Tarifaço: “As consequências serão muito fortes e drásticas”, diz representante da FIESC
Caso entre em vigor em 1º de agosto, como a taxação em 50% para produtos brasileiros exportados para os Estados Unidos pode afetar a indústria catarinense? Conversamos com Maria Teresa Bustamante, presidente da Câmara de Comércio Exterior da Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina (FIESC) sobre o chamado tarifaço anunciado por Donald Trump.
Confira:
Jornal O Comércio (JOC): Quais são as medidas tomadas pelos Estados Unidos que podem afetar as vendas de produtos catarinenses, principalmente do setor de madeira e móveis?
Maria Teresa Bustamante (MTB): Efetivamente, nós estamos em uma situação bastante difícil, preocupante. A luz no fim do túnel ainda não aparece, como todos nós já estamos acompanhando. A previsão é que em primeiro de agosto o presidente Trump venha, ou a confirmar a tarifa de 50%, ou que até essa data tenha acontecido alguma modificação decorrente do canal de negociação aberto com o governo brasileiro, que já estava aberto desde o início do ano, já tem sido amplamente divulgado pelo MDIC (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços). Mas estamos esperançosos de que duas coisas aconteçam. Ou haja uma possibilidade concreta de adiar a entrada de qualquer tarifa que venha a ser determinada, ou que efetivamente haja uma negociação efetiva de tarifas para os produtos brasileiros que não se confirme nos 50%.
O governo americano vem negociando com países que não tem uma balança deficitária como é o nosso caso. Nós somos muito mais importadores de produtos americanos do que exportamos. E esse desbalanceamento a favor dos Estados Unidos, se supõe que seja um dos argumentos mais poderosos para que o presidente Trump contemplasse acordar com o Brasil uma tarifa entre 10 e 20%, ou mantivesse os 10%.
Mas de toda maneira, a argumentação do presidente Trump em relação ao Brasil desde o ponto de vista comercial não se confirma. Nós, além de sermos deficitários na balança, também não temos nenhum produto que cause qualquer possibilidade de insegurança ao mercado nacional.
E aí, então, falando explicitamente do setor de madeira e móveis, é importante, e faço essa distinção porque tem havido, obviamente, a mistura de frequência de entendimento da grande maioria, tanto da imprensa, quanto dos empresários, e que têm sido tratados todos os temas que estão em aberto com os Estados Unidos como se fosse apenas tarifa. E a questão é que nós estamos à frente de uma situação muito clara. O presidente Trump tem adotado, desde 2017, no primeiro mandato dele, e agora neste, o uso de instrumentos legais específicos para poder determinar a aplicação de tarifas ou sanções. São dois temas absolutamente distintos.
Então, a primeira questão, explicitamente em relação aos produtos de madeira e produto de derivado de madeira, ou seja, todo e qualquer produto que tenha madeira na sua composição, eles estão neste momento sob uma investigação, chamada 232. Esse número 232 é uma seção pertencente a uma lei de expansão comercial de 1962. Essa investigação foi aberta em março de 2025. Ela determina que em até 270 dias, que vai vencer em 08 de dezembro, ou seja, pode acontecer hoje, amanhã, depois de amanhã, mas não pode passar da data de 08 de dezembro, o Departamento de Comércio Americano tem que apresentar ao presidente Trump um relatório que prove que, efetivamente, produtos de madeira e produtos derivados de madeira, podem sim causar qualquer impacto à segurança nacional americana. E nesse relatório, dado o grau que eles venham a identificar ou não, o departamento de comércio recomendará ao presidente Trump aplicar uma determinada tarifa. Então, especificamente em relação à madeira e produto derivado de madeira, o que nós temos dado bastante explicação ao setor industrial é que, enquanto não seja encerrada, concluída, a investigação 232, não podemos falar absolutamente nada de tarifa. Por quê? Porque a tarifa anunciada para primeiro de agosto de 50% é um outro instrumento jurídico que o presidente Trump está utilizando para aplicar tarifas que ele rotula de comércio justo e recíproco.
(…) O ponto dois é que esses acordos, que não são de livre comércio, que são de prosperidade econômica, eles trazem uma série de outros investimentos, determinações claras a respeito de propriedade intelectual, meio ambiente, enfim. Trata de outros temas, são acordos bastante completos. (…) O que eu posso afirmar é: sim, temos uma preocupação porque não temos a menor ideia qual vai ser o percentual de tarifa que vai ser aplicado, seja como resultado do encerramento da investigação 232, da madeira e produtos derivados, seja dentro do escopo de tarifa recíproca para qualquer produto brasileiro que venha a ser exportado para os Estados Unidos a partir de primeiro de agosto.
