Guerra do Contestado: a terra, a fé e a luta de um povo apagado pela história

A Guerra do Contestado foi muito mais do que um conflito armado pela posse de terras. Entre 1912 e 1916, a região disputada por Paraná e Santa Catarina foi palco de uma guerra que reuniu interesses econômicos, disputas territoriais, transformações políticas, religiosidade e a resistência de uma população que se viu expulsa de espaços onde vivia havia gerações.

Para compreender o conflito, é preciso voltar ao início da República brasileira. Segundo o professor de História Arthur Luiz Peixer, o país passava por um processo de transformação marcado pela centralização política, pela industrialização e pela tentativa de promover uma colonização baseada na imigração europeia.

Nesse processo, populações que já ocupavam a região foram colocadas à margem. “Caboclos e posseiros da erva-mate, grupos indígenas e ex-escravizados eram mantidos à margem, enquanto a nação brasileira mirava no processo de colonização europeia e exploração da grande floresta de araucárias no território contestado”, explica Arthur.

A disputa territorial entre Paraná e Santa Catarina se somava à chegada do capital estrangeiro e à construção da Estrada de Ferro São Paulo–Rio Grande, pela Brazil Railway Company, ligada ao empresário norte-americano Percival Farquhar. A ferrovia atravessou o território e alterou profundamente a dinâmica da região.

Ao mesmo tempo, a exploração das riquezas naturais despertava enorme interesse econômico.

“Cerca de 4 milhões de pés de araucária e aproximadamente 2 milhões de pés de imbuia”. Com esses números, o professor e historiador Aluizio Witiuk dimensiona a quantidade de riquezas naturais extraídas da região pela Lumber, considerada uma das maiores serrarias da América Latina e pertencente, assim como a estrada de ferro, ao Sindicato Farquhar. A dimensão da exploração ajuda a compreender por que o território despertava tamanho interesse econômico. Para os sertanejos, porém, aquela terra não representava apenas madeira ou potencial de lucro: era o lugar onde viviam, trabalhavam e construíam suas comunidades.

 

Quem eram os sertanejos?

Mas, afinal, quem eram aquelas pessoas que viviam no sertão? A resposta é importante para compreender também como a própria imagem dos participantes do conflito foi construída. De acordo com Arthur, os jornais das capitais escolheram um lado e ajudaram a transformar uma população complexa em uma ameaça à República.

“Os jornais da época, principalmente das capitais, como Curitiba e Florianópolis, noticiavam que na região viviam ‘fanáticos e jagunços’ que eram seguidores de ‘um falso profeta’ e que isso representava um perigo para a república”, afirma Arthur.

Aluizio chama atenção para o estigma construído pelo discurso elitista da época contra a população que vivia nas terras contestadas. Segundo ele, um grupo étnico e socialmente diverso acabou sendo reduzido à figura do “jagunço”, muitas vezes associado à criminalidade e à violência simplesmente por defender o território onde vivia.

Para o historiador, é fundamental compreender quem eram os sertanejos e o contexto em que estavam inseridos desde o século XIX. “Na região do Contestado, havia uma população formada por caboclos, povos originários, sírios, alemães, poloneses italianos…”, enfatiza.

Por isso, o professor considera inadequado classificar indistintamente os sertanejos como “jagunços” ou “bandidos”. Muitas daquelas pessoas ocupavam terras consideradas devolutas e não podem ser automaticamente tratadas como criminosas por defenderem o espaço onde viviam, trabalhavam e construíam suas comunidades.

Arthur destaca que a população cabocla não era um grupo desorganizado, como sugeriam as representações produzidas pela imprensa. Segundo ele, as comunidades desenvolveram estruturas sociais próprias, que chegaram a formar 16 cidades ou vilas santas e reuniam diferentes práticas religiosas.

 

Uma guerra entre forças desiguais

Aluizio afirma que os caboclos tiveram de lutar pela permanência em suas terras diante de forças muito superiores, que reuniam o governo federal, o governo estadual e interesses econômicos vinculados ao capital internacional. “Eles lutavam utilizando armas simples, facões, paus e outras ferramentas”, destaca.

