CRÔNICA: Croquetes
Na cena estavam dois Ministros do Supremo Tribunal Federal, duas Diplomatas, três Embaixadores estrangeiros, dois Desembargadores e, estranhamente, eu, que não sabia muito bem como havia ali chegado e, menos ainda, o que ali fazia. Diminuto em importância cívico-institucional perto de tão importantes figuras, sem assuntos de interesse geral apropriados à ocasião, calhou-me refletir sobre os deslindes da vida que culminaram em tão pitoresco encontro. Mal sabia eu, porém, que a resposta estava nas minhas mãos: dividíamos e disputávamos, quase que de maneira automática e praticamente sem nenhuma etiqueta por demais apurada, a bandeja de croquetes.
Ao longo da vida tive a honra de participar de inúmeros eventos institucionais, dos mais simples aos mais solenes, no Brasil e no estrangeiro. Em tais ocasiões, destaco, aqui ou acolá se dá muito pitaco para as formalidades, quase ao ponto de sobrepô-las ao próprio motivo do evento. Quem deles já participou sabe, porém, que há um espaço de alívio para os rigores de tais ocasiões: a mesa de coffee-break.
Planteio a premissa de forma simples e direta: não importa o que haja de sofisticado sobre a mesa de coffee-break, sempre o croquete ganhará em atenção e consumo, sendo que o nacional é imbatível se comparado ao estrangeiro. Em outras palavras, não importa quão requintada seja a mesa posta, o croquete é lugar comum em que toda gente vai para abonar dietas e etiquetas. Daí o desafio: você também, entre barcarolas de salmão, quiches trufados e tarteletes com caviar, exatamente no meio de sua mais rigorosa dieta, não resistirá e, ao fim e ao cabo, terá em forrado seu belo estômago com frituras e enroladinhos da mais popular e trivial procedência.
Reparei isso em mim mesmo, embora não tenha acreditado de pronto. Foi só quando vi aquele digno representante de um país do oriente-médio dispensar sem dó nem piedade um belíssimo Rouleaux de Chou Farcis au Poivre, para se refestelar em pasteizinhos de queijo, presunto e orégano (tradicionalmente chamado de pastel de pizza) que me atentei para o fato. Foi assim que entre congressos jurídicos, reuniões de Estado e cimeiras vi que, longe dos holofotes, disfarçadamente e à surdina, as mais nobres autoridades deixavam o requinte de lado para esticar as mãos reiteradas vezes em busca das coxinhas com catupiri, quibes fritos, rissoles, bolinhas fritas de queijo e – vejam só – enroladinhos de vina (o nosso pouco chique e muito engordurado Rouleaux).
Croquete vem do francês “croquer”, que entre outras coisas remete àquele barulho da comida a quebrar entre os dentes. Não é, contudo, por aí que o petisco brasileiro se torna imbatível nos buffets. Pardon, mas não é. O segredo não está no conteúdo ou na crocância, nem na forma e aparência. Antes, é somente diante daquela massa carboidraticamente frita em muito óleo de soja saturado, rica em sódio e potencialmente engordante que ninguém resistirá, ou seja, dada diante da fritura saturada de padaria, adeus canapé de salmão defumado, perdeu, já era.
Hoje, finalizada a recolha de dados e depois de muitas coxinhas de frango em eventos oficiais, acabei por concluir que poderia ter chegado às mesmas conclusões sobre a invencibilidade do croquete brasileiro em qualquer lugar. De fato, gosto de pensar que tal se passaria, por exemplo, quimericamente ao disputar bolinhas de queijo com Georgia Meloni em alguma cúpula da OTAN, caso, segundo minha imaginação, o serviço de buffet ficasse a cargo de uma padaria brasileira e, sabe-se lá por qual razão, eu tivesse sido convidado. De forma mais real, porém, foi o que se passou na rápida reunião entre Ministros, Diplomatas, Desembargadores, Embaixadores e Eu, eis que por instantes fomos iguais perante a República e diante dos desafios do direito internacional, em conjunto e uníssonos a ignorar guerras, conflitos territoriais, mudanças climáticas e até mesmo as pujanças de Donald Trump na aplicação a Lei Magnitsky ao embargar as contas bancárias de todos e de qualquer um. Ali, erámos só croquetes e nada mais importava. Aliás, de modo a sair da cena antes de ser convidado por algum segurança a me retirar, fiz o meu melhor e transmiti aos demais aquele saber arcano que usamos para disputar croquetes em festas no ambiente de trabalho: estoquei pasteizinhos e quibes num copo de plástico que achei ao acaso. Quem nunca, não é?

Fernando Perazzoli é professor e Advogado, tendo atuado por mais de dez anos no ensino superior em União da Vitória e Porto União. Além disso, lecionou na Universidade Federal de Santa Catarina, na Universidade de Coimbra (PT) e na Universidade de Mumbai (Índia). Foi consultor da Fundação Oswaldo Cruz (RJ e DF). Exerceu os o cargo de Diretor Municipal no Poder Executivo de União da Vitória, de Coordenador Jurídico na Secretaria de Atenção Especializada do Ministério da Saúde, em Brasília e de de Assistente para Probidade Adminsitrativa e Curatela do Patrimônio Público junto Ministério Público do Estado de Goiás. Atualmente é Professor de Direito Constitucional da UNIEURO (Brasília) e Consultor para o FNDE. Contato: perazzoli@gmail.com/@fernandodavidperazzoli.


