Jornalismo: mais que uma profissão, uma ferramenta da democracia

 

O ser humano diferencia-se dos demais animais, entre vários fatores, pela sua comunicação avançada. Contar histórias e relatar fatos é tão importante para nossa sociedade que, nos primórdios da humanidade, os humanos começaram a usar pinturas como forma de passar seus feitos e conhecimentos para as futuras gerações. Com o passar do tempo, apenas desenhos não supriam mais a necessidade humana de se comunicar. Foi então que os sumérios, uma das mais antigas civilizações, em cerca de 3.200 antes de Cristo, criaram um conjunto de símbolos padronizados. Surgiu, assim, a escrita. O fato é tão importante que tudo antes dessa criação é conhecido como pré-história.

 

Mas apenas poder registrar histórias não era suficiente. Era necessário poder passá-la adiante. Primeiro, isso era feito manualmente. Pessoas copiavam livros e documentos a próprio punho. Até que, em 1450, veio mais uma revolução: a prensa. Criada por Johannes Gutenberg, ela permitia que textos fossem copiados de forma mais ágil, a partir de um conjunto de carimbos. Foi essa invenção que possibilitou a modernização e popularização de uma profissão tão comentada nos dias de hoje: o jornalismo.

 

Ao conseguirem serem impressos, os jornais passaram a popularizar-se. Deixaram de ser apenas folhetins sobre a vida da realeza europeia e passaram a relatar o dia a dia da população em geral, bem como temas relevantes a esse grupo. Com a popularização do jornalismo, e percebendo a importância dessa profissão para a sociedade, universidades passaram a ofertar cursos para profissionalizar essa atividade. Assim continua sendo feito atualmente.

 

No Brasil o diploma não é uma exigência, mas…

 

Em 2009 o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu que o diploma universitário não é obrigatório para quem desejar seguir carreira no jornalismo. Em 2013, o Senado aprovou alterações na Constituição Federal que determinavam a obrigatoriedade do título. Essa alteração segue em discussão no parlamento.

 

Mesmo não sendo uma exigência, profissionais e estudiosos da área apontam a importância de uma formação acadêmica para garantir que o futuro jornalista compreenda, com profundidade, os deveres dessa profissão. Para o jornalista e Mestre em Comunicação e Linguagens pela Universidade Tuiuti do Paraná (UTP), Edinei Wassoaski, o diploma pode ter perdido sentido para algumas pessoas, mas continua sendo importante para grandes veículos. “Veículos que privilegiam o profissionalismo podem ser criticados por muita gente, mas seguem sendo os mais lidos, vistos e ouvidos. Eles sabem disso e investem em profissionalismo, embora tenham apoiado a trágica decisão do Supremo de invalidar a obrigatoriedade do diploma para o exercício do Jornalismo. Agora, um ponto curioso: o mesmo Supremo que considerou desnecessário o diploma tenta combater fake news feitas contra eles mesmos, na maioria das vezes, por gente sem formação profissional”.

 

A estudante do último ano de jornalismo do Centro Universitário de União da Vitória (Uniuv), Cláudia Burdzinski, relata que começou a trabalhar na área em 2017, primeiramente por meio da fotografia. Depois de um tempo, começou a escrever como colaboradora para um jornal de São Mateus do Sul, cidade onde reside. Mesmo já estando inserida no jornalismo, ainda que sem formação, Cláudia sentiu a necessidade de cursar uma faculdade na área. “Eu sempre priorizei por um curso superior que fizesse com que eu amasse e me encontrasse em uma profissão. Acredito muito que a formação faz toda a diferença para a profissional que eu me tornaria”, conta.

 

Atualmente, Cláudia é repórter de uma rádio em São Mateus. Também é responsável por atualizar o portal de notícias do veículo, mas conta que foi na faculdade que aprendeu a importância social de um jornalista e como trabalhar o envolvimento da comunidade com as notícias. “Ser jornalista é muito mais que escrever ou sair falando por aí, se intitulando como tal. Ser jornalista envolve toda uma questão de compromisso, ética, técnicas de redação, como trabalhar especificamente em cada mídia, e só na graduação você aprende isso tudo”.

