CRÔNICA: Devaneios
O pai servidor público municipal. A mãe, dona de casa, dividia seus dias entre os afazeres do lar e os cuidados com os três filhos. O mais velho buscou o ingresso em uma universidade pública, porém não obteve êxito. Todavia, pouco tempo depois, após concorrido vestibular passou a estudar em destacada faculdade privada no curso de Direito. Porém, somente foi possível seguir os estudos com a obtenção de bolsa pública que custeou quase a totalidade das mensalidades dos cinco anos do curso.
O diploma chegou, e com muito esforço da família, que passava por grande dificuldade financeira na época, foi possível dedicar-se por dois longos anos ao estudo para concursos públicos. Iniciava de manhã cedo, quase sempre antes de o sol nascer, e somente encerrava tarde da noite, mesmo em feriados e finais de semana.
O empenho permitiu o surgimento dos primeiros frutos: o ingresso em assessoria do Tribunal, contudo a rotina ficou pesada com as seis horas diárias de trabalho. Ainda assim, não houve espaço para acomodação, o tempo de abnegação e o uso de absolutamente todo o tempo disponível para além do trabalho para estudar permitiram o avanço para concursos mais difíceis, chegando a três provas orais (fase mais adiantada das seleções, por vezes depois de passar já por três ou quatro etapas). Mesmo com a reprovação na primeira delas em um estado vizinho, a glória foi atingida um mês após com o ingresso na carreira da magistratura.
Tudo dali em diante mudou significativamente, foi preciso deixar para trás a casa da família, vieram novas cidades, e o desafio constante de adaptar-se a locais com climas, hábitos e culturas diferentes. Essencialmente, também se viveu a partir dali um cotidiano de trabalho bastante extenuante, marcado por grandes responsabilidades. Mas a satisfação pessoal e profissional com as possibilidades do exercício do cargo superava qualquer dificuldade e reafirmava o sentido de toda trajetória percorrida até ali.
Nem dois anos haviam se passado, entretanto, de forma abrupta, a vida mudou de direção, de um dia para outro descobrira um nódulo no corpo, e logo na primeira consulta médica surgiu a suspeita: o diagnóstico de tumor maligno.
O trabalho foi interrompido imediatamente. Em poucos dias viajara para a capital fazer uma cirurgia de emergência para retirar o órgão cancerígeno. Saiu mal do hospital, conduzido em cadeira de rodas. Mas não houve nem tempo para se recuperar do susto da avaliação médica e da delicada cirurgia, quando veio o resultado da biópsia: a composição do tumor apresentava alto risco de acelerada metástase (o espalhar do câncer por todo o corpo).
Iniciara rapidamente quimioterapia pesada. Foram meses difíceis, cada sessão provocara diversos efeitos colaterais e internações de emergência, algumas delas com risco de morte.
A recuperação foi lenta, o cabelo demorou a voltar a crescer, ocorreu a perda de 20 kg, a imunidade permanecia baixa e a expressão de doente na face carregava as marcas do sofrimento. Ainda assim, a mente já ansiava pelo retorno à normalidade, e contrariando ordens médicas, resolveu retomar o trabalho. Muito magro, o terno parecia o dobro do seu tamanho.
Voltando à rotina, estava agendada uma visita do órgão de fiscalização dos trabalhos, a corregedoria, e nesta data a única reprimenda do Desembargador Corregedor ao entrar em seu gabinete, veio em tom quase paternal:
– O Senhor deveria estar em casa convalescendo, não aqui trabalhando!
A frase carregava mais humanidade do que censura.
A doença, a proximidade com a morte, a delicada recuperação, tudo trouxera inúmeras reflexões. A frase mais ouvida naqueles dias, pronunciada por pessoas diferentes em ocasiões distintas ressoava como um refrão que a vida insistia em repetir:
– O Doutor tem uma missão pela frente, precisa se recuperar para continuar seu trabalho, e ajudar muitas pessoas.
