CRÔNICA: Bom Ar
Bituca é o apelido que o condomínio inteiro deu ao morador do apartamento 1178. Já digo de plano que, infelizmente, não vivo no mesmo prédio que Milton Nascimento – quem me dera. No nosso caso, muito menos de clube da esquina e muito mais de prédio decadente de classe média, pairou na imposição da alcunha uma sociologia empirista direta, objetiva e caricata, pela qual encontrarmos a denominação cabível ao morador que, a despeito de sua inegável gentileza e amabilidade no exercício da vizinhança, parece não entender que os corredores do prédio não são lugares próprios para fumar e jogar bitucas de cigarro pelo chão.
Do problema à solução, diálogo não adiantou. Daí que improvisamos com o que tinhamos à mão e, no meu caso, que sou o morador do próprio corredor da nicotina (outra denominação que inventamos na geografia caseira do tabaco alheio), o que eu tinha era um spray de bom ar.
Até aí tudo bem. Só que a proposta que tal frasco odorizador de ambientes faz para mudar os cheiros do recinto me tirou do rumo. Descobri que, do alcatrão e da nicotina eu poderia, após duas borrifadas do produto, ser catapultado para um mundo quimérico da “brisa cítrica do verão”. Fiquei impressionado com o poder do marketing associado e resolvi, então, fazer pesquisa empírica sobre o fato. Vamos aos resultados.
Descobri, após muito perguntar, que ninguém entende que spray de bom ar é produto feito para combater cheiro de cigarro no corredor. Quase por unanimidade – salvo uma pessoa que achou que eles são feitos para tirar o cheio de bergamota da casa – toda gente foi clara ao dizer que tais desodorizantes de ambiente servem para afastar o cheiro insuportável do pós-número-2 no banheiro. E só.
Se eu já achava ruim a coisa, passei então a achar pior. Que pessoa, em livre consciência de espírito, compra uma “brisa cítrica do verão” para afastar o cheiro talhado no bolo alimentar pela sua própria biota intestinal? Não sei, e fiquei a perguntar como foi que isso havia vindo parar na minha casa. Não lembro de tal compra e, dado que não se pode experimentar sprays de bom ar para saber qual o cheiro que têm, conclui que nós apenas os compramos pela proposta que encerra.
Fui adiante e comecei a pensar que, talvez, existissem outras opções no mercado de tais insumos, capazes de levar o meu, o seu e o nosso banheiro para outras atmosferas pós-cocô. Incrédulo, descobri que o “after” pode ter ares interessantes e enigmáticos, tais como as Cerejeiras de Kioto, o Alecrim da Sicília, o Jardim da Polônia, o Pomar Dinamarquês e as Tulipas Holandeses. É isso, enfatize-se, é isso. A criatividade empresarial se propõe a transformar o banheiro fedorento em uma espécie de antecâmara onírica de viagens internacionais, no qual você escolhe, à preços acessíveis, com pronta entrega e com efeitos instantâneos, se seu pós-feijoada será na clássica Itália, no distante Japão ou na liberal Holanda. Basta fechar os olhos e respirar fundo.
A coisa não para por aí. Há um rótulo surreal que propõe um ambiente com cheiro Aquamarine. Seria um odorizador para submarinos? Ou talvez para quem soltar um pum na banheira? Ou ainda, na melhor das hipóteses, para o banheiro do Bob Esponja? Fica o mistério. Outro rótulo, curiosíssimo, diz que o cheiro do produto é um Brinde a Noronha (sem crase mesmo). Seria Fernando de Noronha? Se sim, qual seria o sentido de você dedicar a limpeza atmosférica e a salubridade olfativa do seu banheiro a uma ilha oceânica? Seria este o sentido mais rés de chão possível do famoso Noronhe-se dito por Bruna Marquezine? Outra incógnita.
A cada degrau que descia, mais incredulidade com as campanhas publicitárias destes produtos eu tinha. Eu poderia tergiversar sobre o límpido “Frescor de Notas Florais”, sobre o colorido “Frutas e Flores Vibrantes”, sobre um despudorado “Lembrança Doce da Infância”, mas, para finalizar, acredito que tenha encontrado aquele que é marco zero da falta de bom senso em termos de odores no banheiro. Chama-se Romance, isso mesmo, R-O-M-A-N-C-E, sendo que ele se propõe a deixar o ambiente do banheiro com Odores Sensuais.
Foi aí que desisti, vencido pelo chacoalhão que o produto deu nas pequenas certezas mundanas que eu acreditava até então ter. Saí do mercado sem nada comprar, a pensar quem é que, nos frêmitos hormonais e nos apuros sanguinolentos da paixão fulminante, teria tanta ânsia para o encontro íntimo a ponto de fazer uso de um odorizador romântico no banheiro onde, instantes antes, dedicava-se a outras urgências. Pensativo, cheguei em casa e ainda cumprimentei meu vizinho Bituca, o qual fumava um cigarro pelo corredor. – Estou feliz, vou numa feijoada e a noite irei para a Itália. Disse-me ele, sorrindo enquanto entrava no elevador.

Fernando Perazzoli é professor e Advogado, tendo atuado por mais de dez anos no ensino superior em União da Vitória e Porto União. Além disso, lecionou na Universidade Federal de Santa Catarina, na Universidade de Coimbra (PT) e na Universidade de Mumbai (Índia). Foi consultor da Fundação Oswaldo Cruz (RJ e DF). Exerceu os o cargo de Diretor Municipal no Poder Executivo de União da Vitória, de Coordenador Jurídico na Secretaria de Atenção Especializada do Ministério da Saúde, em Brasília e de de Assistente para Probidade Adminsitrativa e Curatela do Patrimônio Público junto Ministério Público do Estado de Goiás. Atualmente é Professor de Direito Constitucional da UNIEURO (Brasília) e e Consultor para o FNDE. Contato: perazzoli@gmail.com/@fernandodavidperazzoli. perazzoli@gmail.com/@fernandodavidperazzoli.


