Músico do Vale do Iguaçu compõe trilha sonora de filme internacional
O união-vitoriense Guilherme Senff dos Santos, músico que, com 24 anos, compõe trilhas sonoras para peças audiovisuais utilizando um teclado, um controlador e um monitor de estúdio, comemora mais uma conquista: a participação em um longa-metragem.
Foi de Guilherme a composição da trilha sonora de Syphon, filme dirigido pelo diretor de cinema norte-americano Tom Botchii. A obra, que gira em torno de um personagem que parte em uma jornada de vingança, teve sua estreia mundial em Manchester, em um grande festival chamado Grimmfest. Ainda será exibido em outros festivais de cinema pelo mundo, em países como Estados Unidos, Espanha e Suécia.
Em entrevista para O Comércio, o jovem falou sobre sua experiência como compositor para obras internacionais. Confira:
Jornal O Comércio (JOC): Como surgiu seu interesse pela música?
Guilherme Senff dos Santos (GS): O meu início na música foi na escola Coração de Maria, quando eu comecei a tocar na banda marcial na escola. Daí passei a integrar algumas bandas aqui da cidade. Antes disso eu comecei a aula de bateria com o Ezequiel e depois disso eu tive minha primeira banda com meu primo, que foi uma banda de rock autoral. Depois disso eu entrei para uma banda um pouco mais profissional, com meu tio. A gente tocava muito em eventos culturais aqui da cidade. Costumava tocar MPB. E depois eu integrei a Orquestra Show de Porto União como baterista e passei a tocar numa banda punk e, ao mesmo tempo, numa banda de igreja católica. E aí eu comecei a me desenvolver, me interessar mais pela música no sentido profissional. Até que eu entrei na Outside Band, aqui da cidade, que foi minha última banda, que é uma banda de rock clássico. Então, eu acho que meu interesse pela composição em si, o interesse pela música como ramo profissional surgiu dessa experiência que eu tive com bandas da cidade mesmo.
JOC: Quando você começou a compor?
GS: Eu sempre gostei, desde pequeno. Quando eu era pré-adolescente, eu fazia letras de música. Eu criava minhas próprias músicas. E eu fui pesquisando cada vez mais sobre o assunto, até que eu encontrei o curso de trilha sonora com o professor, que hoje dá aula nos Estados Unidos, que é o professor Felipe Leitão. Aí, através desse curso eu desenvolvi técnicas de composição para cinema. E também eu entrei depois para mentoria do Felipe, que é um grupo mais fechado, onde eu desenvolvi mais a parte de marketing para criar a minha própria marca como compositor de trilha sonora. Então, eu diria que o essencial foi essa mentoria com o Felipe que foi o que ajudou a crescer mais nesse ramo.
JOC; Fale sobre suas experiências profissionais como compositor.
GS: Eu já compus para três curtas metragens americanos com um diretor chamado César. E, recentemente, eu compus para um longa metragem. Eu vinha já com essa experiência de trabalhos anteriores e acabei desenvolvendo um portfólio bem consolidado. Aí, com o portfólio, eu acabei conhecendo meu último diretor, que foi o diretor do longa-metragem. E a partir de então, comecei a trocar uma ideia com ele e aí eu recebi o convite para fazer um teste. Foram mais de 100 candidatos para ser o compositor do filme e, no final das contas, eu fui selecionado.
JOC: Como funciona seu processo de criação e composição das músicas?
GS: Cada compositor tem uma maneira de trabalhar. Eu gosto primeiro de ler o script do filme. Então, eu leio o roteiro, eu estudo as falas do personagem para ver a característica de cada um e então eu vou desenvolvendo temas para cada personagem. O que aconteceu nesse último filme, por exemplo, foi que a gente teve um briefing. Então, eu tive um um briefing em inglês com o diretor, onde ele me contou melhor sobre o filme, qual que era a ideia dele para o som, para o sound design do filme. E me explicou melhor sobre o que cada personagem fazia, qual que era a ideia dele para passar para audiência. Eu fui anotando e depois do briefing eu comecei a desenvolver melhor a trilha em si.
[Para compor], eu uso uma DAW, que é um programa onde tem vários instrumentos virtuais. Através disso eu começo a compor com um teclado midi, onde eu tenho praticamente todos os instrumentos que uma orquestra completa tem, e aí eu desenvolvo a melodia, a harmonia para cada grupo de instrumento, eu mesmo faço isso.
JOC: Quais são suas inspirações na área?
GS: Eu me inspiro muito no Hans Zimmer, que é para mim um compositor bem diferente de compositores mais clássicos. Ele gosta mais dessa área de criar sons diferentes que ainda as pessoas não faziam ideia que existe. Eu foco muito nele como inspiração, até porque nos meus trabalhos eu prezo pela inovação. Então acredito que o Hans Zimmer é a pessoa ideal para eu me inspirar.
JOC: Como funciona o processo de criar novos sons?
GS: Na verdade, o som nada mais é que frequência. Então, eu manipulo frequências para criar um som próprio. Por exemplo, eu tenho um sintetizador aqui que eu consigo criar, basicamente imitar uma trompa, imitar uma uma bateria. Eu consigo fazer eu mesmo isso, sabe? Só que se eu fizer, nunca vai ficar igual com o instrumento que já existe. Então eu diria que tudo que eu faço é diferente. Acaba sendo. Às vezes fica bem parecido, mas ainda é diferente. É um som que a pessoa nunca escutou. Eu gosto muito disso.
JOC: Qual é o teu sentimento quando você vê as tuas composições fazendo parte de um filme, dando o tom para o filme?
GS: É um sentimento de orgulho e felicidade. Porque criar trilhas sonoras é uma coisa que eu diria que é uma das áreas mais difíceis do audiovisual, porque você não tem palavras na trilha sonora instrumental. Você tem que passar o sentimento através de harmonias e melodias. A trilha sonora às vezes quer trazer um sentimento escondido que o diretor está passando na cena. Por exemplo, às vezes o personagem está chorando, mas o diretor não quer passar algo triste para o telespectador. Ele quer passar algo engraçado. Então, a trilha sonora está lá no fundo como algo engraçado e o personagem está lá chorando. É um complemento para a trama.