Quase uma década depois, quando a vida retomava seu ritmo, o inesperado voltou a bater em sua porta, repentinamente apareceu uma inflamação no olho esquerdo, que piorou rapidamente, e quase causou a perda da visão. Após dias realizando os mais diversos exames outra doença foi descoberta, autoimune, incurável, progressiva, degenerativa e potencialmente incapacitante. A orientação médica, dura e franca, indicou a possibilidade de laudar a doença para buscar a aposentadoria por invalidez, com proventos integrais. Porém, algo dentro dele ressoava:
– Talvez não tenha ainda compreendido tudo o que deveria.
E assim decidiu continuar, não porque ignorasse as limitações impostas pela enfermidade, mas porque entendera que algumas respostas só são encontradas ao longo do caminho.
A partir dali houve uma mudança muito significativa em sua maneira de compreender o próprio trabalho. Para além de “tocar” e julgar os processos que a ele eram vinculados, passou a dedicar energia à construção de caminhos e inúmeras propostas de trabalho diferentes dos tradicionais e usuais. Surgiram projetos e novos fluxos de atendimento, para possibilitar a prevenção à judicialização, buscar atendimento mais humanizado, acolhedor, e trabalhar paralelamente com a cidadania nas áreas afetas ao sistema da justiça, construindo soluções que enxergassem o cidadão para além da condição de parte em uma demanda judicial.
Com essa nova perspectiva e diante de sua inquietação pessoal por uma justiça mais próxima das pessoas o trabalho cresceu significativamente, ocasionou a saída constante do ambiente do fórum para atendimentos, chegando a lugares até então impensáveis, alcançando populações vulneráveis e realidades muito distintas, que durante tempo permaneceram invisíveis aos olhos da grande parte das estruturas públicas, com resultados que ele entendia como muitos bons. Vale ressaltar, porém, que apenas muitos anos depois esse novo formato recebeu a chancela dos órgãos de cúpula, além de diversas premiações e honrarias.
Foi então que aquela antiga frase, tantas vezes ouvida durante a recuperação, começou a adquirir um significado mais profundo. Talvez a missão não estivesse em apenas julgar processos, mas em ajudar a construir pontes para que as pessoas não precisassem chegar até eles.
Ainda assim, a trajetória que tantas vezes havia sido marcada por reviravoltas inesperadas, também de forma repentina, abrupta tal como as moléstias físicas que sofrera, recebeu a ordem para suspender todos os trabalhos e as novas dinâmicas que havia implementado. Não houve nem mesmo tempo para transição gradual, nem para explicações aos envolvidos. Tudo simplesmente parou, e mesmo muitos meses depois, constatada administrativamente a ausência de situações irregulares ou puníveis, fato é que quase mais nada voltou.
Se havia algo que a experiência das dificuldades médicas lhe ensinara ao longo da vida, uma delas era a importância de compreender que nem tudo se explica, nem tudo se resolve pela lógica imediata dos fatos. E diante deles compreendeu:
– É preciso agir sempre com serenidade, resiliência, confiança e fé de que há propósito em tudo nessa vida.
Ao longo de quase vinte e cinco anos de trabalho, com auxílio de parceiros, muitas das histórias que vivenciara foram consignadas em textos escritos, não como exercício de vaidade ou memória pessoal, mas como uma tentativa de dar forma a experiências que, de tão humanas, pareciam pedir passagem para além dos autos e das decisões formais.
E, então recebeu a mais recente surpresa em sua trajetória, pois de forma inesperada veio o convite para ingressar em seleto, expressivo e destacado coletivo que divulga as artes, as letras e a cultura local.
Para além do trabalho de justiça, que continua extenuante e, ao mesmo tempo prazeroso e compensador, talvez seja essa uma de suas novas missões, trabalhar com as letras, traduzir sentimentos, ideias e reflexões para que alguém possa receber e reflexionar, filosofar, olhar a vida com mais profundidade, quem sabe sentir-se de alguma forma acolhido e quiçá menos só diante das próprias inquietações.
Porque a vida e as leis que regem o universo todos os dias estão a ensinar que sempre há ainda mais o que fazer, sempre é tempo para buscar o amadurecimento e o desenvolvimento pessoal, sempre existirá a possibilidade de estender a mão a quem precisa. Sempre será possível praticar a fraternidade e a caridade, e sempre haverá oportunidade de expressar gratidão pelas dificuldades mais desafiadoras que vivenciamos.



