Jovens do Vale do Iguaçu exibem curta em festival internacional de cinema

O talento de União da Vitória e região foi exibido na grande tela do Museu da Imagem e do Som (MIS), em São Paulo (SP). Os jovens Ghassoub Domit Neto (26 anos) e João Victor Diduch Przybysz (21 anos) tiveram o curta metragem CLT- Castigo, lamento e tédio selecionado e exibido no 14º Filmworks Film Festival, promovido pela Academia Internacional de Cinema (AIC).

Jovens da região exibem curta em festival internacional de cinema

João Victor Diduch Przybysz e Ghassoub Domit Neto. Foto: JOC

O filme foi produzido como projeto final de um curso de verão da AIC em que Ghassoub e João Victor participaram em julho do ano passado. Outros seis alunos estiveram envolvidos na realização do projeto, gravado em menos de 12h na capital paulista.

O roteiro idealizado por Ghassoub antes do curso foi o escolhido para dar vida ao filme. A inspiração veio de uma vivência pessoal do jovem, que se viu em uma encruzilhada entre o dever e o receio de não conseguir mais aproveitar os bons momentos da vida.

Escrever sobre o cotidiano é um dos prazeres do roteirista. No passado, ele foi premiado em outro festival com o curta Existe antônimo para a palavra espera? em que discorre sobre as dádivas proporcionadas pelos momentos em que se precisa aguardar por um compromisso, seja em uma recepção médica ou em uma fila de banco.

“Eu gosto muito disso, de viver do pequeno, das vírgulas do dia a dia”, comenta Ghassoub, que se considera um chato inveterado, sempre analisando e dissecando o cotidiano, criando roteiros com base no mundano. “Esse é um tema que permeia muito a minha cabeça. Tem gente que escreve sobre amor. Eu escrevo isso”.

João Victor, que dirigiu a obra, cita que o filme traz uma crítica sobre como, em muitos casos, para conseguirmos nos inserir no ambiente de trabalho formal acabamos deixando de lado coisas que gostamos de fazer. “Para a gente que é da arte, parece que esgota a gente. Só que daí parece que se você não está trabalhando, você não está seguindo a regra da sociedade, as pessoas já te olham é um jeito estranho. Parece que você sempre é refém do trabalho”.

“É uma coisa que a gente tem que se sujeitar para viver. Por mais que tenha todos os lados ruins, não tem como você fugir disso. Então, pelo menos, dá para a gente brincar com isso”, completa Ghassoub.


Novas experiências

Os dois jovens foram colegas de classe no curso tecnólogo em Produção Audiovisual do então Centro Universitário de União da Vitória (Uniuv). Ambos já haviam tido experiências com produções cinematográficas, seja no próprio curso, ou em produções locais, como no caso de João Victor, que fez parte do filme O Diabo do Baile, obra da MOCA Audiovisual. Entretanto, poder dirigir o curta foi algo novo na carreira do jovem.

Mas o desafio foi realizado de bom grado, uma vez que, entre todos os processos de um filme, a direção é o que mais encanta João Victor. “Na direção, para quem não sabe, você faz a decupagem da cena. Você cria o tipo de enquadramento, a composição. Isso para mim é a alma do filme, então é uma coisa que eu gosto muito de fazer. O maior desafio foi tentar transmitir a minha visão, mas ainda assim dando abertura para as outras pessoas. Como era um projeto de uma escola de cinema, eu tinha que abrir bastante para os meus colegas. Isso tem prós e contras, mas eu acredito que ao fazer isso eu também aprendi bastante com eles. Eu também pude ver de perto como funcionam as outras funções. Eu acho que abriu muito para a gente ver como o cinema consiste de várias funções e cada engrenagem tem que fazer o seu papel para no final dar certo”.

As inspirações de João Victor para o visual de CLT- Castigo, lamento e tédio são variadas, indo desde Clube da Luta, pelas cenas melancólicas em um escritório, a Matilda, devido ao jogo de câmeras que fazia com que os personagens parecessem menores.

Já Ghoussoub cita inspiração em Curtindo a Vida Adoidado, principalmente na parte inicial do filme, em que o personagem, interpretado pelo jovem, começa a discorrer sobre seu futuro enquanto curte um banho de sol à beira da piscina. A quebra vem logo em sequência, com o personagem em um ambiente mais sério e formal, inspirado na série Ruptura.

