CRÔNICA: Coisas a fazer

Fiquei um pouco assustado quando minha filha, de quatro anos, disse-me que estava super ocupada porque havia muita coisa para fazer. Muita coisa tipo o que, perguntei-lhe. Claro que a resposta foi algo entre organizar as cadeiras da sala de jantar para uma viagem de ônibus com as bonecas, escalar o Everest com a Peppa Pig e nadar junto a tubarões e sereias. O que me chamou a atenção, porém, foi a pontuação sobre haver muita coisa para fazer. Como pode uma criança de quatro anos ter essa preocupação? Cheguei a pensar que talvez seja eu mesmo o responsável. Passei imediatamente à reflexão.

Eu sou o inverso da preocupação da minha filha, eis que me inquieto quando há pouca coisa para fazer. Tudo ao mesmo tempo, as tarefas vão se acumulando. Organizo, programo, sonho e início tanta coisa que fui obrigado a criar listas de tarefas. Todos as temos, mas eu talvez seja o único que tem listas de listas. Explico.

De um lado são as coisas que quero ainda fazer, como ver os 100 melhores filmes do site IMBD, ler os melhores livros da lista do The New York Times, visitar todos os lugares que há para visitar, escutar todos os discos famosos, além de provar todas as comidas e vinhos que nos recomendam. Se você se reconhece na narrativa, tenha calma, aqui vai piorar. É que as pessoas têm pouca ideia do que significa uma lista de coisas a fazer quando se vive em Brasília, lugar com todas as embaixadas e representações diplomáticas, centros culturais e afins. Em Brasília eu saio para comprar pão e encontro um mural com anúncio de aulas de finlandês, de tuba, de teatro, de compostagem com minhocas e de meditação tibetana, no mesmo lugar, como se estivessem conectadas por uma lógica inafastável. Quero-as todas e, querendo-as, vão então se multiplicando ao infinito e uma nebulosa se forma.

Talvez por isso que, de outro lado, eu precise fazer as listas das listas, um mecanismo meio tacanho que inventei para organizar o que tenho a fazer em uma sequência racional. Tento assim estabelecer alguma ordem no caos dos interesses e algumas prioridades nas quimeras. O problema é que as listas das listas não são só de coisas interessantes, eis que nela também entram os prazos a serem cumpridos, os compromissos a serem honrados e os boletos a serem pagos. Para tê-las, digo isso aos interessados, é preciso até mesmo desenvolver uma metodologia própria, segmentada por temáticas, prioridades e formas de gestão, sob pena de perfilarmos no mesmo rol de urgências a leitura de Garcia Marquez, a troca do rejunte da pia e a consulta do gato no veterinário. Talvez eu devesse ocupar meu tempo fazendo as coisas da lista, ao invés de escrevê-las, mas sua funcionalidade a torna uma bússola no caótico dia a dia – fica a dica.

Ao fazer a reflexão sobre o acúmulo de coisas para fazer foi que percebi, no torvelinho, uma comichão para mudar um pouco tudo isso, isto é, incluir na lista também um pouco do universo infantil da minha filha. Pensei que talvez eu pudesse partilhar mais do imaginário dela e, assim, viver mais densamente esse período tão lindo. O resultado foi um sucesso, um rol amável e absolutamente impraticável. Não suficiente os 1001 discos para se ouvir antes de morrer e os nove boletos para pagar até sexta, tenho agora mais oito temporadas da Casa Mágica da Gabi para ver, dois livros do Boobie Goods para colorir e uma viagem imaginária que farei logo mais para a Romênia, junto com três Barbies, um unicórnio e dois Labubus. E dou graças que seja só isso, porque no sábado haverá uma festa das amigas e eu estarei dispensado da leitura completa do Sitio do Pica Pau Amarelo, o que faria, obviamente, vestido de Visconde de Sabugosa, o dresscode obrigatório quando se lê um livro para uma criança.

De qualquer sorte, ao retornar o olhar para as preocupações da minha filha passei a pensar que, ao fim e ao cabo, era bom o fato de ela estar organizando as coisas que gostaria de fazer. Pensar no futuro não é coisa para preocupar uma criança, mas saber lidar com o tempo, com os desejos e frustrações pode lhe fazer bem. O caminho para mim, como pai, é ensinar-lhe que nem tudo será possível, que haverá necessidade de deixar algumas coisas por fazer (talvez para sempre) e que amanhã será um novo dia, cheio de novidades e descobertas. Preparei então um discurso, uma linha de raciocínio e uma metodologia lúdica para transmitir-lhe o pouco que sei sobre o assunto. Sentamo-nos no chão da sala, em meio a dois pangarés infláveis. Falava a ela que queria conversar sobre as coisas da vida. Quando iria começar, porém, ela me interrompeu, a me perguntar se eu já havia escrito a crônica da semana. – Vai brincando aí minha filha, vai brincado… Respondi-lhe enquanto saia meio apressado, a checar minhas listas e a ver a razão pela qual eu ainda não havia escrito tal texto.

Fernando Perazzoli é professor e Advogado, tendo atuado por mais de dez anos no ensino superior em União da Vitória e Porto União. Além disso, lecionou na Universidade Federal de Santa Catarina, na Universidade de Coimbra (PT) e na Universidade de Mumbai (Índia). Foi consultor da Fundação Oswaldo Cruz (RJ e DF). Exerceu os o cargo de Diretor Municipal no Poder Executivo de União da Vitória, de Coordenador Jurídico na Secretaria de Atenção Especializada do Ministério da Saúde, em Brasília e de de Assistente para Probidade Adminsitrativa e Curatela do Patrimônio Público junto Ministério Público do Estado de Goiás. Atualmente é Professor de Direito Constitucional da UNIEURO (Brasília) e Consultor para o FNDE: perazzoli@gmail.com/@‌fernandodavidperazzoli.

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