JOC: Presidente, na sua visão, quais serão os setores mais impactados? A indústria da madeira já está sentindo os efeitos de um possível aumento na taxação?
MTB: Claro que sim, não tenha dúvida porque eu me coloco na posição de industrial do setor, e não somente da madeira. Dos setores que são altamente exportadores. Por exemplo: nós temos aqui fabricantes de máquinas e equipamentos que são voltados para os frigoríficos, nós temos fabricantes de geradores, transformadores, produtos elétricos e toda gama de produtos exportados de Santa Catarina para o mercado americano, são produtos de altíssimo valor agregado. A maioria, quando você fala em máquinas e equipamentos especialmente, são produtos customizados. Ou seja, são fabricados atendendo à especificidade própria do cliente. Então, esses produtos que não são de prateleira, eles não têm como ser oferecidos para o outro cliente. E aí é um prejuízo total para a empresa. Então, o que que nós estamos fazendo? Nós temos acompanhado muito fortemente todos os canais de negociação.
(…) É importante falar de um outro instrumento jurídico utilizado pelo presidente Trump, que nós não mencionamos ainda aqui, que é extremamente relevante. É a abertura de investigação, esta sim, especificamente contra o Brasil, pela seção 301, que é da lei de comércio de 1974. Essa sim é preocupante, mais do que o tarifaço, mais do que a 232, porque ela é específica contra o Brasil. Ela aborda sete diretrizes bastante relevantes. Cada um por si é um mundo, como a questão das big techs, como a questão do uso de pagamento pelo Pix, meios eletrônicos. Enfim, aí são sete aspectos que eles colocaram para serem investigados e já tem uma audiência agendada para 03 de setembro. Com a lei, qual é a minha maior preocupação? Que a seção 301 resulte na conclusão por aplicação de uma sanção. Essa sanção pode ser por meio da aplicação de tarifa. E nesse caso, você não tem a quem recorrer.
Nos outros casos, ainda os importadores podem judicializar, enfim, mas no caso da seção 301, quando ela for concluída, se ela for encerrada com a aplicação de uma sanção contra o Brasil, ela poderá vir por meio de tarifa, como também pode poderá vir por meio de proibição de importação, como poderá vir com outras penalidades. Mais a mais usada, vamos colocar assim, que se supõe e neste momento o presidente Trump utilizaria, é a tarifa. Então, esse é um tema que eu recomendaria que os empresários ficassem atentos e acompanhassem.
JOC: Presidente, qual é o tamanho da sua preocupação em relação aos números, às receitas e aos possíveis prejuízos atrelados ao tarifaço?
MTB: O presidente Trump, ele não tem demonstrado em momento nenhum que esteja agindo em base a qualquer planejamento ou a qualquer programa. E isso mostra claramente que ele está totalmente alheio às consequências, e as consequências serão muito fortes e drásticas. Porque o que eu falei, não é o fim do mundo, mas você não vira a chave da noite para o dia para abrir outros mercados e companhia limitada. Os setores vão ser extremamente afetados e, obviamente, uma questão óbvia é que quando começa se anunciar férias, o pessoal começa a ter mercadoria parada nos pontos o que representa despesas, isso tudo vai trazer consequências muito negativas para a economia. Um estado como o nosso, que faz cinco anos que está em pleno emprego, vai ser preocupante. Nós já passamos por outras situações, não tão drásticas como esta, evidentemente, porque aqui tem outros componentes. Então, há necessidade de pensarmos claramente de que precisamos agir de forma imediata, seja porque as consequências mais negativas possam vir, mas uma verdade está colocada à mesa: não voltaremos a ter relações comerciais com os Estados Unidos da forma que nós tivemos até aqui. Brasil e Estados Unidos têm 200 anos de parceria. Foram comemorados aqui, na nossa casa, inclusive, em fevereiro deste ano pela embaixada americana junto com o presidente Mario Cezar de Aguiar e as autoridades. Fizemos um evento grandioso, 400 empresários, fizemos uma rodada de negócios fabulosa e comemoramos os 200 anos de relações diplomáticas Brasil e Estados Unidos.
O que foi não será mais. Mesmo que a tarifa seja zero, não será mais. Isso mostra claramente que o empresário precisa agir e investir e abrir outros mercados. O que ele não pode, sob hipótese nenhuma, é pensar que vai ficar só no mercado interno, porque isso não é suficiente, não é bom e é um atraso para o desenvolvimento tecnológico e comercial da empresa. E o comércio internacional vai continuar existindo. Só tem que saber investir para encontrar onde você vai construir boas alianças estratégicas.
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