A desigualdade entre os lados do conflito também aparece na estrutura militar empregada pelo governo. Enquanto os sertanejos utilizavam recursos rudimentares e conheciam profundamente o território, as forças oficiais contavam com armamentos e estratégias militares modernas, como o primeiro avião usado na história da humanidade em um conflito militar.

Arthur ressalta que, apesar da imagem de um Exército poderoso construída posteriormente, as forças governamentais enfrentaram dificuldades para derrotar os sertanejos. “Sofreu quatro anos com as táticas de guerrilha de rebeldes que, em sua maioria, não possuíam estrutura e treinamentos militares”, afirma.

A própria propaganda produzida durante e depois da guerra ajudaria a consolidar uma versão favorável às forças oficiais. Para Arthur, a imprensa teve papel decisivo na construção do inimigo.

“Com absoluta certeza. A imprensa do período criou os termos como ‘fanáticos’ e tratou de colocar os caboclos do Contestado somente como analfabetos e ignorantes”, afirma.

 

Quando a imprensa também vira arma

A guerra não foi travada apenas nos campos de batalha. A disputa pela narrativa também teve importância.

Arthur explica que os jornais das capitais tinham influência na maneira como a população urbana enxergava o conflito. Ao apresentar os sertanejos como fanáticos, violentos ou inimigos da República, a imprensa contribuía para criar apoio às ações militares.

“A desumanização dos sujeitos, ou seja, colocá-los como pessoas que não pensam, mas que matam de forma desmedida qualquer pessoa sem perguntar antes, facilita colocar os militares, o governo republicano, os governos estaduais e os coronéis da região como protetores da justiça”, avalia.

A construção dessa imagem não atingiu apenas o conjunto dos sertanejos. Um dos personagens que mais sofreu com essa representação foi Adeodato Ramos, considerado o último grande líder caboclo do Contestado.

Arthur explica que Adeodato ficou conhecido como “O Flagelo de Deus” e passou a ser retratado como uma figura quase demoníaca. “Se a guerra começou com o ‘santo José Maria’, estava terminando com o diabo, Adeodato”, resume.

Segundo o professor, parte das ações violentas atribuídas a Adeodato também precisa ser analisada dentro do contexto da própria guerra. Para ele, o personagem foi igualmente resultado da violência e das condições extremas produzidas pelo conflito.

A fé como esperança

Em meio à expulsão das terras, à violência e à instabilidade, a religiosidade ocupou um lugar central na vida dos sertanejos.

A religiosidade teve papel fundamental na formação da resistência dos sertanejos e na construção de uma identidade própria entre as comunidades do Contestado. Um dos primeiros personagens associados a essa tradição foi João Maria, que, segundo os relatos e pesquisas sobre sua trajetória, passou pelo Brasil entre 1844 e 1852.

João Maria era retratado como um homem pacífico, cuja atuação estava ligada à fé, à cura e ao atendimento das necessidades da população sertaneja. Segundo as pesquisas do professor Aluizio Witiuk, ele percorria o sertão, cuidava de pessoas, utilizava conhecimentos de homeopatia, abençoava fontes e poços de água e realizava batismos. “Ele teria dito que voltaria, mas nunca mais retornou”, relata o historiador.

Pesquisas do historiador Alexandre Karsburg identificaram João Maria como Giovanni Maria de Agostini, nascido na Itália, em 1801. O religioso viveu e peregrinou pelo Brasil entre 1844 e 1852. Depois de deixar o país, percorreu diferentes regiões das Américas até ser assassinado, em abril de 1869, nas montanhas de Organ, próximo à vila de Mesilla, no Novo México, nos Estados Unidos. Seu corpo foi sepultado no Cemitério San Albino.

A passagem de João Maria deixou uma marca profunda na memória das populações do interior. Mais do que uma figura religiosa, o monge passou a representar esperança para os sertanejos. Em meio às incertezas provocadas pelas disputas territoriais e pelas transformações econômicas na região, sua figura foi associada à expectativa de proteção, justiça e, sobretudo, à possibilidade de conquistar ou preservar um pedaço de terra.

