Crônica: Fim das férias

Há alguns dias chegamos, então, ao final das férias escolares, pelo menos aqui em casa. Eu leio muito sobre o início do período, sobre o que ele significa para a garotada e para as famílias, sobre toda aquela animação, sobre os milhares de planos que são feitos, quase sempre impossíveis. Fala-se muito, inclusive, das colônias de férias, a imitar a programação norte-americana dos acampamentos de verão, numa versão tupiniquim totalmente diferente da de lá. Quase nunca se fala, porém, do final das férias e da volta às aulas.

Crônica: Fim das férias

Foto: Freepik

É que o final das férias infantis é o período mais ingrato para os adultos, aí o ponto que quero assuntar. Sempre o será, afinal é no derradeiro volta às aulas que nós, adultos, percebemos quantas oportunidades deixamos escorrer pelos dedos enquanto eles insistem em rapidamente crescer… Gosto de pensar que isso se dá porque não mais sabemos o que fazer nas férias e, tomados por um apagão na memória decorrente do fato de ficarmos adultos, resta-nos lidar com a situação apenas com as capacidades e recursos que temos no imediato. Aí a coisa se divide e se perde. Vejamos.

De um lado há aquelas pessoas adultas que se empenham de maneira efetiva em tornar as férias escolares uma memória afetiva para todo o sempre. Haja esforço, criatividade, dedicação e paciência para tanta brincadeira, sapecagem e diversão! São dias e mais dias entre campeonatos aleatórios com equipes imaginárias, passeios intermináveis de bicicleta, visitas acrônicas a parques, fritadas de pastel, confecção de pirogues, montagem de cidades e parques de diversões pelos cômodos da casa, pipoca e mais pipoca, tudo isso regado a chuteiraços e cachorros-quentes, glitters e unicórnios.

De outro lado, há adultos que não se preocupam tanto com este período da vida das crianças. Para eles, férias são férias, paciência, está escrito em algum lugar, aceite que dói menos. Férias é para fazer nada, coisa alguma do que se fazia até então, é um fazer que é quase um acontecer. É um ethos da programação nenhuma. No caso, televisão, quintal, playground, videogame, praia, rua, colônia de férias e casa de amigos são infalíveis para que ninguém se veja obrigado a se ver com coisa alguma. Tudo é espontâneo, se calhar, se der, como der e por quanto tempo durar.

Haveria forma certa para fazer as férias infantis aconteceram? Não há, nunca houve e não haverá. Quando nós, adultos, somos muito participativos, meio que criamos uma agenda das férias, um pouco à revelia das belezas do acaso. Pautamos as alegrias pelas oportunidades que criamos ou pelos eventos aos quais aderimos. Fazemos das férias das crianças uma oportunidade instagramável (até porque é ali que encontramos a maioria dos eventos para as crianças). Na outra banda, se não gerirmos e participarmos um pouco das coisas inventadas pelas crianças, que graça teriam as férias para nós e para elas? Descansaríamos o corpo ao custo das memórias afetivas? A dizer, se ficarmos apenas vendo tudo de longe e, sem levantar os olhos do livro, resignarmo-nos a gritar dogmas como “Tenha cuidado!” e “Não vá se machucar!”, como então terá sido a passagem do tempo? Talvez assim se chegue ao final das férias com os calcanhares descansados, mas… e o chá da tarde imaginário com as filhas e filhos, com suas Bárbie´s e Ken´s, pôneis infláveis, Labubus, Homem Aranha, Batmam e toda a Patrulha Canina? Esse chá, nem a Rainha da Inglaterra pode oferecer e, se puder seguir meu conselho, não o perca nunca.

Não me achem dualista, não é disso que se trata. Certamente há quem saiba fazer um caminho intermédio, a conciliar a imaginação infantil com as exigências organizacionais do dia a dia e, corrijam-me se eu estiver errado, tais pessoas são chamadas de avós. Mas isso é assunto para outro texto. Por enquanto, despedimo-nos das férias, já a sonhar com as próximas, de um lado a rever tudo que organizamos e que não deu tempo para fazer, de outro a recordar tudo que aconteceu e que não esperávamos que acontecesse. São tantas emoções que saímos das férias mais neuróticos do que nela entramos. Enquanto isso, as crianças crescem, crescem e crescem. Haja fôlego.

Fernando Perazzoli é professor e Advogado, tendo atuado por mais de dez anos no ensino superior em União da Vitória e Porto União. Além disso, lecionou na Universidade Federal de Santa Catarina, na Universidade de Coimbra (PT) e na Universidade de Mumbai (Índia). Foi consultor da Fundação Oswaldo Cruz (RJ e DF). Exerceu os o cargo de Diretor Municipal no Poder Executivo de União da Vitória, de Coordenador Jurídico na Secretaria de Atenção Especializada do Ministério da Saúde, em Brasília e de de Assistente para Probidade Adminsitrativa e Curatela do Patrimônio Público junto Ministério Público do Estado de Goiás. Atualmente é Professor de Direito Constitucional da UNIEURO (Brasília) e Consultor para o FNDE:. Contato: perazzoli@gmail.com/@‌fernandodavidperazzoli.

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