedade. São folhas de um verde mais escuro, com peso diferente, mais “gordinha”. Ele defende o tradicionalismo da planta, mas aposta no sucesso das novas formas de uso dela. “Se for só para o chimarrão ou chá, o mercado não é tão grande. A gente precisa ter produção e mercado”, diz.

Para os técnicos das entidades que dão suporte para os produtores, o investimento na cultura é sinônimo de fonte de renda. Mas, é preciso que os agricultores caprichem, cuidem com dedicação de cada pé plantado. Só assim o valor pago pelo produto será, de fato, rentável. Isso já vem acontecendo, tanto que em Cruz Machado, a erva-mate que era obtida apenas do extrativismo, produzindo três mil quilos por hectare, começou a receber os cuidados necessários para produzir mais e melhor. Atualmente, são dez mil quilos por hectares a cada safra, que é bianual. Com o aquecimento do mercado, são necessárias também boas mudas, para que no campo a planta “vingue” e possa iniciar seu ciclo de produção em, no máximo três anos.

Boas Matrizes

Mário Kseniuk é um destes profissionais. Há 18 anos, ele trabalha com a produção das mudas em seu estabelecimento, o Viveiro de Mudas Gromarks, que fica na Linha Vicinal/Vitória. A produção nas estufas não pula etapas: começa na seleção das matrizes da planta e na transformação das plântulas (as menores mudas da erva) em pés prontos para o plantio. “A erva-mate é um dos carros-chefes da nossa renda, todo ano. Com ela, já adquirimos áreas de terra, estamos implantando ervais para a produção de folhas e, graças a Deus, isso vem possibilitando estar pagando a faculdade da minha filha, que está no último ano de faculdade”, diz, emocionado.

Mário: produção no viveiro já garantiu a compra de terra, implantação de ervais e até o pagamento da faculdade da filha

Mário é dedicado. Levanta às 5 horas da manhã, toma café e sai para o trabalho do viveiro. “Mas tem dias que saímos de madrugada e voltamos à noite, porque entregamos na propriedade do produtor as mudas”, conta. A produção do viveiro está concentrada em Cruz Machado, mas a empresa de Mário, que tem funcionários e a ajuda da esposa, já mira na ampliação dos negócios para as cidades vizinhas, como Paula Freitas e Bituruna. “É um bom negócio. Aqui no município, a erva-mate ajuda muito na renda das famílias”, garante Mário que na carreira, carrega ainda a experiência de já ter sido secretário da Agricultura.


Mudas de erva-mate são produzidas na empresa de Mário César e enviadas para toda a região

Mário César: desde 98 no trabalho de preparação das mudas

Preparando as Mudas

Primeiro, as sementes coletadas são colocadas em substrato, para germinar. Depois, uma a uma, as pequenas plântulas são repicadas em tubutes e permanecem por mais alguns meses no viveiro antes do plantio definitivo

Produção

Da erva-mate, um produto de alto nível

Viveiros e ervateiras em Cruz Machado cultivam o que há de melhor, criando produtos de alto nível, e de excelência e qualidade

Cruz Machado está encravada em um vale florestal. É uma cidade pequena, com pouco menos que 20 mil moradores. O município é essencialmente agrícola e especialmente privilegiado por estar onde está. Não é a toa que, do ponto de vista econômico, a erva-mate seja a cultura mais rentável, de fácil cultivo, de lucro quase que imediato. Com o número de produtores crescendo, Cruz Machado precisava dar um passo à frente. Nasciam, há cerca de duas décadas, as primeiras ervateiras na cidade. Hoje, são nove empresas de beneficiamento da planta que lapidam a matéria bruta, transformando-a em erva boa para o chimarrão. Algumas, já sondam a transformação também em chá, diante de um apelo popular – e logístico.Com 38 anos de história, a Ervateira Palmital, tem na erva-mate sua motivação para crescer. Há pouco tempo, por exemplo, a empresa fundada por Univaldo Paglia, investiu R$ 2 milhões na compra de uma nova máquina para aumentar a qualidade do processamento. Com o aporte, as folhas secam apenas com o calor, o que garante que elas se desidratem – sem perder suas propriedades. A Palmital não deixou de lado a produção anterior, mas com a versão mais apurada, garante a entrada de uma erva-mate fina, embalada à vácuo. Na prateleira do mercado, é quase um produto gourmet.