Um segundo personagem identificado com João Maria foi João Maria de Jesus, cujo nome verdadeiro era Anastasis Marcasse, de origem possivelmente síria ou grega. De acordo com o professor, ele teria aproveitado a tradição deixada pelo primeiro monge e continuado a percorrer a região. É associado à imagem do “monge do gorrinho”, conhecido pelas ervas, batismos e pelas cruzes de madeira fincadas em locais que se tornaram pontos de peregrinação.

Esses monges mantinham uma relação muito próxima com a população. Segundo os relatos, muitas vezes não aceitavam dormir nas casas das pessoas, preferindo permanecer ao relento.

José Maria e a explosão do conflito

O terceiro monge, José Maria de Santo Agostinho, ocupa um lugar central na compreensão da Guerra do Contestado. Segundo o professor Aluizio, estudos mais recentes sobre sua trajetória apontam que o personagem pode ter sido, na realidade, um ex-policial paranaense identificado como Miguel Lucena de Araújo ou Miguel Lucena de Souza. A possível identidade de José Maria, porém, ainda integra as discussões e pesquisas sobre sua trajetória.

José Maria conquistou rapidamente a confiança dos sertanejos e assumiu uma posição de liderança entre as comunidades que se reuniam ao seu redor. Em 1912, sua presença passou a ser vista como uma ameaça pelas forças oficiais, culminando no confronto do Irani, em 22 de outubro daquele ano. A batalha terminou com a morte do monge.

Antes de morrer, José Maria teria afirmado que retornaria à frente de um “Exército Encantado de São Sebastião”. Segundo Aluizio, a crença no retorno do monge exerceu forte influência sobre os sertanejos e contribuiu para alimentar a resistência.

Para muitos de seus seguidores, sua morte não representava um fim, mas uma promessa de retorno, e, com ela, a esperança de vitória daqueles que lutavam pela terra, pela comunidade e pela própria sobrevivência.

O silêncio depois da guerra

A derrota militar dos sertanejos não significou o fim das consequências do conflito. Para Arthur, o silêncio que se estabeleceu posteriormente também faz parte da história do Contestado.

“Após a guerra é possível perceber como isso se manteve, pois as populações da região silenciaram-se, e por muitas décadas evitaram falar do assunto, seja por medo ou vergonha”, explica.

O professor considera que esse silenciamento contribuiu para que a memória dos caboclos fosse apagada durante décadas. A própria produção histórica sobre o conflito, inicialmente marcada por obras de militares, ajudou a consolidar uma narrativa em que o Exército aparecia como responsável por “salvar” a região.

Arthur aponta ainda que a perseguição não terminou imediatamente com o fim da guerra. Segundo ele, sobreviventes e possíveis novos movimentos de resistência continuaram sendo perseguidos, enquanto coronéis e bugreiros atuavam na região.

“O caboclo do Contestado virou um elemento do passado histórico, esquecido como parte do presente e relegado às margens da história e da sociedade”, afirma.

Um conflito que ainda diz respeito ao presente

Mais de um século depois, a Guerra do Contestado permanece como uma ferida histórica na região. Para Arthur, seus efeitos podem ser percebidos ainda hoje nas desigualdades sociais e na maneira como a formação histórica do território é compreendida.

“Que a nossa região ainda possui traços de um passado dolorido e profundamente desigual”, afirma o professor.

Ele defende que compreender o Contestado exige olhar para além da chegada dos imigrantes europeus e reconhecer a presença anterior de indígenas, caboclos e negros na formação da região.

A história do conflito também oferece uma reflexão sobre o poder da informação. Arthur estabelece um paralelo entre a imprensa que atuava durante o Contestado e a circulação de desinformação nas mídias sociais atuais.

“A imprensa ainda molda opiniões e a propagação de informações falsas foi potencializada pelas redes sociais”, avalia.

Para o professor, a diferença está na velocidade e na quantidade de informações disponíveis atualmente. Se, no início do século XX, poucos veículos tinham o poder de determinar a narrativa sobre o conflito, hoje as mídias sociais multiplicam as fontes de informação, mas também criam novos espaços para a desinformação.