Crônica: Bomboniere

Eis que fomos convidados para um casamento. Quem nunca, não é? Festa de casamento é porto seguro, não tem segredo, não tem surpresa. Só seguir o fluxo. Sobre o que ninguém fala, porém, é sobre o presente que se deve dar ao casal. Aí sim a coisa fica complicada. Vamos a ele.

Quando pequeno, achava eu que presente de casamento era sinônimo de faqueiro. Minha família era campeã de presentear noivos e noivas com faqueiro, sempre. A palavra não ajuda muito aos mais novos, mas para que não continuem a singrar as linhas futuras sem o devido conhecimento, cabe dissertar que faqueiro é um conjunto de todo tipo de petrechos para uma refeição supostamente chique. São facas de prata, colheres com detalhes dourados, garfos ornamentados, conchas artísticas, escumadeiras estilosas e afins estranhos, tudo muito bem organizado numa caixa de madeira chiquérrima que sairá do casamento para o fundo de algum guarda-roupas e, na prática, só servirá para sua avó ou mãe dizer que serão usados unicamente com as visitas. Ainda hoje associo presente de casamento a faqueiros chiques e inúteis.

Desta vez, porém, fui surpreendido por uma lista virtual de presentes de casamento. A bem dizer, já a havia visto em outras ocasiões, afinal a prática não é tão nova assim. O diferencial aqui é que não tinha alguém para escolher em meu lugar e eu fui obrigado a me ver com a coisa mesmo. E é claro, por herança cultural, fui direto escolher um faqueiro. Só que não tinha faqueiro. Sabe-se lá a razão, o casal não queria um faqueiro. Como assim, perguntei-me. O casal se dá ao luxo de fazer um matrimônio tradicional, com festa e tudo, sem querer um faqueiro inútil para guardar para sempre no guarda-roupas? Fiquei atordoado, sem chão. Cogitei não ir, alegar qualquer coisa como uma febre, um mal súbito ou até mesmo a peste bubônica. Estava decidido, mas, por um sopro principiológico, resolvi apostar na democracia e, um pouco envergonhado diante da falha na missão, abri a discussão com esposa e filha.

De imediato, diante da lista, duas equipes se formaram e uma guerra se instalou. De um lado, a virago (percebam o prenúncio do litígio) sustentava a compra de um aspirador de pó e, de outro, o varão e a infante argumentavam sobre os benefícios de uma bomboniere. O pó é, sem dúvida, um fator decisivo no ranqueamento das prioridades da casa, mas a bomboniere tem lá seus méritos – para mim o fato ser o único presente com valor de dois dígitos na lista, para minha filha o fato de que nela colocamos os bombons, claro.

Passamos alguns dias numa espécie de mal-estar, numa situação emburrada em razão da indefinição. Aos poucos, o assunto foi virando tabu, não se falava mais sobre o presente, a ponto de ele se tornar um verdadeiro Voldemort plantado no meio da sala.

Na tarde do casamento a situação estava já insustentável, havíamos confirmado e não havíamos comprado coisa alguma. Mas eis que, vivendo em 2025 e hiperconectado, recebemos uma mensagem da Assistente Virtual da loja, a nos lembrar que não havíamos adquirido nada da lista e, por tal, a nos sugerir duas coisas. A primeira era “Digite 1 caso tenha comprado o presente em outro lugar”. A segunda era “Digite 2 caso esteja na dúvida e queira uma recomendação de presente.” Imediatamente cliquei no dois e, em pouco mais de dois minutos, sai dali feliz e endividado por ter comprado um robô aspirador de pó caríssimo para o casal. Vitória dela.

No casamento tudo ocorreu como deveria ocorrer. Noiva atrasada, cerimônia longa, padre empolgado, pais e mães emocionados e, daí para trás, o resto da tropa, gente como a gente, que só queria ir para o segundo ato, longe do olhar divino, onde poderíamos afrouxar as gravatas, bebericar algo e, certamente, pecar um pouco na gula ao matar a fome que tanto nos incomodava. Sentamo-nos à mesa com um casal de desconhecidos e, papo vai papo vem, eis que nos perguntaram o que havíamos dado de presente. Respondi que um robô faxineiro e, curioso, perguntei-lhes o que haviam dado de presente. Uma bomboniere, disse o casal. E complementaram, quase por maldade: – Era o único presente com valor de dois dígitos.

Fernando Perazzoli é professor e Advogado, tendo atuado por mais de dez anos no ensino superior em União da Vitória e Porto União. Além disso, lecionou na Universidade Federal de Santa Catarina, na Universidade de Coimbra (PT) e na Universidade de Mumbai (Índia). Foi consultor da Fundação Oswaldo Cruz (RJ e DF). Exerceu os o cargo de Diretor Municipal no Poder Executivo de União da Vitória, de Coordenador Jurídico na Secretaria de Atenção Especializada do Ministério da Saúde, em Brasília e de de Assistente para Probidade Adminsitrativa e Curatela do Patrimônio Público junto Ministério Público do Estado de Goiás. Atualmente é Professor de Direito Constitucional da UNIEURO (Brasília) e  Consultor para o FNDE. Contato: perazzoli@gmail.com/@‌fernandodavidperazzoli.

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