CRÔNICA: COLA 4.0

Semana de provas correndo a mil, como se vê por aí. Sobre ela eu acrescento: é a única semana que dura um mês inteiro. Explico.

CRÔNICA: COLA 4.0

Foto: Freepik

Tudo se inicia com uma semana de revisões e exercícios preparatórios para as turmas, o que significa, na prática, discentes despreocupados e docentes cansados por conta do bimestre letivo. As coisas mudam radicalmente na semana dois, com as provas propriamente ditas, ao que se tem discentes estressados e docentes tranquilos. Sobrevém então uma semana para correção de provas, na qual os discentes ficam ansiosos e os docentes estressados com as milhares de respostas que devem ler, checar, comparar e corrigir. Notas divulgadas, fecha-se o ciclo com a derradeira semana, na qual discentes e docentes estão nitidamente furiosos uns com os outros, aqueles por se virem obrigados a manejar recursos e mais recursos das provas corrigidas; estes, por terem que analisar inúmeros recursos sobre as questões que na semana anterior haviam já corrigido. Depois disso, é só felicidade, até a semana de provas seguintes, claro, na qual o ciclo se refazerá. Eu, particularmente, já participei de vinte semanas de prova como discente e sessenta e quatro como docente. Todas, não importa as gerações que as tenham atravessado, foram iguais, com um elemento diferencial.

O que é diferente a cada vez – talvez até mais do que as questões das provas – é o ato de colar. Esse sim é o elemento chave para os deslindes de tais semanas acadêmicas. A cada ciclo, uma nova técnica de cola se mostra presente e, diga-se, faz o sistema todo se oxigenar. Não esqueçamos, claro, dos métodos tradicionais, não mesmo. Ninguém aqui quer militar contra a cultura centenária do papelzinho minúsculo, escrito com letra mais minúscula ainda e que, sabe-se lá como, é manipulado com a maior destreza do mundo e lido com superior sagacidade por quem o detém. Um clássico, sempre presente, sempre identificável e sempre motivo fácil para retirar a prova do aluno e lhe dar zero. Digo eu que esta relação entre a cola-papelzinho e o zero é tão frequente que sequer chama a atenção hodiernamente, tanto quanto acontece com o compartilhar da borracha com respostas, o cochichar com colegas próximos, o escrever na carteira e, mais recentemente, o celular embaixo da perna. Para praticantes de tais modalidades este é o desespero, pois ser pego com a cola é pior do que o zero que se sucede.

Mas as coisas mudaram, para valer. Não achem que a cola não acompanhou a revolução tecnológica, pois não só o fez como, inclusive, em alguns momentos foi disruptiva. Com a chegada dos smartwatches o papelzinho virou piscada no relógio, o cochicho virou fórum de discussão em tempo real e a borracha, coitada dela, cedeu lugar à cola por bluetooth. Tenho alunos e alunas que mal conseguem justificar a linha de texto no Microsoft Word, que não conseguem sequer fazer uma soma de dois com dois no Excel, que patinam até para criar grupo no WhatsApp mas, falou em cola, são verdadeiros zuckerbergues. Certa vez, diga-se, consegui quebrar o esquema e retirei dezesseis provas, tudo isso porque alguém errou ao compartilhar o link do grupo e – talvez de propósito – acabou por compartilhá-lo comigo. Mas foi só, porque além de terem defenestrado o suposto delator os demais acabaram se aprimorando de tal forma que por um momento eu acreditei que a cola era já objeto de deepweb, com criptografia de ponta a ponta e códigos secretos. Não por acaso, três de tais alunos hoje são desenvolvedores de aplicativos e um outro, inclusive, virou professor de Python para Data Science.

O que nos rende pouca e boas, porém, é o mal-estar de quem se sabe em flagrante delito, por assim dizer. Ele sabe que o professor já viu, mas ainda não retirou sua prova e cola. É o Olimpo da ansiedade, da preocupação e da inquietação. É um tal de se mexer, de se coçar, de se virar para ver onde estou na sala, de tentar mandar cueca adentro qualquer papel, celular ou relógio que contenha algum indício de seu procedimento não convencional para aprovação. Durante a semana, flagrei uma senhora já de idade a colar, uma mulher muito fina, educada, dona de si. Portava cola tanto no papelzinho clássico como no contemporâneo relógio inteligente. Cozinhei a situação por quase trinta minutos. Ela suava frio. Em algum momento, desistiu, largou a toalha: – Professor, se for para tirar a prova e dar zero, faça já, não estou mais aguentando. Disse-me um pouco exaltada. Com calma, pincei os papeizinhos que tinha dentro do punho da camisa e lhe dei um belo zero. Depois, veio falar comigo, estava indignada que havia sido pega com o papelzinho, não com o zero que recebera. Vá entender, não é? A semana vai ser longa, mal começaram as prova e ainda há mais dezesseis dias para acabar.

Fernando Perazzoli é professor e Advogado, tendo atuado por mais de dez anos no ensino superior em União da Vitória e Porto União. Além disso, lecionou na Universidade Federal de Santa Catarina, na Universidade de Coimbra (PT) e na Universidade de Mumbai (Índia). Foi consultor da Fundação Oswaldo Cruz (RJ e DF). Exerceu os o cargo de Diretor Municipal no Poder Executivo de União da Vitória, de Coordenador Jurídico na Secretaria de Atenção Especializada do Ministério da Saúde, em Brasília e de de Assistente para Probidade Adminsitrativa e Curatela do Patrimônio Público junto Ministério Público do Estado de Goiás. Atualmente é Professor de Direito Constitucional da UNIEURO (Brasília) e Consultor para o FNDE. Contato: perazzoli@gmail.com/@‌fernandodavidperazzoli.

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