Crônica: A vida não é triste (Homenagem a Rubem Braga)
Sabe-se lá por qual motivo resolvi, enquanto dirigia pelo interior de Goiás, sintonizar na AM. Curiosamente tocava a marcha eslava, de Tchaikovski. Surpreso e feliz, aumentei o volume até onde pude e embalei um pouco mais o carro. Logo entendi que de tempos em tempos a rádio colocava a música em segundo plano para que um locutor, de voz aveludada e sedutora, lesse mensagens enviadas por ouvintes do Brasil inteiro. Por esse preciso motivo eu soube que um certo Sr. Joaquim, morador da fazenda Bom Sucesso, em São Raimundo das Mangabeiras, no Maranhão, pedia para avisar sua filha Cleonice, moradora da zona rural do Município de Joaçaba, em Santa Catarina, que podia ficar tranquila, porque o dedão do pé direito já havia desinchado. Atônito, perdi a direção e quase capotei.
No acostamento mesmo, enquanto recuperava o fôlego, descobri que entre o tal dedão desinchado e a zona rural de Joaçaba existem 2977 km de estradas, num percurso sofrido que levaria pelo menos 39 horas para ser percorrido de carro. Descobri também que isso, em verdade, pouco importava, pois nada se comparava à grandeza do que eu acabara de ouvir. Fiquei profundamente tocado pela preocupação do pai em relação à saúde dos nervos da filha, a qual certamente perdia o sono e virava noites em claro a pensar nos terríveis prognósticos para o pé de seu amado pai. Que o Brasil tenha sabido de ponta a ponta a trama de amor e preocupações familiares, é só um mero detalhe, o recado estava dado e Cleonice certamente voltaria a dormir.
O jeito então era seguir viagem, na expectativa de escutar mais e novos avisos como aquele vindo do Maranhão. Foi assim que fiquei sabendo que o Sr. Afonso, residente em Alto Alegre, Roraima, havia chegado bem (não se sabe de onde); que a família de Emenegildes Silva, de Jerumenha, no Piauí, iria sim viajar para o batizado do afilhado Ivan, a ser realizado em Monte Azul Paulista no maio próximo; também, que Tião Vaqueiro, de Formoso do Araguaia, Tocantins, acabou por cair do cavalo e quebrar duas costelas enquanto fazia uma junta de bois transpor o Rio São Francisco (sabe-se lá como), mas que já havia sido atendido e passava bem no hospital municipal de Xique-Xique, na Bahia. Sim, esse Brasil ainda existe e, entre tantos aplicativos disponíveis para comunicação instantânea, foi nas ondas moduladas da AM que encontrei novamente a etnografia de um país profundo, sofrido e belo, de dimensões continentais e coloridos diversos.
Seguia na viagem e por nada passei para encontrar logo adiante um trevo, dos mais curiosos que já vi na vida. Nele uma placa dizia que se eu seguisse para a esquerda eu iria para o Município de Israelândia, mas que se eu seguisse para a direita iria para o Município de Palestina de Goiás. Acreditem. Nós conseguimos colocar lado a lado, no meio do cerrado, a Palestina e a terra de Israel. Só por isso não duvido de mais nada por aqui. O espanto, porém, veio quando percebi qual era lugar onde eu estava, pois o curioso trevo fica no Município de Iporá, exatamente o mesmo que foi imortalizado por Rubem Braga naquela que é considerada uma das mais belas crônicas da literatura brasileira, escrita em 1986 e intitulada “Sizenando, a vida é triste”. Tal texto, que recomendo a leitura, fala sobre os benefícios de acordar cedo, sobre jardins floridos, sobre aulas de esperanto e, claro, sobre o amor. Naquele trevo tão longe de onde vivo, relendo em memória a crônica de Rubem Braga e prestes a decidir para qual lado ir, lembrei que o esperanto foi pensado para fazer amigos e para unir povos. Sua lógica é a da esperança e, parado no trevo, eu por ela fui tomado.
A marcha eslava acabara há muito, mas na AM o locutor de voz aveludada e sedutora lia ainda uma mensagem, talvez a última do dia. Dizia ele que a Sra. Jacinta, com 96 anos, moradora do recôncavo baiano, mandava dizer a todos que pudessem lhe ouvir que Américo Aparecido, de idade incerta, local de residência desconhecido e possibilidade de morte ignorada, é o amor de toda sua vida, sempre o foi e o será até o último suspiro. Simples e direito assim, aos 96 anos ela decidiu transmitir ao mundo aquilo que conservava guardado já há décadas em algum canto de sua alma e de seu coração, o amor. Vejam só, às voltas com a crônica de Braga e com a esperança, ouvi ali também sobre um amor que não acaba. Emocionei-me.
Com um pouco de folga na agenda, carregado pelas sentimentalidades do dia, resolvi então que era melhor não ir para lado algum, mas pernoitar na cidade do trevo curioso. Encontrei onde dormir e, já no hotel, entendi por bem que deveria colocar em texto a crônica que se escreveu ao longo dos quilômetros e das ondas moduladas do meu dia. Antes, porém, procurei o contato da rádio AM e enviei uma mensagem ao programa que ouvira. Fui dormir sem saber se na edição seguinte seria lido o meu recado, mas pedi ao locutor que transmitisse ao Brasil que Fernando, de União da Vitória, no Paraná, havia chegado bem em Iporá, Goiás, que não havia encontrado o Sr. Sizenando da famosa crônica, que também não o havia procurado, que estava encantado com o amor eterno de Jacinta por Américo Aparecido lá no recôncavo baiano, que recomendava sempre a leitura de Rubem Braga, que a vida não é triste, que admirava mas não falava o esperanto, que dispensava a marcha eslava ao fundo da transmissão mas que não abria mão da voz aveludada e sedutora do locutor e, por fim, que para o bem definitivo dos nervos da Sra. Cleonice, de Joaçaba, Santa Catarina, torcia avidamente pela melhora completa do dedão do pé direito do Sr. Joaquim, pai dela, no Maranhão.

Fernando Perazzoli é professor e Advogado, tendo atuado por mais de dez anos no ensino superior em União da Vitória e Porto União. Além disso, lecionei na Universidade Federal de Santa Catarina, na Universidade de Coimbra (PT) e na Universidade de Mumbai (Índia). Fui consultor da Fundação Oswaldo Cruz (RJ e DF). Exerci o cargo de Diretor Municipal no Poder Executivo de União da Vitória e o de Coordenador Jurídico na Secretaria de Atenção Especializada do Ministério da Saúde, em Brasília. Atualmente sou Professor de Direito Constitucional da UNIEURO (Brasília) e trabalho no Ministério Público do Estado de Goiás. Contato: perazzoli@gmail.com/@fernandodavidperazzoli.