Ademar e Bernadete optaram pela compra de novos equipamentos para mudar parte do processo na ervateira

A ervateira beneficia cerca de 110 toneladas por mês e de tudo isso, além da vácuo, tem outras três embalagens do produto. A diferença entre elas é apenas o processo de refinamento: da erva fina à mais grossa, para todos os paladares. “A gente tem uma parceria no Rio Grande do Sul com várias empresas. A produção mensal varia. Foram essas parcerias que até nos deram ideia da máquina (para desidratar)”, confirmam os empresários, Ademar e Bernadete. “A erva-mate é um bom negócio. Já foi melhor, mas ainda é muito bom trabalhar com o produto”, completam.

Quase artesanal

Com brilho nos olhos e com entusiasmo que salta à cada explicação sobre o funcionamento da engrenagem toda, Jacinto Vicenzi afirma estar vivendo um sonho. Sim, o sonho dele é realidade e se chama Erva Mate Santana, uma pequena, mas potente ervateira, que fica na comunidade que dá nome à empresa.

A ervateira é quase artesanal. Não, não é rústica, mas sim feita à mão. É que seu Jacinto é uma espécie de ‘Professor Pardal’ do mate. Várias das máquinas usadas no processo foram feitas pelo próprio ervateiro. Outras, aprimoradas, para chegar ao produto que ele considera ideal. Ele arrumou, por exemplo, uma esteira que pica o galho da erva em pedaços bem pequenos. Os maiores, que acabam escapando pelas peças da engenheira, são descartados. A ideia, segundo Vicenzi, é entregar um produto de excelência.

Na ervateira, que tem menos de três anos, dez pessoas trabalham todos os dias. Da chegada da planta – in natura – até a embalagem entregue para o consumidor final (o processo de embalagem é manual), são apenas horas. Entusiasta, o recém novo ervateiro de Cruz Machado já foca na ampliação do negócio, bem como na preparação de toda a empresa. O cuidado é tanto que se a erva-mate recém colhida chega na empresa para ser trabalhada apenas no dia seguinte, fica armazenada em um local com degraus. “Cuido porque pode entrar um sapo aqui. Tem que cuidar”, explica Vicenzi. “Resolvi montar uma ervateira e comecei a beneficiar a erva. Comecei no Santana porque é uma das melhores regiões aqui. Seco cerca de 70 toneladas por mês. Vendo em pacotes pequenos para o comércio e para o Rio Grande do Sul, vendo ‘canchada’ (erva mais grossa, vendida em sacos maiores)”, conta.

No Sul, a parceria é com a Erva Mate Tomelero e essa harmonia garante uma troca de negócios: o produto que sai da ervateira de Vicenzi é vendido por lá, e o inverso acontece em Cruz Machado. “Quero ampliar a produção, melhorar ainda mais e produzir chás. Já reformei muitas máquinas de secagem de erva, que faziam o chá. Tenho a experiência do chá e quero montar isso aqui também”, revela.

Preparando o Terreno

E o trabalho gigante, de expansão, começa com sementes e mudas fortes de erva-mate. Desde 1998, o produtor Mário César Milczuk entende a importância de oferecer produtos de qualidade para quem segue na sequência do processo. É dele o Viveiro Florestal Ana Flora, onde são produzidas, em média 300 mil mudas de erva-mate, embora o pinnus seja o maior cultivo. “Com erva-mate eu trabalho há 12 anos”, conta. O Viveiro conta com cinco funcionários que garantem a entrega de um bom produto para produtores de toda a região. A entrega é feita pelo próprio Mário César que, apenas na terça, tina uma encomenda para Guarapuava. “A erva-mate ainda é um bom negócio”, diz.

Produção orgânica

Pensando na diversidade dos produtos, a equipe da Qualitá Brasil – Mate & Chá, busca competitividade e diferencial. Instalada também em Cruz Machado, a empresa é uma das mais jovens ervateiras do município. Mas chega gigante, cheia de boas intenções e com foco no fomento de bons negócios. A família Mikolaiewski, cuja tradição ervateira tem raízes profundas em Cruz Machado há muitas gerações, decidiu voltar às origens.

