Crônica: Acasos
Em texto volto a elas, mais de dez anos depois. Elas, aqui, é uma referência tanto a uma crônica que certa vez publiquei quanto a Lorré, uma pessoa incrível com quem tomei um café, há muito. Confesso, o plano era hoje escrever tão somente sobre capivaras, mas um acaso levou meus pensamentos para outra paisagem. Vamos lá.
A data era precisamente 05 de julho de 2014, 15:00 horas, um dia antes do meu regresso ao Brasil, depois de uma temporada inteira no além-mar por questões acadêmicas. Eu estava no aeroporto de Beauvais, na França. O lugar estava lotado, com gente aguardando vários vôos atrasados, motivo pelo qual calhou de Lorré e eu, dois desconhecidos, acabarmos juntos na mesma mesa de café – a última que havia disponível por ali. Foi assim que na inacreditável hora que se passou até o momento em que o vôo dela partiu, soube que Lorré viajava o mundo a fazer espetáculos com seu circo de marionetes. Disse-me ela, entre um café e outro, que amava o que fazia e que não se via fazendo outra coisa. Era nitidamente uma pessoa muito feliz e de bem com a vida. Aliás, estava ali para uma viagem rumo a um país distante, onde apresentaria sua nova peça.
Na mesma tarde em que a conheci escrevi a crônica que mais trouxe retorno por parte dos leitores e leitoras. Disse eu, nas poucas linhas de um texto escrito de forma mais passiva do que racional, que havia sido profundamente tocado pela alegria daquela jovem que viajava a encantar o mundo com marionetes. Falei também que eu, por outro lado, recém saído do claustro da literatura técnica e certamente a exalar o cheiro dos alfarrábios, mal sabia o que fazer da vida e, menos ainda, podia dizer com alguma segurança se havia encontrado a felicidade, até porque, ao contrário das marionetes, a teoria e a filosofia do direito não são coisas que genuinamente encantam as pessoas.
Creio que com Lorré aprendi de alguma forma sobre o desprendimento, sobre os sonhos e sobre a alegria de estar no mundo, sobre ser e aceitar-se como se é, sobre a felicidade. Aquele café com ela, portanto, não só rendeu uma das crônicas mais legais que já escrevi como, igualmente, mudou muito o foco pelo qual eu olhava para o mundo. Por coincidência e infelicidade, ambas se foram da minha vida e nada restou senão a memória. Lorré sumiu no meio das nuvens, rumo a um lugar que eu não sabia onde era… e a crônica, por sua vez, perdeu-se numa conta antiga de facebook, há muito deletada, não tendo restado registro algum para eu mesmo poder lê-la outra vez.
Gosto de pensar que a história do acaso com Lorré é boa porque serve para lembrar, de tempos em tempos, que algumas vezes na nossa experiência mundana talvez não haja predeterminação e não haja mão divina, mas só o acaso mesmo. Acasos que mudam a rota, que encerram ciclos e que dão início a algo novo. São os caminhos que pegamos sem querer, as pessoas com quem nos encontramos no meio do nada, as músicas que ouvimos de modo aleatório, o acidente em que nos envolvemos e até a perda de alguém, entre infinitas outras coisas que podem nos acontecer pelo simples fato de estarmos por aqui. Acasos a partir dos quais construímos, reinventamos, sublimamos ou, de forma bem simples, damos um jeito e seguimos em frente. Se olharmos para trás é possível que não encontremos uma explicação para cada coisa que se passou e para alguns dos caminhos que trilhamos até aqui. Poderíamos acreditar que foi simplesmente o acaso?
Penso que sim e algo reforça essa conclusão. É que de volta às redes sociais eu me deparo constantemente com perfis de pessoas que há mais de década não via, de quem eu nem mesmo lembrava. São “sugestões” que o algoritmo resolveu me dar, consoante meu perfil (que eu mesmo desconheço qual seja para ele). Quando possível, olho com atenção os caminhos que essas pessoas trilharam, por onde passaram e onde estão. Vi, por exemplo, uma querida aluna que há 15 anos nem mesmo conseguia ir para a faculdade sozinha. Na foto, estava no alto de uma montanha, com gelo até na sobrancelha e segurando a bandeira do Brasil há milhares de metros de altitude. Virou alpinista de primeira linha. Outra pessoa, com quem estudei na escola primária, odiava futebol e esportes mas – rufem os tambores – é hoje dirigente de um clube da primeira divisão do campeonato brasileiro! Os exemplos são inúmeros, inesgotáveis. As vezes fico pensando: terão essas pessoas encontrado alguma Lorré por aí? É bacana pensar que pode ter sido para elas, quiçá, um acaso qualquer que as levou para lugares e experiências inimagináveis.
Como falei, pretendia escrever sobre capivaras, mas um acaso levou meus pensamentos para outra paisagem: o aplicativo me sugeriu como amizade um perfil que não tinha nome pessoal. Era um conta comercial, de um circo de marionetes cuja sede fica numa cidade que não sei onde é. Será Lorré? Impossível saber mas, de qualquer forma, deixou-me a pensar que o tempo passou e que esta crônica sobre uma crônica de um acaso é um revisitar. Escrevê-la é poder estar novamente naquele aeroporto, naquele café. É como se lá eu e Lorré nos encontrássemos novamente e passássemos um tempo qualquer a contar o que se passou nesses anos todos, antes de entrarmos em nossos aviões e sumirmos no céu, cada um para um lugar qualquer. É difícil que isso aconteça e, justamente por isso, vou traduzir essa crônica em várias línguas e espalhá-la pelo mundo das redes sociais. Quem sabe chegue até ela, ao acaso.

Fernando Perazzoli é professor e Advogado, tendo atuado por mais de dez anos no ensino superior em União da Vitória e Porto União. Além disso, lecionou na Universidade Federal de Santa Catarina, na Universidade de Coimbra (PT) e na Universidade de Mumbai (Índia). Foi consultor da Fundação Oswaldo Cruz (RJ e DF). Exerceu os o cargo de Diretor Municipal no Poder Executivo de União da Vitória, de Coordenador Jurídico na Secretaria de Atenção Especializada do Ministério da Saúde, em Brasília e de de Assistente para Probidade Adminsitrativa e Curatela do Patrimônio Público junto Ministério Público do Estado de Goiás. Atualmente é Professor de Direito Constitucional da UNIEURO (Brasília) e consultor para o FNDE. Contato:perazzoli@gmail.com/@fernandodavidperazzoli.


