Vaga na universidade conquistada com uma bravura admirável
Despir-se de preconceitos nos faz um pouco melhores como seres humanos. Essa frase nos leva a refletir, a pensar o quanto o mundo seria um lugar melhor se todos vivessem longe de rotulações. Quando nos deparamos com a história de uma jovem de 19 anos com Transtorno do Espectro Autista (TEA), hipertensa e epilética, que conquistou uma vaga no curso de Direito da Universidade Estadual do Paraná (Unespar) com a 24ª colocação geral em primeira chamada no vestibular do referido curso, conseguimos enxergar que não existe limitação quando se tem um sonho. Wendy Vitória Pereira Andreiov teve seu nome estampado na lista dos aprovados no dia 10 de janeiro de 2025. A partir de agora, a futura advogada dedicará boa parte de sua rotina aos estudos na universidade. Chegar até aqui foi um grande desafio. Daqui para frente, continuará sendo. Mas essa é uma história repleta de obstáculos e de uma bravura admirável.
“Nessa nova etapa, eu espero me tornar uma ótima advogada”, diz Wendy, orgulhosa de sua mais recente conquista. O olhar de Wendy transmite determinação.
“Ela sempre foi muito estudiosa. O autismo, a hipertensão e as convulsões debilitam bastante a saúde dela, mas ela sempre foi muito guerreira. A Wendy se formou no ensino fundamental, no ensino médio, eu sempre busquei isso tudo por ela porque eu não quero engavetar a minha filha, eu quero mostrar ao mundo do que ela é capaz”, destaca Siane Pereira Andreiov, mãe e maior incentivadora.
O diagnóstico do TEA veio de forma tardia na vida de Wendy, somente aos 13 anos de idade. “Ela toma medicação controlada desde pequena, muito por conta da epilepsia. E o laudo do autismo eu descobri aos 13 anos através do doutor Emerson Canelo (neurologista), que também é um anjo da guarda, é ele quem faz todo o acompanhamento da Wendy”, conta Siane, que preside a instituição Autismo Sem Barreiras em União da Vitória. “Os pediatras diziam que não tinha nada, que era normal, uma fase, mas eu nunca desisti, o dia que peguei o laudo em mãos tive a descoberta de como ajudar minha filha, das necessidades dela”, acrescenta.
Wendy iniciou a vida estudantil na Escola Saint Joseph, no bairro São Cristóvão. Foi lá que as professoras começaram a perceber alguns detalhes como a falta de interação com os colegas, a pouca participação em atividades rotineiras dos alunos e o fato de evitar contato pessoal com os demais. “Me ligavam, contavam o que acontecia e isso serviu como um alerta. A partir daquele momento eu vi que ela precisava ser olhada com mais atenção”, relata a mãe. Wendy também frequentou o Colégio São Cristóvão, onde teve na professora Graciele a sua fiel escudeira. “Foi a Graciele quem ensinou redação, pontuação, tudo sobre português com muito carinho e dedicação. Parabenizo a toda equipe, em especial as professoras Sandra Souza, Marizane Lopedote e Graciele da Silva”, agradece Siane.
A inspiração
Quando se escolhe uma profissão geralmente temos alguém que nos inspira, que é uma referência. Com a Wendy não é diferente. Ao iniciar um estágio voluntário no Centro Judiciário de Solução de Conflitos e Cidadania (Cejusc), na Vara da Infância, Juventude e Família de União da Vitória, ela conheceu uma profissional que virou muito mais que uma colega de trabalho. “Vendo a forma como ela encara o trabalho eu passei a me interessar pelo Direito”. Wendy está falando da advogada Mariana Von Knoblauch.
No CEJUSC, Mariana sempre era bastante atenciosa, tomava café junto e se mantinha presente no dia a dia de Wendy. “A Mariana é a inspiração dela. Um dia ela chegou para mim e disse: ‘mãe no final do ano eu quero fazer vestibular para Direito’. Eu tranquei um curso que ela fazia à distância e o foco passou a ser o vestibular”, destaca Siane. “Quando eu recebi a notícia da aprovação, que foi enviada por uma amiga, eu quase tive um ‘chilique’, passei mal, a emoção é muito grande de ver tua filha aprovada em uma universidade pública”, comenta a mãe de Wendy. No dia em que soube da aprovação, a jovem estava com a família em Aparecida, no interior de São Paulo, realizando o desejo de conhecer a cidade. Naquele dia, por conta da viagem longa e desgastante, Wendy havia convulsionado diversas vezes.
A pedido da reportagem, a advogada Mariana Von Knoblauch escreveu um texto parabenizando a conquista de Wendy:
Wendy, minha querida!
Seus sonhos sempre foram tão grandes quanto o brilho que carrega no olhar, e sua determinação é daquelas que contagiam e inspiram! Desde os nossos dias no CEJUSC, eu já sabia que você tinha algo especial, um brilho único que ilumina qualquer lugar.
Sua aprovação no vestibular de Direito da Unespar não foi uma surpresa, mas uma confirmação do que todos que te conhecem já sabiam: você é capaz de alcançar tudo o que deseja com sua dedicação e talento.
