CRÔNICA: Janelinha
Estranho é, hoje em dia, sacar dinheiro no caixa eletrônico. Outrora costumeiro, cabe saber quem é que ainda o faz por estes dias de Pix e de cartão de crédito, nestes tempos de modernidades líquidas em que se paga o que se deve com o aparelho de telefone. Outro dia vi uma pessoa no restaurante a quitar a conta com o relógio, e até achei que iria deixá-lo em garantia, alguma coisa assim, mas soube rápido que não, que estava era mesmo a pagar, pelo que se encostava o relógio numa caixinha quadrada e pronto, muito obrigado e volte sempre.
Em cinco anos e meio tudo parece mudar. Coisas vão e coisas vêm e tantas outras se tornam obsoletas. As notas de papel seguem o mesmo caminho e, para pior, no pós-pandemia os antigos trocados reeditaram os conceitos de asco, da repugnância e do nojo. Não é que não se goste de ganhar dinheiro, mas, vamos lá, entre uma nota de cinco reais que já rodou meio mundo em mãos desconhecidas e embotadas de bactérias e o nada, será que não se poderia, por um acaso, tertium genus, fazer-se uma transferência? Melhor, não é?
Confesso que até hoje não vi pessoalmente uma nota de duzentos reais, não sei mais se existe a de dois, tanto quanto não tenho ideia de onde figuram, valiosas ou não, a garça-branca-grande, a aranha-vermelha, o mico-leão-dourado, a onça-pintada e o peixe garoupa. Parei de conhecer a rica fauna brasileira estampada no numerário nacional ainda no beija-flor, no pobre beija-flor de um real, verdinha tupiniquim que, de tão pobre e desvalorizada frente às verdinhas do Tio Sam, acabou por sumir.
De fato, não sei quando peguei uma nota de papel pela última vez. Não sei se cabem na minha carteira, não sei por que tenho ainda a carteira e, confesso, não sei mais como as conseguir, as notas, no caixa eletrônico. Qual botão eu aperto? Enfio o cartão de crédito ou não? Cartão, que cartão? Tudo no celular, eletrônico e intocável. Funcionará, acredite, é intuitivo, disse-me uma pessoa que viu meu embaraço.
Mas, por falar em dinheiro materializado, e as moedas? Quem as tem visto por aí? Moedas… dirão… o que são, para que servem, onde vivem e o que comem? Para mim, Millennium, sumiram junto com as fichas telefônicas e com os tamagotchis. Nunca mais as vi. O porquinho aqui em casa está vazio, e não será enchido com nada além de vento, pois está tudo digitalizado. Atenção: se você é novo, porquinho não é um animal no qual enfiávamos as moedas – como no gato que descome dinheiro, na obra O Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna –, mas tão somente um artefato de cerâmica no qual fazíamos nossa poupança para, depois, quebrá-lo e contar os cacos, ou melhor, as moedas.
Mas, eis que, voltas da vida, e ela nos leva em retorno às notas, ao estranho, ao dinheiro de papel já (ultra)passado. É que as revoluções tecnológicas e os ciclos schumpeterianos não deram conta do imaginário infantil (ufa, ainda bem!) e, vejam só, das fadas (graças!). Foi assim que, no cair do primeiro dente, no abrir da primeira janelinha, sobreveio o questionamento sobre a quantia que seria trazida pela fada do dente naquela noite – uma cultura rapidamente difundida na escola por outras colegas já janelinhas.
Não há como colocar um recibo de Pix embaixo do travesseiro, não há como convencer uma criança de que ela tem uma poupança no banco ou ações na bolsa de valores, coisas demasiado imateriais para quem, no alto dos seus cinco anos e meio, perde o primeiro dente. É melhor, portanto, dar um jeito e achar uma nota, nem que seja um verdinho e finado beija-flor tupiniquim. Basta-me, para isso, superar minha ignorância e descobrir como faz, hoje em dia e depois de tanto tempo, para o caixa eletrônico na minha frente entregar o numerário. Fada do dente, tenha piedade deste pai.
@fernandodavidperazzoli
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