“A fazenda do meu pai começou durante o extrativismo da madeira mas como a madeira começou a ficar mais escassa, pois é um produto que precisa ser reflorestada e demora, meu pai começou a se profissionalizar. E daí, teve a ideia de ter esse diferencial de se tornar orgânico. Mais que isso, foi a possibilidade de ter uma indústria que beneficiasse essa erva-mate”, conta Carla, à frente da empresa, onde divide a gestão com sua família. A Qualitá foca na produção orgânica da erva-mate. Conforme Carla, isso significa trabalho, muito trabalho. E para ser 100% orgânica, é preciso cuidar com os detalhes e pensar na previsão de produção da empresa, algo em torno dos cinco milhões de quilos por ano, com isso, dá para se ter ideia do que isso significa na prática. “Vai (o orgânico) muito além de um produto natural livre de agrotóxicos, transgênicos e fertilizantes sintéticos. O produto é resultado de um sistema agroflorestal baseado em sustentabilidade, equilíbrio e respeito. A erva-mate é natural, nativa, mas o caminho para a erva-mate é esse, o orgânico”, sinaliza.

Entre os cuidados para que tudo isso seja alcançado, estão os cuidados especiais com a limpeza. “Então, quando a erva-mate é podada, todos os profissionais que fazem a extração usam EPIs (Equipamentos de Proteção Individual) e a erva vai para um “BAG” e não para o chão, não tem impurezas, não mistura com outras folhas, não tem contato com barro. É um caminhão exclusivo faz o transporte. É como em uma indústria de alimentos: nosso diferencial é a erva sendo processada como alimento e com segurança alimentar”.

Ser orgânica, além de ser um diferencial em Cruz Machado, pode abrir portas do mercado internacional. Países como a Alemanha, China Estados Unidos são grandes consumidores da erva-mate na forma de chás e outros tipos de infusão, como energéticos e cosméticos. Eles são o foco da Qualitá.

Nível Premium

Outro produtor que está se destacando em Cruz Machado é Marcos Froelich, da Ekoa. Seu diferencial, segundo ele, é produzir erva-mate para chimarrão de nível premium por um preço justo. “Nosso produto é premium desde a seleção da erva-mate, 100% nativa, dos melhores produtores da região até o empacotamento em embalagem de altíssima qualidade com design que atualmente está disputando o prêmio Brasil Design Award”, conta, orgulhoso. Sobre o prêmio, ele explica que foram classificados para a segunda etapa do prêmio da Associação Brasileira das Empresas de Design (ABEDESIGN/SP). Para ele, é uma honra uma marca tão nova como a Ekoa estar disputando o prêmio de embalagem do ano contra diversas empresas tão famosas no mercado nacional e internacional.

“Quando decidimos que empreenderíamos produzindo erva-mate premium, percebemos que a nossa embalagem também deveria ser premium. Fomos atrás disso e encontramos em Porto Alegre uma equipe de profissionais que entenderam o conceito da Ekoa. A embalagem remete ao bem-estar pelas cores agradáveis e à qualidade pelo laminado prateado, sem esquecer da origem tupi-guarani através da geometria dos desenhos. Inclusive, Ekoa significa Aldeia em tupi-guarani, uma homenagem ao povo que descobriu a bebida de erva-mate”, detalha.

Mas o cuidado da empresa vai muito além da embalagem. Com menos de um ano de mercado, as vendas estão crescendo mês a mês de forma consistente, mesmo em tempos de crise. Clientes fieis garantem o crescimento acelerado da empresa que tem planejado de expandir os pontos de venda nas praças que já atuam como Cruz Machado, União da Vitória, Porto União, Francisco Beltrão, Canoinhas, São Bento do Sul e região de Jaraguá do Sul. Froelich ainda revela que quer levar a marca para outros mercados importantes do Sul do Brasil. “Queremos que outras cidades conheçam o que é uma erva-mate 100% nativa e que a nossa região tenha orgulho de ser produtora da erva-mate Ekoa.

