Crônica: Compliance de festinha

Era um dia normal de aniversário de criança, como qualquer outro hoje em dia. Os cachorros-quentes e a pipoca estavam lá, assim como também lá estavam os balões, salgadinhos, sucos, refrigerantes, docinhos e, sem dúvida, o bolo. A temática era do homem aranha e, percebi, ninguém estava obrigado a usar aqueles chapéus cônicos, presos à cabeça por um elástico que passava embaixo do queixo e que só servia para pinicar, incomodar e machucar. Aliás, foi justamente diante da ausência desse chapéu que me dei conta, talvez tardiamente, que as coisas efetivamente mudaram em termos de festinhas infantis.

Crônica: Compliance de festinha

Foto: Freepik

Não falemos aqui das preocupações com a qualidade alimentícia do que é servido aos convidados. Nesse quesito os anos oitenta e noventa, época em que frequentei tais festas como criança, não possuem credibilidade alguma para discutir qualquer coisa, seja pela quantidade de açúcar e gordura que havia em tudo que tínhamos para comer ou, pior ainda, pela simbologia embutida naquilo do que nos davam, como, por exemplo, os sucos que vinham dentro de arminhas de plástico e que devíamos beber pelo cano da arma. Péssimo. Lembro, aliás, que em uma festinha da escola nos serviram cigarros de chocolate armazenados dentro de uma embalagem com estampa de bichinhos. Ficamos lá, na festinha, dez crianças de oito anos sentadas em roda, a imitar um fumódromo e tragando, mordida após mordida, aquela iguaria industrializada de chocolate hidrogenado.

Percebi mesmo que as coisas mudaram quando entendi que a própria lógica fundante da festinha é agora diferente. Antes, sabia-se que os parabéns seriam cantados em torno das 16 horas, mas era permitido aos convidados chegar a qualquer momento, inclusive no dia anterior e com direito a pouso. Aliás, em tal universo de outrora era até de bom alvitre que pais e mães de crianças convidadas chegassem bem antes de soprar as velinhas, afinal num evento comemorativo em que tudo era feito em casa, quem chegasse já ganhava uma função e começava a fazer algo em prol do coletivo, o que podia ser tanto arrumar a decoração com bandeirinhas quanto carnear, limpar, temperar e depois assar um leitão inteiro. Toda gente fazia de tudo e se integrava à festa como se fosse sua. As crianças, por sua vez, que fossem brincar no pátio, no potreiro ou na rua, desde que não incomodassem os adultos e não se machucassem, o que em ambos os casos era inevitável.

Hoje, porém, o compliance é outro. O primeiro diferencial é que a festa infantil tem horário para começar e acabar. Sim, nas festas de criança de hoje deve-se chegar no horário combinado, comer conforme previsto, brincar consoante estabelecido por recreadores e, mais importante ainda, ir embora na hora certa. Além disso, tudo que nela é servido foi comprado em alguma confeitaria especializada e, diga-se, muitas vezes é realizada na própria confeitaria, no famoso espaço kids. Hoje, ao invés de um tio maluco com um cigarro na boca a servir para as crianças gengibirra quente e carne mal assada com farinha pinduca, os convivas são atendidos por garçons, muito polidos e educados, sempre a garantir que seu copo não ficará vazio de suco de uva orgânico e que você terá à mão, sempre que preciso, uma porção quentinha de risoto de pêra com gorgonzola.

Vale falar, ainda, dos presentes. Claro que eles continuam na lógica das festinhas, afinal não há como ir a aniversário infantil só com as mãos abanando. Pessoalmente, prefiro dar quebra-cabeça, que além de clássico tem lá seu efeito positivo no desenvolvimento neural do infante. A questão que me saltou aos olhos, porém, foi que agora a gente não entrega mais o presente para a criança, eis que o correto é depositá-lo numa caixa ornamentada disposta e preparada para tal. Muitas vezes a criança nem vê que o amiguinho ou amiguinha trouxe algo e, pior, quem presenteia sequer tem aquele momento lindo de entregar em mãos aquilo que comprou para alguém. Uma pena. Era sempre divertido, especialmente quando as crianças, que nunca mentem, diziam de pronto ao convidado que não haviam gostado do presente que acabaram de ganhar.

Fiquei ali a observar tudo, sentindo um pouco do impacto geracional e das vicissitudes de tais festas de hoje em dia, até que um senhor, muito educado e polido, tocou meu ombro e me perguntou se eu gostaria de comer algo. Era o garçom, que prontamente me entregou uma porção de risoto de pêra com queijo gorgonzola. O relógio marcava 15h30 da tarde. Aproveite que dentro de meia hora vamos cantar os parabéns, disse-me ele, a lembrar-me que estávamos dentro do horário previsto e que, como um vôo no aeroporto, não poderia haver qualquer atraso. Do garçom, recebi ainda um copo de suco de uva orgânico. Fiquei ali, no meio da tarde, a pensar na vida enquanto comia risoto e tomava suco de uva, afinal era só um dia normal de aniversário de criança.

Fernando Perazzoli é professor e Advogado, tendo atuado por mais de dez anos no ensino superior em União da Vitória e Porto União. Além disso, lecionou na Universidade Federal de Santa Catarina, na Universidade de Coimbra (PT) e na Universidade de Mumbai (Índia). Foi consultor da Fundação Oswaldo Cruz (RJ e DF). Exerceu os o cargo de Diretor Municipal no Poder Executivo de União da Vitória, de Coordenador Jurídico na Secretaria de Atenção Especializada do Ministério da Saúde, em Brasília e de de Assistente para Probidade Adminsitrativa e Curatela do Patrimônio Público junto Ministério Público do Estado de Goiás. Atualmente é Professor de Direito Constitucional da UNIEURO (Brasília) e consultor para o FNDE. Contato: perazzoli@gmail.com/@‌fernandodavidperazzoli.

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