Crônica: Logísticas de avó

Dizem por aí que a maior e mais complexa operação logística de que se tem notícia no Brasil é a realização das eleições. Sem dúvida, quem já participou de alguma sabe como é o tal final de semana das votações, de forma simultânea e padronizada num país continental, com seis biomas e com diversidades infraestruturais e étnico-cultural únicas. Quem reproduz tal afirmação, porém, não sabe o que é trazer a avó do interior do Paraná para visitar a neta em Brasília. Falemos sobre isso.

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Foto: Freepik

A coisa toda começa uma semana antes. Marcada a viagem, inicia-se então um protocolo que, descobri recentemente, é seguido à risca por todas as avós que vão visitar as netas em outra cidade. Pois bem, o primeiro momento é marcado pela troca incessante de mensagens entre várias avós. Um “fui chamada” é seguido de um “talvez eu vá” e, depois de circular ininterruptamente no WhatsApp e no Facebook, culmina num “tenho que ir”. A teia social então se move para rapidamente cabeleireiro e manicure serem agendados. Segue-se a visita a alguma loja para uma roupa nova, ao que se sucede uma outra para um presentinho e mais outra ainda para lembrancinhas, sempre a extrapolar, claro, as regras sobre tamanho e pesos da bagagem. Certamente você já viu isso acontecer.

Concluída a etapa, inicia-se a fase dois, do deslocamento propriamente dito. Estranhamente, porém, ela é aberta na véspera, com a visita de parentes e amizades à casa da avó-peregrina, num ritual de despedidas, agouros, vaticínios, bem-quereres, estimas e arrevoares como se ela fosse viajar com o barqueiro Caronte até Hades, não com o senhor Antônio, motorista do ônibus que a levará até Curitiba. De qualquer sorte, no dia seguinte, às 06:00 da manhã e com negativos três graus na rodoviária de Porto União (SC), a avó parte para, com um pouco de atraso em razão de obras na pista, chegar em Curitiba cinco horas depois, onde outra equipe de elite, técnica e bem-preparada, taticamente já a esperava de prontidão.

Inicia-se a fase três, que envolve o translado da rodoviária até o aeroporto, com uma parada para almoço. Nada é mais sensível que este ponto, pois a avó se encontra já em terra outra, com todos os perigos e monstros que só Curitiba, numa manhã calma e ensolarada de sábado pode oferecer. A equipe faz a varredura do perímetro, atiradores de elite e agentes disfarçados se posicionam taticamente para, com segurança, a avó atravessar a rua e almoçar em absoluta segurança no Mercado Municipal.

Exatos 33 minutos depois, segue a comitiva até o aeroporto, via Avenida das Torres. Batedores rasgam o congestionamento de três carros e organizam a faixa livre para o carro com a avó passar. Do alto, agentes em helicópteros analisam a movimentação nos arredores de modo a desmantelar qualquer possibilidade de ações surpresas e furtivas. Em Brasília, numa sala de situação exclusivamente montada para o caso – estranhamente o sofá da minha casa – eu e o gato acompanhamos a situação com cautela.

Já no aeroporto, abre-se a fase quatro da operação, na qual a equipe de cerimonial da companhia aérea cumpre o protocolo diplomático, vip e exclusivo pelo qual a avó é conduzida até um banco de alumínio gelado e fica lá a esperar o vôo. Agentes de segurança fazem o monitoramento dela e de um idoso gaulês, que dorme profundamente no banco ao lado depois de ter tomado Rivotril por engano. O vôo transcorre normalmente, sem turbulências e com escolta da força aérea brasileira para, duas horas depois da decolagem, pousar tranquilamente na base aérea de Brasília, onde a netinha esperava ansiosa pela avó.

É, dizem que a eleição brasileira é a maior e mais complexa operação logística de que se tem notícia no Brasil. Fica aqui provado o contrário, particularmente porque a eleição e a democracia não contam com o imaginário do filho, dos parentes e, sobretudo, da neta. Viagens pelas linhas do realismo fantástico são efetivamente incríveis, ainda mais quando se utiliza tal processo criativo para explicar a uma criança o motivo das preocupações e, confesse-se, para dar conta da ansiedade gerada pela visita tão aguardada. A única coisa que não consigo entender, porém, é o desfecho. A avó, que não havia até então viajado sozinha de avião e, portanto, deveria relatar com exaspero a saga, surgiu no portão de desembarque tomando Fanta Uva, feliz da vida e junto ao seu novo amigo, Wesley Safadão. Perguntei a ela o que havia acontecido, ao que me respondeu na maior alegria: – Meu Best Friend, viajamos juntos e falei para ele que vou lhe dar uma meia de tricô… Hashtag: morri.

Fernando Perazzoli é professor e Advogado, tendo atuado por mais de dez anos no ensino superior em União da Vitória e Porto União. Além disso, lecionou na Universidade Federal de Santa Catarina, na Universidade de Coimbra (PT) e na Universidade de Mumbai (Índia). Foi consultor da Fundação Oswaldo Cruz (RJ e DF). Exerceu os o cargo de Diretor Municipal no Poder Executivo de União da Vitória, de Coordenador Jurídico na Secretaria de Atenção Especializada do Ministério da Saúde, em Brasília e de de Assistente para Probidade Adminsitrativa e Curatela do Patrimônio Público junto Ministério Público do Estado de Goiás. Atualmente é Professor de Direito Constitucional da UNIEURO (Brasília) e e Consultor para o FNDE. Contato: perazzoli@gmail.com/@‌fernandodavidperazzoli.

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