 

Para a jornalista e Doutora em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo (USP), Angela Farah, o curso superior é importante pois tem a intenção de incutir no aluno o ethos profissional, ou seja, desenvolver nessa pessoa o conjunto de características que formam um bom jornalista. Contudo, ela também destaca que, atualmente, existe um movimento de coletivos jornalísticos que também deve ser levado em consideração, pois esses são responsáveis por, em muitos casos, levar informações até lugares em que jornalistas profissionais não conseguem chegar. “Tem muita gente formada trabalhando nesses coletivos também, mas também há, por exemplo, os trabalhos feitos na periferia, em comunidades que não estão no centro, digamos assim. No centro urbano, no centro das atenções, das discussões e que precisam também desse aporte do jornalismo. E nem sempre os jornalistas profissionais, no sentido de ter um diploma do curso superior de jornalismo, vão chegar nessas comunidades, vão chegar nesses grupos e vão produzir jornalismo para essas pessoas ou com essas pessoas”.

 

Angela também aponta a questão da desigualdade do país que, em muitos casos, impossibilita que uma pessoa frequente uma universidade. Segundo dados do Mapa do Ensino Superior no Brasil 2020, pessoas que se declaram negras são 11% dos estudantes das universidades públicas e 7,9% das universidades particulares.

 

Quando se trata de classe econômica, aquelas com maior poder aquisitivo também são maioria nas universidades brasileiras. Segundo o estudo, 61,9% dos jovens com idade entre 18 e 24 anos e que se enquadram na classe A (possuem renda familiar de mais de oito salários mínimos) estão matriculados em um curso superior. Na contramão, 10,5% dos jovens da mesma faixa etária, mas pertencentes a classe E (possuem renda familiar de até meio salário mínimo) têm acesso à graduação. “Está aí mais uma questão dentro das lutas do jornalismo: que também é importante lutar para uma sociedade com mais equidade, com mais acesso. Equidade no acesso ao ensino superior, ao conhecimento, ao estudo, para que a gente realmente possa lutar pela obrigatoriedade do diploma. Eu acho uma coisa fundamental, mas vejo que a gente tem muitas questões aí para olhar, para prestar atenção, para a gente também não criar um elitismo profissional, porque então só quem faz curso superior pode fazer jornalismo. Muito bem. Quem pode fazer curso superior no Brasil?”.

 

O quarto poder

 

Entre os séculos 16 e 18, a maioria dos países europeus eram caracterizados por sistemas de governo considerados absolutistas, ou seja, todos os poderes eram centralizados em um único governante, geralmente um Rei. Com a Revolução Francesa, no final do século 18, estudiosos começaram a pensar novos modelos de divisão de poderes. Foi então que o filósofo Montesquieu sugeriu que os poderes do Rei fossem divididos em três instâncias de igual peso e responsabilidade e que fossem capazes de fiscalizar umas às outras, sendo elas o Poder Legislativo, o Poder Executivo e o Poder Judiciário. Esse modelo é utilizado em diversos países, inclusive no Brasil.

 

Porém, no século 19, teóricos começaram a apontar a necessidade de um quarto poder, que pudesse denunciar abusos cometidos pelos três iniciais. Esse poder seria representado pela imprensa. Apesar de o jornalismo não ser oficialmente um poder, essa teoria é capaz de demonstrar qual deve ser um dos principais papeis dessa profissão.

 

Um exemplo é o caso Watergate, um escândalo político que culminou na renúncia do presidente norte-americano Richard Nixon, em 1974. O comandante foi acusado de saber do esquema de espionagem desenvolvido por seu partido contra o partido opositor. O esquema foi descoberto e denunciado pelos jornalistas Carl Bernstein e Bob Woodward, neste que é conhecido como um dos maiores casos de jornalismo investigativo da história. “O jornalismo é fundamental para qualquer sociedade democrática que se queira democrática. Até para discutir a democracia. Até para discutir as liberdades. Até para discutir todas as questões de como vamos viver, de como vamos nos organizar. Então o jornalismo serve para isso. Serve para denunciar, serve para fiscalizar os poderes, serve para contar histórias, boas e ruins”, comenta Angela.