Além da oportunidade de produzir um filme em equipe, Ghassoub e João Victor também puderam vivenciar de perto os desafios e os investimentos necessários para poder criar.

Da mesa de manutenção com alimentos para a equipe aos equipamentos utilizados, tudo tem custos. E eles não são poucos. “A gente não tem noção de como é caro às vezes produzir algo no audiovisual. Antigamente eu pensava que com R$10 mil dava para fazer um curta-metragem. Quando eu fui para São Paulo, na AIC, eu tinha uma professora de produção executiva que falava de verba pequena de R$1 milhão”, relata João Victor.

Essa realidade fez o jovem valorizar ainda mais os programas de fomento cultural, como a Lei Rouanet, Lei Paulo Gustavo e a Política Nacional Aldir Blanc (PNAB). “Eu acho que União da Vitória é uma cidade que precisava de mais incentivo ao audiovisual. Eu acho que tem poucas criações. A gente teve o filme do Diabo do Baile, mas eu acho que ainda tem tantos documentários, filmes, curtas metragens que podiam ser explorados. Eu lembro que no filme do Diabo do Baile, muita gente foi assistir no cinema, as três sessões estavam cheias. Eu acho que é algo que a cidade gosta muito, só que é pouco investido. Quando eu estava no curso, uma coisa que eu notei é como São Paulo tem programas da própria cidade para investir no audiovisual. E seria muito legal ver aqui na nossa região programas similares que invistam e que valorizem artistas que têm uma visão e que vão retribuir algo para a sociedade”.

Ghassoub concorda, e vê na arte uma oportunidade de fazer com que a sociedade reflita sobre seus próprios problemas. “Quando eu me formei em direito, o meu TCC foi sobre a produção cultural como algo fundamental para a democracia. Se a democracia é o poder do povo, para o povo, pelo povo, então é necessário que esse povo possa falar e se ouvir. Eu acho que através de produções artísticas e culturais cria-se uma identidade nacional. E assim, a gente se reconhecendo, fica mais fácil pautar os nossos problemas, as nossas dores, o que falta, e nos emanciparmos como população. Eu acredito muito nisso”.

Jovens da região exibem curta em festival internacional de cinema

Foto: arquivo pessoal


O festival

CLT- Castigo, lamento e tédio foi selecionado em duas categorias no no 14º Filmworks Film Festival: cursos livres e júri popular. O grande destaque, para ambos, foi poder assistir a obra na sala de cinema do MIS. “Eu acho que é muito legal você ter o seu trabalho exibido. O museu é quase um templo do audiovisual”, comenta João Victor.

O prêmio não veio em nenhuma das categorias, mas a experiência por si só valeu a pena. “A gente não ganhou, mas estávamos concorrendo com uma galera muito boa. O nível das produções estava muito bom. O filme que ganhou na nossa categoria era sobre Alzheimer. Muito lindo, eu gostei muito mesmo. Foi um prazer estar junto com essa galera, ter sido selecionado para estar junto com eles, porque todo mundo mandava muito bem”, comemora Ghassoub.

Jovens da região exibem curta em festival internacional de cinema

Foto: arquivo pessoal


Futuro no cinema

João Victor, que é natural de Paulo Frontin, sempre teve apoio dos pais para seguir o sonho de trabalhar com cinema. A mãe passava horas assistindo filmes com o filho, o pai o presenteou com uma câmera, e a avó era atriz das produções caseiras do jovem. No próximo semestre, João Victor dará mais uma passo em sua carreira, iniciando o curso de Cinema na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).

Ghassoub, que também tem interesse na área desde criança, quando costumava brincar com as câmeras do pai, relata que o curso serviu, além de tudo, para ele entender que gosta muito de criar e de que forma gosta de produzir sua arte. A ideia, agora, é continuar a jornada. “Quero juntar uma galera para tentar executar algumas ideias que eu tenho e montar um portfólio mais sólido, em que eu consiga imprimir a minha identidade”.


Ficha técnica

Foto: arquivo pessoal

CLT- Castigo, lamento e tédio
João Vitor Diduch – Direção
Ghassoub – Produção, roteiro e atuação
Carolina Veiga – Direção de Arte
Milena Raphaela Telhada de Souza – Produção
Abdon – Montagem e Finalização
Pedro Gabriel Luz Sena – Direção de Fotografia
Maria Joaquina Queiroz – Som
Anna Martines – Assistência de Direção