Liquidação da Acqio causa prejuízos a empresários do Vale do Iguaçu
Em 27 de março, o Banco Central do Brasil determinou a liquidação extrajudicial da Entrepay Instituição de Pagamentos S.A., e, por extensão, das instituições integrantes do Conglomerado Entrepay, Acqio Adquirência Instituição de Pagamento S.A. e Octa Sociedade de Crédito Direto S.A.
A notícia pegou de surpresa centenas de empresários do Vale do Iguaçu e região que utilizavam os serviços da Acqio no dia a dia das empresas. A instituição financeira funcionava como uma adquirente, ou seja, era a responsável pelo gerenciamento e processamento de pagamentos realizados com cartões de débito ou crédito.
Na prática, a Acqio era a intermediária entre o lojista, a bandeira do cartão utilizado pelo cliente, e o banco emissor.
Uma das empresárias lesadas pela liquidação relatou o fato à reportagem de O Comércio. Ela, que prefere ficar anônima, relatou prejuízo próximo a R$500 mil. Esse valor, segundo a fonte, era oriundo dos pagamentos realizados através das maquininhas da Acqio, e permanecia depositado na instituição para ser utilizado, por opção da empresária, como uma espécie de capital de giro.
Um caso de liquidação extrajudicial que ganhou grande atenção nos últimos meses foi o do Banco Master. Naquela situação, clientes puderam ser ressarcidos em até R$250 mil pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC), entidade que protege investimentos na conta poupança, conta corrente e aplicações como CDB, RDB, LCI, LCA, LC, LI e LH.
O problema no caso da liquidação da Entrepay, da Acqio e da Octa é que, por se tratar de instituições de pagamento e de sociedade de crédito direto, as entidades liquidadas não possuem captações cobertas pelo FGC. Dessa forma, clientes não podem recorrer a esse instrumento.
A empresária foi instruída por uma advogada que, neste caso, será necessário aguardar que haja habilitação do crédito junto ao liquidante. Segundo ela, os processos serão comunicados por editais publicados pelo Banco Central.
Prejuízo à imagem
A liquidação da Acqio também gerou prejuízo além do financeiro. Conversamos com um franqueado da empresa na região, que prefere ficar anônimo. Segundo ele, os danos são imensuráveis. “É relacionado a imagem que ficou desgastada perante aos clientes, pois era a minha pessoa que estavam vendo quando se falava Acqio. Clientes esses com os quais tinha vínculo muito antes de entrar na franquia de cartões. Ou seja: perdi minha carteira, a qual poderia ser negociada a outra pessoa ou adquirente, a remuneração mensal que a empresa proporcionava, e, o mais importante, a minha imagem”.
A fonte nos relatou que desde a data do anúncio da liquidação, está sem informações diretas da Acqio, e sem conseguir contato com representantes da empresa. “O único colaborador, que é um CLT deles e que me responde, também não tem informações. A última informação que ele me passou foi na semana retrasada, de que teriam novidades e de que vão passar alguma informação, mas até o momento nada se sabe”.
O franqueado atendia cerca de 120 estabelecimentos no Vale do Iguaçu e região. Quando foi informado sobre a liquidação, entrou em contato com todos os clientes, de forma individual, por telefonemas e mensagens, para explicar o ocorrido e esclarecer dúvidas. “Estou atendendo alguns advogados que estão me procurando para tentar auxiliar esses clientes, e pelo que eu verifiquei eles também não estão conseguindo informações junto ao Banco Central. Também estou instruindo os clientes a entrar em contato com o Banco Central e abrir reclamações, porque existe uma lei que dá direito às informações, mas isso não está sendo cumprido”.
Segundo a fonte, em nenhum momento a Aqcio relatou o que estava para acontecer. Ele conta que no início de março a instituição enviou uma nota informando que o produto “antecipação automática” estaria indisponível por prazo indeterminado devido a troca de Fundo de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC), ou seja, a mudança de banco que fazia o serviço de antecipação, algo que, de acordo com a fonte, não é incomum. “Porém, as agendas de pagamentos estavam funcionando normalmente. A instrução vinda da franquia é de que era algo momentâneo, mas se passaram dias e a liquidação extrajudicial aconteceu”.
Para o franqueado, os dias desde o anúncio da liquidação têm se mostrado um tormento. “A sensação é de um pesadelo. Imagine a situação. Não tem como a gente mensurar o valor da imagem da pessoa, bem como da carteira de clientes porque é algo que você conquista com muito tempo, muito esforço, é você ter pessoas boas ao seu lado. O que frustra, no meu caso, é não poder auxiliar de forma adequada por não ter informações, até porque eu não tenho mais acesso algum à empresa. Ninguém da empresa se manifestou em absolutamente nada a partir do momento em que a gente teve a notícia, através das mídias, sobre a liquidação. Ninguém falou nada, não se manifestou sobre absolutamente nada”.
Razão da liquidação
A Entrepay atuava no mercado financeiro desde 2013 como subcredenciadora e processadora de pagamentos. Já a Aqcio foi fundada em 2014, sendo, segundo a própria empresa, “a primeira franquia de meios de pagamento do Brasil e uma das maiores empresas de adquirência do mercado”. Em agosto do ano passado, o Banco Central autorizou o Grupo Entre, dona da Entrepay, a comprar a Acqio e a Octa. Atualmente, na página inicial dos sites das instituições liquidadas, estão disponíveis notas informando sobre as respectivas liquidações.
Segundo o Banco Central, em dezembro de 2025 o conglomerado detinha aproximadamente 0,009% do ativo total do Sistema Financeiro Nacional (SFN). De acordo com a instituição, a liquidação extrajudicial foi motivada pelo comprometimento da situação econômico-financeira da instituição líder do Conglomerado, bem como por infringência às normas que disciplinam sua atividade e por prejuízos que sujeitam a risco anormal seus credores.
O Banco Central informou, ainda, que “continuará tomando todas as medidas cabíveis para apurar as responsabilidades nos termos de suas competências legais. O resultado das apurações poderá levar à aplicação de medidas sancionadoras de caráter administrativo e a comunicações às autoridades competentes, observadas as disposições legais aplicáveis. Nos termos da lei, ficam indisponíveis os bens dos controladores e dos ex-administradores das instituições objeto da liquidação decretada”.
A reportagem porcurou a Acqio mas não obteve resposta até o fechamento da matéria.