 

Para Cláudia, é por meio do jornalismo que as pessoas têm a possibilidade de conhecer os problemas do local em que vivem, além de terem a oportunidade de ouvir novas opiniões e de debaterem o que estão ouvindo. Trabalhando no interior, a estudante percebe uma proximidade entre o jornalista e o público, o que, em sua opinião, pode trazer uma relação de confiança. “Aqui na minha cidade boa parte das mídias não trabalha com profissionais jornalistas, e isso acaba descredibilizando o trabalho algumas vezes, mas ao mesmo tempo em que somos generalizados pela falta de competência de uma mídia concorrente, percebo que aos poucos as pessoas estão criando o vínculo com a mídia que tem um profissional jornalista. O público tem o direito de receber uma boa informação. Chega daquele pensamento de que quem mora no interior tem tendência para a ignorância. Trabalho todos os dias para levar ao nosso público informações que acrescentem de alguma forma na vida pessoal de cada um”.

 

Uma atividade sob ataques

 

Em 2021 o Brasil caiu quatro posições no Ranking Mundial de Liberdade de Imprensa, organizado pela ONG Repórteres Sem Fronteiras. Como o nome diz, o ranking determina quais são os países com melhores condições de trabalho para a imprensa e quais são os piores. Atualmente, o país está na 111ª posição do ranking, o que o coloca na zona vermelha, indicando situação de trabalho considerada difícil. Sendo assim, o país está um nível acima da zona preta, que indica situação de trabalho em estado grave. Para definir o ranking, a ONG leva em conta questões como violência contra a imprensa, independência das mídias e transparência. Para Edinei, esse pode ser um reflexo da falta de educação e de cultura de uma parte da população. “Tudo está politizado hoje e o jornalismo não ficou de fora. Chegamos ao ponto de as pessoas terem seus ‘jornalistas de estimação’, ou seja, aqueles que não dão notícia clara e objetiva, mas falam o que a pessoa quer ouvir, seja, a favor deste ou daquele político”.

 

Angela considera que para entender os problemas enfrentados pela imprensa, é necessário compreender, também, os problemas presentes na sociedade, pois esses impactam também o jornalismo. “Muitas vezes a gente vai sofrer essa influência de uma maneira mais forte, digamos assim. E aí é importante pensar no papel que as corporações de comunicação, os conglomerados de comunicação tem nesse processo. É mais fácil você descontar isso no jornalista. E também muito estratégico porque se você generaliza que todos os jornalistas são ruins e que todos os jornalistas mentem e que todos os jornalistas são sem escrúpulos você está criando uma repulsa por um grupo profissional, que começa a ter dificuldades em trabalhar”.

 

Para a Doutora, o jornalismo é atacado por ter a possibilidade de revelar coisas e de expor problemas. Ela também acredita ser importante entender a quem interessa descredibilizar a imprensa pois, geralmente, essas pessoas o fazem para tentar impor como um jornalista deve relatar os fatos para que essa narrativa atenda a seus desejos. “Ele acha que você tem que colocar exatamente o que ele falou lá sem fazer a contraposição, sem buscar provas, sem buscar elementos para essa questão. E não é assim que funciona. O jornalismo é justamente o contrário. É você ouvir os vários lados possíveis, dentro de uma rotina de produção séria, porque o jornalismo funciona como uma indústria, como uma empresa. Dentro dessa rotina ele tem que buscar as informações, e tem que contrapor, buscar o que prova aquilo, o que não prova. Você não é acusatória. Você não é juiz. Jornalista não fica acusando porque ele não é juiz, ele não tem o poder de julgar, de fazer esse processo. Mas o nosso papel é mostrar isso, com responsabilidade, ética e todo cuidado possível”, explica Angela.

 

As fake news, citadas por Edinei anteriormente, também são, para Angela, uma forma de desmoralizar o jornalismo. Em sua opinião, o próprio nome dado ao fenômeno é uma tentativa de relacionar notícias falsas ao processo jornalístico sério. “A gente não está falando de notícias falsas, a gente está falando de desinformação. Um processo de desconstrução da informação. Um processo de pegar elementos que são verdadeiros, misturar com falsos, deturpar imagens, deturpar imagens e áudios nos vídeos, então essa é uma deturpação, uma desinformação. Então o termo fake news é um termo que já vem para mexer com a gente, mexer com o jornalista, com a credibilidade, lembrando que qual é a maior característica do jornalismo? O que o jornalista e o jornalismo por consequência precisam ter? Credibilidade. Se tira a credibilidade dele, fica o quê? Não fica nada. Pode ter empresa, pode ter computador, pode ter dinheiro para fazer jornal, mas não fica nada. Você vai vender o que se você está vendendo uma coisa que ninguém acredita?”.

