Risco silencioso: os perigos de deixar crianças em carros fechados

Um caso registrado em Jaraguá do Sul voltou a acender o alerta sobre os riscos de deixar crianças dentro de veículos sob calor intenso.

Uma menina de cinco anos precisou ser entubada e internada na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) após, segundo o Samu, ter permanecido cerca de uma hora e meia dentro de um carro sob sol forte, na última quinta-feira, 12.

Na ocasião, os termômetros chegaram a 38°C, conforme dados da Epagri/Ciram.

De acordo com o delegado Augusto Brandão, o pai teria esquecido a filha no veículo.

Ele deverá ser ouvido pela Polícia Civil, que investiga possível crime de maus-tratos.

Estado grave e recuperação

Segundo o médico intensivista pediátrico que atendeu a garota, a menina deu entrada em estado extremamente grave, desidratada e em choque hipovolêmico – é uma emergência médica fatal caracterizada pela redução crítica do volume sanguíneo (hemorrágico) ou de fluidos corporais (não hemorrágico).

Ela precisou ser entubada para garantir a respiração e proteger o sistema nervoso central. Após estabilização e internação na UTI, a paciente foi extubada no dia seguinte. A tomografia não apontou edema cerebral.

Nesta quarta-feira, 18, a criança recebeu alta hospitalar. A paciente teve alta hoje e está super bem. Graças a Deus, tudo evoluiu da melhor maneira possível”, confirmou o médico.

O que acontece no organismo em casos de superaquecimento?

Para entender os riscos da exposição prolongada ao calor dentro de veículos fechados, a reportagem ouviu o médico pediatra Cláudio de Mello, da APMI de União da Vitória. 

Segundo ele, o superaquecimento provoca uma intensa vasodilatação no sistema cardiovascular.

“Quando o sistema cardiovascular dilata demais, há prejuízo na oxigenação de todos os órgãos. A criança pode entrar em um colapso de falência múltipla de órgãos”, explicou.

O especialista ressalta que, mesmo com exames de imagem normais, não é possível descartar totalmente a possibilidade de sequelas.

“As lesões podem ser microscópicas, nos neurônios cerebrais, e não aparecem em tomografia ou ressonância. Muitas vezes, as sequelas são tardias”, alertou.

O contraste: quando o frio pode proteger

Em contraponto ao caso de hipertermia, o médico citou um episódio registrado em União da Vitória, que chamou atenção pela recuperação surpreendente.

O menino Eliezer, de 12 anos, sobreviveu após permanecer submerso por aproximadamente 10 a 15 minutos em um lago no bairro Ouro Verde. Ele deixou a UTI semanas depois e já voltou a conversar, caminhar e se alimentar.

Segundo Cláudio de Mello, a explicação técnica mais plausível para a ausência de lesões neurológicas graves foi a hipotermia. “A água estava muito fria. A hipotermia diminui o metabolismo cerebral, reduzindo o consumo de oxigênio. Isso pode proteger o cérebro em situações extremas”, afirmou.

Enquanto o calor acelera o metabolismo cerebral e pode desencadear convulsões e falência de órgãos, o frio intenso reduz a atividade celular, preservando estruturas neurológicas por mais tempo.

Alerta permanente

Especialistas reforçam que nunca se deve deixar crianças sozinhas dentro de veículos, mesmo por poucos minutos. A temperatura interna de um carro fechado pode subir rapidamente e ultrapassar níveis críticos em questão de minutos, representando risco real de morte.

Casos como o de Jaraguá do Sul demonstram a gravidade da situação, mas também evidenciam a importância do atendimento rápido e especializado. Já o episódio de União da Vitória mostra como fatores ambientais podem influenciar de forma decisiva no desfecho clínico.

Voltar para matérias