Parabéns por essa conquista maravilhosa! Você é o exemplo perfeito de perseverança, superação e resiliência. Sua trajetória enche de orgulho quem tem o privilégio de te acompanhar e inspira todos ao seu redor.
Estou aqui, pronta para celebrar cada novo passo dessa caminhada ao seu lado!
Continue brilhando, Wendy! O futuro é todo seu, e ele promete ser incrível!
Com carinho e admiração,
Mariana
E além da Mariana, outra pessoa no CEJUSC também mereceu todo o reconhecimento de Wendy. O Juiz de Direito Carlos Eduardo Mattioli Kockanny. “O doutor Carlos é a pessoa mais inclusiva que eu encontrei na cidade. Ele fez parte de tudo isso, acolheu, deu a oportunidade de fazer o estágio voluntário, no CEJUSC ela é assistida pelos funcionários, eles atendem, cuidam dela, é uma família”, relata a mãe da futura advogada.
Para o doutor Carlos Mattioli, a jovem sempre foi valorizada pelas suas potencialidades e compreendida nas suas individualidades. “Nós sempre procuramos criar um ambiente de integração, de inclusão, acolhedor, uma verdadeira comunidade familiar. Não apenas ficando nas palavras, na esfera pública, mas também dando o exemplo, nos transformando para melhor compreender e nos qualificando pessoalmente para fazer a inclusão do público autista na sociedade”, comenta Mattioli.
Ele ressalta que Wendy é uma pessoa muito especial, afetuosa e que quando chegou para fazer parte da equipe de trabalho o objetivo foi definido em dois viés: primeiro a compreensão, a identificação e valoração das particularidades da Wendy. E em segundo, concomitantemente, não criando diferenças e situações que pudessem se tornar obstáculos para o seu pleno desenvolvimento como pessoa e profissional. “A Wendy sempre foi valorizada pelas suas pontencialidades. E não é a toa que ela tem se destacado na busca por oportunidades, tal qual essa grande benção que foi fazer um vestibular difícil, num curso concorrido, em uma universidade pública. Obter sucesso, na nossa visão, como parceiro da Wendy, é mais um passo de muitas coisas boas que ela ainda vai conseguir ao longo da sua vida, mostrando que a inclusão é possível e que quando isso ocorre, as pessoas chegam muito longe, chegam onde elas gostariam de chegar”, diz Mattioli.
Wendy já revelou que área do Direito pretende seguir, causando um certo espanto na mãe Siane durante a entrevista. “Eu vou para o Direito Penal”, garante. “Nossa, estou sabendo disso agora”, reagiu Siane.
Nova etapa
Agora, além de seguir com o seu estágio no Cejusc, Wendy passará a frequentar o campus da Unespar em União da Vitória. Todas as informações para que ela tenha um bom acolhimento já foram repassadas à família. “A Wendy passou no vestibular na vaga de cotista (para deficientes), mas com o desempenho dela nem precisaria, ela entraria na concorrência geral por ter ficado na 24ª colocação em primeira chamada. A Unespar é uma universidade inclusiva, já nos passaram tudo, como será o acompanhamento dela, a adaptação curricular também, todos têm sido bem acolhedores. A Unespar tem uma equipe de inclusão, multidisciplinar”, afirma Siane.
Wendy já foi campeã de redação, em 2023, no concurso Agrinho, promovido pelo Sistema Federação da Agricultura do Paraná (Faep) e pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Rural – Senar-PR), em parceria com o Governo do Estado. Mas não pense que a Wendy se dedica somente ao trabalho e aos estudos. Ela também faz equoterapia – método terapêutico e educacional, que utiliza o cavalo dentro de uma abordagem multidisciplinar e interdisciplinar, nas áreas de saúde, educação e equitação, buscando o desenvolvimento biopsicossocial de pessoas com deficiências e/ou necessidades especiais.
Para a mãe, Siane, a causa autista já conquistou muitos avanços nos últimos anos, mas ainda longe do ideal. “Avançou, mas a gente ainda vê muito preconceito, falta de informação, pessoas que perguntam o que é o autismo. Alguns dizem que ela não tem cara de autista. Eu respondo: ‘claro, o autista não tem cara’. Nós precisamos melhorar muito ainda, têm direitos que foram conquistados, os pais estão usufruindo, porque também não é fácil ser pai e mãe atípicos, não é nada fácil”.
Ao ser perguntada sobre o que gosta de fazer nas horas vagas, Wendy não titubeou. “Eu gosto de ver filmes, assistir séries e brincar com as minhas cadelas, a Panda e a Princesa”. E ela também fez questão de citar outras pessoas que estão sempre ao seu lado, destacando a importância dos avós e da irmã, Yasmin, na sua vida e na realização do sonho de cursar Direito. Não esqueceu da amiga Cidinha, do vovô Osni e da vózinha Nair que hoje não se encontra entre nós mas comemora no céu.
Uma história inspiradora, uma jovem que enfrenta os obstáculos com uma força e sabedoria fora do comum. Uma frase dita por Siane chamou a atenção e resume muito bem o sentimento ao fazer contato com a Wendy. “No silêncio do autismo tem uma inteligência inexplicável”. Sucesso Wendy.
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