OPINIÃO: Cansaço
Longos dias se passam e a sociedade do cansaço parece não ceder. Cada dia mais, mais e mais. Mais postagens, mais textos, mais músicas, mais cliques e mais produtividade. A ideia da sociedade do cansaço – termo que está associado à obra de Byung-Chul Han, livro cujo título, para mim, já diz mais do que o conteúdo – foi-me trazida das mais variadas formas esta semana, a saber, reunião de trabalho, série de TV, conversa de bar, café literário, sorveteria e até no parquinho infantil enquanto cuidava da minha filha. Literalmente fui bombardeado pela ideia da sociedade do cansaço. Foi diante do parquinho, porém, que encontrei uma resposta.
Não entremos em termos técnicos, pelo menos não agora, e também não chamemos a tropa de choque das filosofias contemporâneas para nos dar chão e céu, até porque o que gostamos é da crônica ligeira. Vamos é de vivências, afinal a sociedade do cansaço só foi teorizada a partir delas. E coloco mais: vivências atuais e vivências vividas. Presente e passado.
Convido quem lê a assistir ao pequeno documentário chamado A Invenção da Infância, disponível gratuitamente online e acessível por uma simples busca em qualquer navegador que lhe apeteça. É uma via que proponho, desde a singeleza e da sinceridade das crianças, também de se mostrar como se forma esta sociedade do cansaço. No curta, há o menino que quebra pedras com a mão, sob forte sol, mas que, ainda que tenha de atravessar o dia em tal labor, diz-se e se sente criança. Há outra criança, que vive supostamente em um grande condomínio paulista e que tem toda uma agenda de afazeres e cursos diários. É ela – salvo engano se chama Laura – que diz fazer tanta coisa durante o dia a ponto de se sentir, algumas vezes, adulta e cansada, não fisicamente, mas em relação ao próprio fazer.
Percebamos em tais vivências, aqui nossos paradigmas, não ser o árduo labor nem a agenda cheia os responsáveis por este cansaço da tal sociedade. O que as crianças nos ensinam é que ele se forma no sempre tentar dar conta de algo inominável, no puro “mais e mais sem fim”, na corrida sem chegada. Laura, a entrevistada, parece nunca conseguir fazer o suficiente do que lhe mandam fazer, ainda que se esforce imensamente para tal, ao passo que o menino quebrador de pedras é contente em jogar um futebol qualquer após o trabalho, e basta. Ele sonha em poder fazer algo diferente, enquanto ela, por sua vez, gostaria muito de poder não fazer alguma coisa, afinal ela nem sabe a razão pela qual faz tanta coisa durante o dia.
Não achem que eu defendo o trabalho da criança que quebra pedras sob o sol. Jamais, repito, jamais – e esta é para mim uma das partes chocantes do filme, tanto quanto o é, por outro motivo, a alegria que tal criança nos traz ao sorrir e a se dizer, ainda esperançosa, apenas criança.
O filme recomendado é do ano 2000 e as crianças supostamente cresceram. Devem, se ainda vivas, fazer parte do contingente de mão de obra brasileira na faixa dos trinta aos quarenta anos. Devem estar no auge, produzindo e produzindo. Será? Quando elas fizeram o filme não havia no Brasil redes sociais ou apps de comunicação instantânea popularizados, entre tantos outros gadgets da nossa sociedade atual, a mesma, sim, do cansaço. Se lá atrás elas já não davam conta, como será agora, com tudo isso a reivindicar delas mais e mais?
É interessante como as pessoas associam a sociedade do cansaço ao que acontece no presente. Penso eu, isso pode ser um equívoco ou, no pior dos casos, um reconhecimento tardio do que já vem latente há muito. Quiçá, por isso, a chave para decodificar esta sociedade do cansaço possa ser encontrada ao se olhar para as crianças, não só as do filme citado, mas também as nossas, de hoje e da nossa casa, a tentar ver quando os mecanismos do sempre produzir (não algo ou alguma coisa, mas o simples e insaciável produzir por produzir) são nelas e por nós, adultos, acionados. Quem sabe por aí, ao observá-las, ao escutá-las em meio às brincadeiras de roda e às cirandas de que espontaneamente participam, possamos encontrar também as contrassenhas para desativar em nós tal sociedade, tal cansaço.
@fernandodavidperazzoli
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