 

Outro fator citado por Angela é o impacto das fake news para a sociedade no geral, e não apenas para o jornalismo. O fenômeno tem causado problemas tão sérios no país, que o Senado abriu uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito com a justificativa de, segundo a própria comissão, “investigar ataques cibernéticos que atentam contra a democracia e o debate público; a utilização de perfis falsos para influenciar os resultados das eleições 2018; a prática de cyberbullying sobre os usuários mais vulneráveis da rede de computadores, bem como sobre agentes públicos; e o aliciamento e orientação de crianças para o cometimento de crimes de ódio e suicídio”.

 

Para Angela, a luta entre as fake news e o jornalismo é desigual, pois a primeira pertence a uma indústria maior e que pode trabalhar com mais agilidade, visto que não se compromete com a seriedade nem com os princípios de uma produção jornalística. “Elas já não respeitam o princípio da boa informação. Da informação justa, da informação intelectualmente honesta. Então é muito fácil fazer isso, mas é claro que as fake news não existem, a desinformação, esse processo de desinformação, ele não existe à toa. Ele existe porque há um processo político econômico por trás disso. Há interesse. É importante para alguns grupos que esse processo aconteça para que eles tenham força, para que consigam o que eles querem. Então o impacto é muito grande”.

 

Futuro do jornalismo

 

Edinei, que hoje é editor e proprietário do portal JMais, de Canoinhas, além de também ser locutor na rádio 98FM da cidade, conta que começou sua carreira no jornalismo em 2003, atuando como editor do jornal Correio do Norte. Para ele, de lá para cá, a essência do jornalismo continua sendo a mesma: a de buscar pela imparcialidade e objetividade sempre primando pelo justo. Contudo, ele aponta que a forma de produzir o jornalismo mudou com o passar dos anos, por conta do avanço da tecnologia. Pensando no futuro da profissão, Edinei relata não conseguir pensar em uma mudança de sentido para o jornalismo. “Hoje e amanhã ele terá de trabalhar com independência, deixando claro métodos e procedimentos de apuração, buscando ser o mais ético e transparente possível”.

 

Para Cláudia, o futuro do jornalismo será desafiador. A estudante aponta que, para ela, as pessoas tendem a ver a profissão com vislumbre e que imaginam que só é profissional quem trabalha em frente às câmeras. Em sua opinião, o incentivo pela formação e a abertura de discussões sobre o trabalho do jornalista pode fazer com que as pessoas passem a se interessar pelo tema. “Gostaria que as pessoas valorizassem o trabalho do jornalismo local, e quando me refiro ao jornalismo local, é o das mídias que possuem profissionais da área. Apoiar o jornalismo local, com pessoas formadas, é um baita incentivo. A partir do momento que as pessoas entenderem o impacto do jornalismo, as engrenagens andarão um pouco mais”.

 

Angela acredita que o futuro do jornalismo depende de como ele será trabalhado no presente. Para ela, a profissão precisa ser mais transparente e ser mais aberta quanto ao processo de produção dos materiais jornalísticos, como forma de mostrar para o público todo o processo por traz de uma reportagem. Ela aponta, ainda, que em sua opinião o jornalismo já mudou bastante, e está entendendo a importância de oportunizar conhecimentos e de relatar os fatos de maneira crítica, honesta, séria e focada em mais de uma forma de abordagem. “Eu acho que o futuro é o que a gente faz hoje. O futuro vai ser bom, vai ser produtivo, vai ser cheio de tecnologia, produtos tecnológicos, de muito podcasts, vídeos, blogs, instagrams e outras redes sociais que devem surgir por aí, se a gente fizer o trabalho bem feito hoje, todos os dias”.

 

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