Dom Walter Jorge se despede da diocese de União da Vitória, seu “primeiro amor episcopal”
A comunidade de União da Vitória recebeu, na semana passada, a notícia de que o bispo da diocese, Dom Walter Jorge Pinto, deixará a região, após ter sido nomeado pelo Papa Leão XIV para a diocese da Campanha, em Minas Gerais. A expectativa é de que o prelado celebre sua última missa no Vale do Iguaçu em 15 de dezembro.
Natural de Ubá, Dom Walter Jorge retornará ao seu estado natal, onde poderá estar mais perto da mãe, de 84 anos. Mas o adeus à diocese de União da Vitória não deve ser uma despedida definitiva, pois o bispo pretende visitar a região quando puder.
O caminho de Dom Walter Jorge até o episcopado começou com o gosto pelos estudos. Desde pequeno, sempre teve a certeza de que a educação era a via para a evolução humana. Seguindo esse preceito, quando jovem, foi para Viçosa estudar agronomia, área em que é formado. Por lá, começou a participar de um grupo de jovens e de estudo da Bíblia. Esse foi o momento da virada em sua vida. “Sempre fui muito católico, mas ali houve um encontro pessoal com Jesus Cristo e eu senti um chamado”, relembra.
De início, Dom Walter Jorge entendeu que o chamado era para que utilizasse sua profissão como ferramenta. Chegou a trabalhar em comunidades mais necessitadas como agrônomo mas, após um tempo, percebeu que deveria seguir o caminho do sacerdotismo. Quando já havia completado o mestrado em biotecnologia, entrou para o Seminário de Mariana, onde estudou teologia e filosofia.
Recebeu a ordenação presbiteral em 2002, na arquidiocese de Mariana. Permaneceu na região durante 16 anos, até ser nomeado, em 09 de janeiro de 2019, pelo Papa Francisco, como o quarto bispo da diocese de União da Vitória. “Nunca tive arrependimento porque sempre me senti realizado como padre, muito feliz. O estar com a comunidade, toda a missão que o padre exerce, para mim era fantástico”.

Missa de posse de Dom Walter Jorge como bispo da diocese de União da Vitória realizada em 27 de janeiro de 2019. Foto: acervo JOC

Missa de posse de Dom Walter Jorge como bispo da diocese de União da Vitória realizada em 27 de janeiro de 2019. Foto: acervo JOC
Primeiro amor episcopal
O chamado ao sacerdócio trouxe Dom Walter Jorge a um lugar em que jamais imaginou viver. Mas, assim que chegou ao Vale do Iguaçu, ficou encantado com as belezas naturais e diversidade étnica da região. “Jamais imaginei morar no Paraná. E ainda mais no extremo sul, onde com um pé eu atravesso a divisa e estou com um pé em cada estado. Eu morei também em Santa Catarina, posso dizer, porque aqui tudo é em comum as duas cidades. Levo daqui essa riqueza cultural, essa diversidade, esse jeito diferente de ver o mundo, de viver a fé. Isso também me enriquece fantasticamente”.
Como agrônomo, uma das coisas que mais chamou sua atenção foram as araucárias, algo que ele diz que irá admirar até o último dia em que estiver na região. Outras belezas naturais citadas por Dom Walter Jorge são a cachoeira de Porto Vitória e o rio Iguaçu. No aspecto cultural, achou marcante o encontro de diversos povos, como os poloneses, alemães, italianos, ucranianos, e tantos outros que vivem aqui.
Foi na diocese de União da Vitória que Dom Walter Jorge, segundo suas próprias palavras, aprendeu a ser bispo. Aqui, teve que aprimorar seu relacionamento com o clero, dar atenção à 25 paróquias, e ser o pastor de uma grande proporção de pessoas. “Aprendi a rezar ainda mais, pois o Bispo só pode exercer a sua missão em íntima comunhão com Jesus Cristo e na força do Espírito Santo. Quem não é bispo não consegue compreender o tamanho da demanda que isto tem. A demanda pastoral, a demanda emocional, de liderança e de tudo que implica ser bispo”.
Por aqui também percebeu ainda mais a importância da fé em momentos difíceis. Poucos meses após assumir a diocese, veio a pandemia. Já em 2023, veio a enchente. “Ali a gente aprendeu que é preciso cuidarmos muito uns dos outros. Como o Papa lembrava naquela ocasião, estamos todos no mesmo barco, por isso ninguém pode ficar para trás. Se o mundo é prejudicado, tudo é prejudicado. Se uma parte sofre, todas as partes sofrerão. Essa ideia de que se eu e minha família estivermos bem, o resto não importa, caiu por terra. E quem não aprendeu essa lição da pandemia perdeu o trem da história”, comenta.
Avaliando sua passagem de quase sete anos pela diocese de União da Vitória, Dom Walter Jorge afirma ter dado o melhor de si. Reconhece que em alguns momentos pode ter errado, como todo ser humano, mas que nunca se permitiu ser medíocre. Como legado, quer deixar a visão de Igreja sinodal, em sintonia com as diretrizes papais e da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). “Não se concebe mais uma igreja piramidal, de cima para baixo, onde quem está lá em cima exerce tudo sem consultar ninguém, dita ordens. Autoridade, sim. Mas autoridade saudável. Liderança, sim. Mas liderança saudável”.
Prestes a se despedir da comunidade, Dom Walter Jorge relata o que a diocese de União da Vitória representa em sua vida. “Meu primeiro amor episcopal. E como diria uma propaganda antiga, o primeiro amor a gente nunca esquece. Eu nunca mais vou esquecer União da Vitória. Vai ficar para sempre na minha vida, como ficou a primeira paróquia por onde passei, da qual me lembro com um amor tão grato. Eu vou lembrar com amor agradecido de União da Vitória. Procurei dar o melhor de mim aqui. Sei que muitas vezes eu devo ter falhado, e reconheço, sou apenas um ser humano. União da Vitória vai ficar como esse lugar que o Senhor escolheu para que eu aprendesse a ser Bispo, aprendesse a amar, pudesse amadurecer como pessoa”.
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