CRÔNICA: Generosidade

A história é verdadeira: o misto quente mais gostoso que já comi foi feito na casa de Anne Frank. Claro que entre a vida dela e o meu café da tarde mais de 70 anos se passaram, não há mais nazistas no local e hoje o lugar é um museu, com uma grande cafeteria instalada na saída e com uma bela vista para os canais de Amsterdam.

A memória sobre esse fato não me chegou, porém, por via do misto quente, das imagens da guerra ou mesmo por ter topado com o diário dela enquanto procurava um livro qualquer na estante, hoje pela manhã. Lembrei do acontecimento por ricochete, exatamente no momento em que lia a belíssima crônica de Rubem Braga, intitulada Sopa e publicada no Correio da Manhã em março de 1952. Nela o Autor narra o fato de um menino pobre pedir dinheiro a um homem para tomar um prato de sopa. Sim, de sopa. A desconfiança do homem imperou e, mesmo tendo dado o dinheiro ao pedinte, seguiu-o sorrateiramente até os fundos de um restaurante onde, incrédulo, viu-o pedir, pagar, receber e saborear um farto prato de sopa. Por que, nos interroga Rubem Braga de maneira genial, desconfiamos de alguém que deseja tão somente um prato de sopa?

Claro, se você gosta das tirinhas da Mafalda ou mesmo se já foi obrigado a resolver o problema de algum infante esfomeado, certamente terá toda a razão para suspeitar que uma criança verdadeiramente venha a pedir dinheiro para tomar sopa, afinal os caldos, as minestras e as canjas nunca estiveram, não estão e jamais estarão no topo da cadeia de consumo. A questão, porém, não é essa. Braga usa a sopa apenas como artificio para nos questionar sobre a crença nos outros e sobre a generosidade que (ainda) podemos.

Sem dúvida a casa de Anne Frank foi um lugar de muita generosidade, afinal não se pode esquecer que foram aproximadamente dois anos de ajudas e de compromisso alheio com a vida, até que em agosto de 1944 as tropas nazistas invadiram o local e levaram toda a gente para campos de concentração. O fim da história, já o sabemos.

Braga me fez lembrar que naquela tarde em Amsterdam eu me interrogava exatamente sobre a generosidade. Lá na casa de Anne Frank, quando fui comprar um lanche, percebi que o dinheiro me faltava, eis que eu havia esquecido a carteira no hotel. Enquanto me desculpava pela confusão toda fui abordado por uma pessoa, que gentilmente se ofereceu para me auxiliar com o embaraço. Aceitei de bom grado, ainda que um pouco constrangido, e convidei-a para se sentar comigo a fim de conversarmos um pouco. Era uma senhora já idosa, cuja família havia fugido da Europa para o Brasil durante a segunda guerra mundial. Disse-me que sentia pelos brasileiros um carinho enorme e uma gratidão profunda, especialmente pela acolhida com que sua família havia sido recebida no sul do Brasil e pela generosidade das pessoas nos primeiros tempos. Ela falava português de uma forma bem rudimentar e de difícil compreensão, mas pude entender suas histórias perfeitamente. Gosto de pensar que a generosidade de alguém no Brasil, que muito antes de mim acolheu a família dela, culminou na generosidade com que ela me ofereceu um lanche. Mais de 70 anos depois, na casa de Anne Frank, ganhei um café com leite e um misto quente, o melhor que já comi na vida, não tanto pelo gosto, mas pela boa lição que aprendi naquele dia.

Fernando Perazzoli é professor e Advogado, tendo atuado por mais de dez anos no ensino superior em União da Vitória e Porto União. Além disso, lecionou na Universidade Federal de Santa Catarina, na Universidade de Coimbra (PT) e na Universidade de Mumbai (Índia). Foi consultor da Fundação Oswaldo Cruz (RJ e DF). Exerceu os o cargo de Diretor Municipal no Poder Executivo de União da Vitória, de Coordenador Jurídico na Secretaria de Atenção Especializada do Ministério da Saúde, em Brasília e de de Assistente para Probidade Adminsitrativa e Curatela do Patrimônio Público junto Ministério Público do Estado de Goiás. Atualmente é Professor de Direito Constitucional da UNIEURO (Brasília) e Consultor para o FNDE. Contato: perazzoli@gmail.com/@‌fernandodavidperazzoli.

Possui alguma sugestão?

Clique aqui para conversar com a equipe de O Comércio no WhatsApp e siga nosso perfil no Instagram para não perder nenhuma notícia!

Voltar para matérias