MIGUEL

Oi gente!

Faço questão de retomar o blog neste dia 5 de junho. Estamos todos em casa, em pandemia, vivendo com nossos filhos e para eles, dando todo amor do mundo! São dias difíceis, mas muito mais para a mãe do menino Miguel, a criança de cinco anos que caiu de uma altura de 35 metros, num prédio, ao sair para procurar sua mãe. Quem está acompanhando os jornais, já sabe de que notícia estou escrevendo. Neste resumo que compartilho com honra, de Joana Rozowykwiat, quem não entendeu, vai entender. Acho que esse horror vivido por Miguel e pela mamãe dele, é uma narrativa cheia de símbolos, algo que nunca vi antes, nunca antes assim, junto, reunido, cruel.

Vamos ao texto:


A empregada que trabalha durante a pandemia;⁣
A empregada, mãe solo, que não tem com quem deixar o filho;⁣
A empregada é negra;⁣
A patroa é loura;⁣
A patroa é casada com um prefeito;⁣
O prefeito tem uma residência em outro município, que não é o que governa;⁣
A patroa tem um cachorro, mas não leva ele pra passear, delega;⁣
A patroa está fazendo as unhas em plena pandemia, expondo outra trabalhadora; ⁣
A patroa despacha sem remorso o menino no elevador;⁣
O menino se chama Miguel, nome de anjo;⁣
O sobrenome da patroa é Corte Real;⁣
A empregada pegou Covid com o patrão;⁣
A empregada consta como funcionária da Prefeitura de Tamandaré;⁣
Tudo isso acontece nas torres gêmeas, ícone do processo e verticalização desenfreada, especulação imobiliária e segregação da cidade do Recife;⁣
Tudo isso acontece em meio aos protestos Vidas Negras Importam;⁣
Tudo isso acontece no dia em que se completaram cinco anos da sanção da lei que regulamentou o trabalho doméstico no Brasil; ⁣

É muita coisa.

É muita dor.