Segundo ele, Cruz Machado se tornou o maior produtor de erva-mate do Brasil, mas o importante não é nem isso, é a qualidade da folha que a região produz. “O município tem muita erva-mate nativa em uma região pouco ensolarada. A folha do mate nativo produz um chimarrão suave no amargor e intenso no sabor. Uma coisa única, onde marcas de outros estados e até outros países vem aqui buscar a erva-mate”, revela. Pelo fato de ter mais qualidade, o preço da arroba também é alto. Isso faz com que as empresas misturem com a erva-mate de outras regiões por serem mais baratas, e açúcar para equilibrar o excesso de amargor. “A Ekoa nasceu para fazer diferente. Quando decidimos empreender nesse mercado, queríamos usar erva-mate cem por cento nativa da nossa região, sem adicionar açúcar, nem nada mais. Apesar do alto custo junto ao produtor, conseguimos vender por um preço competitivo nos mercados por cuidar da eficiência da nossa produção”, finaliza.

A folha do mate nativo produz um chimarrão suave no amargor e intenso no sabor. Uma coisa única, onde marcas de outros estados e até outros países vem aqui buscar a erva-mate.

A terra do Mate

Cruz Machado como produtora: um caminho sem volta

As mais de quatro mil propriedades da cidade tem erva-mate no terreno – inclusive a do prefeito

A produção natural da erva-mate na região Sul, é também o caminho natural da cidade de Cruz Machado. Por isso, a planta é popular, assunto das rodas de conversa e entre quem entende do negócio, discutida com termos próprios do vocabulário técnico. A erva-mate também tem nome ‘chique’. Trata-se da Ilex paraguariensis, nomenclatura científica para identificar a planta que, na verdade, de erva não tem nada. É uma árvore, um vegetal, mas que refinada, aí sim, lembra seus “familiares”. Em Cruz Machado, a planta – ou erva ou Ilex ou mate – é figura presente em praticamente todas as quatro mil propriedades da cidade. Em quantidades grandes ou pequenas, ela está ali, gerando sombra ou dinheiro, dependendo das porções. “Temos muita erva-mate e é o que sustenta o município”, afirma o prefeito Euclides (Bibi) Pasa, que também cultiva a planta. “A erva-mate, planto e ‘faço um tanto’”, sorri, sem mencionar números.

Para o prefeito, a cidade não recua mais: é daqui para muito além. “Cruz Machado vai ser campeão. Além dos produtores estarem plantando, estamos fazendo reunião para que o produtores cuidem ainda mais, conservem limpo, com menos defensivos”, diz. Dentro de uma projeção de crescimento, o prefeito acredita que a cidade tem capacidade para receber outras três ervateiras, tamanho o potencial de produção.

Ela já foi proibida

Conforme a história, a erva-mate já chegou a ser proibida no Brasil, pois era considerada como a “erva do diabo”. Isso foi no século 16. Já no século seguinte, houve uma mudança no entendimento dela e, de proibida, foi incentivada, especialmente para o combate de vícios, como o álcool. Com a chegada de século 19, o Paraguai optou por proibir a exportação de erva-mate, isolando-se de outras nações. Com isso, países como Uruguai e Argentina começaram a substitui-la pela erva-mate produzida no Brasil, o que ocasionou o desenvolvimento do cultivo em Santa Catarina e no Paraná, regiões antes despovoadas. Isto desencadeou o começo do Ciclo da Erva-Mate.
A produção mundial de erva-mate está concentrada no Brasil, no Paraguai e na Argentina. Em território nacional brasileiro é cultivada em quatro Estados. No Rio Grande do Sul atinge cerca de 297 mil toneladas de folha verde a cada ano. O Paraná produz 228 mil toneladas. Santa Catarina 80 mil toneladas e Mato Grosso do Sul ao redor de 1,6 mil toneladas, conforme pesquisas do gênero. O consumo interno fica ao redor de cem mil toneladas ao ano de erva-mate beneficiada, sendo que o Estado gaúcho é responsável por 65% desse consumo. As exportações brasileiras de erva-mate chegam a uma quantidade de 35 mil toneladas por ano. O Uruguai é o grande comprador do produto. Anualmente estima-se que o setor produza ao redor de 1,2 bilhão de reais na cadeia produtiva ervateira.