Cheia do Rio Iguaçu domina sessão da Câmara de União da Vitória

A situação provocada pela cheia do Rio Iguaçu foi o principal assunto da sessão ordinária da Câmara Municipal de União da Vitória realizada na noite desta segunda-feira, 14.

Com o rio acima dos 6 metros e centenas de famílias atingidas direta ou indiretamente pela inundação, vereadores usaram a tribuna para cobrar medidas emergenciais, planejamento permanente e obras que possam reduzir os impactos de novas cheias.

A reunião ocorreu em meio a um dos momentos mais críticos enfrentados pelo município nos últimos anos. Com o Rio Iguaçu novamente acima dos 6 metros — patamar alcançado pela 12ª vez desde 1983 —, parte significativa das discussões esteve relacionada à estrutura de resposta da cidade aos eventos climáticos extremos.

A pauta oficial da Câmara confirma que, além dos debates sobre a enchente, foram analisadas demandas relacionadas à drenagem urbana, infraestrutura, educação, concessão de imóvel público e proteção ao consumidor.

Vereadores cobram estrutura permanente para a Defesa Civil

A vereadora Thays Bieberbach defendeu que União da Vitória avance de uma atuação baseada principalmente na resposta às emergências para um modelo permanente de prevenção.

Durante sua manifestação, a parlamentar lembrou que o município aprovou, em abril deste ano, legislação relacionada à política municipal de proteção e Defesa Civil e à criação de um fundo específico para a área. Segundo ela, no entanto, ainda faltam estrutura permanente, servidores capacitados, atualização de informações sobre áreas de risco e recursos financeiros disponíveis para situações como a enfrentada atualmente.

Entre os pontos levantados estão as condições oferecidas nos abrigos destinados às famílias retiradas de suas residências, o mapeamento das regiões suscetíveis às inundações e a necessidade de regras mais claras para a concessão de aluguel social.

A discussão reforçou uma preocupação que voltou a aparecer nas manifestações de diferentes vereadores: as enchentes são recorrentes em União da Vitória e, por isso, o planejamento não pode começar apenas quando o nível do Iguaçu sobe.

Animais também precisam ser incluídos no plano de emergência

A vereadora Protetora Guga chamou atenção para outro problema observado durante a cheia: o atendimento aos animais de estimação das famílias atingidas.

Segundo a parlamentar, o Plano de Contingência municipal não contempla de maneira adequada cães e gatos durante situações de enchente. Ela destacou que voluntários e entidades têm participado da organização de espaços provisórios e de ações de resgate, com apoio do Instituto Água e Terra (IAT) e do grupo Remade.

A vereadora defendeu que esse atendimento passe a integrar formalmente o planejamento municipal para futuras emergências, evitando que a estrutura precise ser organizada somente após o início das inundações.

Canal extravasor e obras estruturais voltam ao debate

O vereador Alemão da Agropecuária voltou a defender medidas estruturais para enfrentar as cheias do Rio Iguaçu. Entre as alternativas citadas está a discussão sobre a construção de um canal extravasor.

O parlamentar também criticou o que classificou como utilização política do momento de crise e defendeu que as atenções sejam concentradas no atendimento às famílias e na busca de soluções de longo prazo.

A própria pauta da sessão trouxe uma indicação do vereador relacionada aos efeitos das chuvas. O documento pede a substituição da atual Ponte Aparecida, na Colônia Rio Vermelho, por uma estrutura elevada, além de melhorias no acesso ao local. A justificativa cita o frequente transbordamento do rio e o isolamento de moradores durante períodos de chuva intensa.

Defesa Civil permanente

O vereador Professor Marcio Fernando Utzig também destacou a necessidade de União da Vitória contar com uma equipe de Defesa Civil permanentemente estruturada e treinada.

Ele lembrou o crescimento do município, hoje com aproximadamente 56,7 mil habitantes, e argumentou que a recorrência de eventos climáticos exige uma organização compatível com o tamanho e as características da cidade.

Durante a manifestação, Utzig também destacou o trabalho dos servidores municipais envolvidos no atendimento aos desabrigados, especialmente das merendeiras responsáveis pelo preparo das refeições distribuídas às famílias acolhidas.

Limpeza de bueiros e recolhimento de galhos

Problemas de manutenção urbana também foram associados aos transtornos provocados pelas chuvas.

O vereador Anderson Cardoso cobrou maior frequência na limpeza e desobstrução de bueiros, galerias e cursos d’água, apontando que a falta de manutenção pode agravar alagamentos em diferentes bairros.

Já Ricardo Adriano Sass voltou a cobrar o recolhimento de galhos e resíduos de podas acumulados nas calçadas.

A reivindicação consta oficialmente da pauta. A Indicação nº 184/2026 pede um mutirão urgente para recolher galhos, restos de poda e resíduos de jardinagem, principalmente nas proximidades das escolas. O documento alerta ainda que folhas e pequenos galhos acabam sendo levados para as sarjetas e podem contribuir para a obstrução de bueiros.

Outras indicações apresentadas na reunião também trataram diretamente de drenagem e prevenção a alagamentos, incluindo pedidos de tubulação e limpeza de bueiros em diferentes bairros.

Câmara pede fiscalização contra aumento abusivo de aluguéis

Um dos principais encaminhamentos relacionados diretamente à enchente foi o Requerimento nº 111/2026, apresentado por todos os vereadores.

O documento pede ao Procon de União da Vitória a adoção de medidas emergenciais e a intensificação da fiscalização principalmente no mercado imobiliário, diante da possibilidade de aumentos abusivos nos valores dos aluguéis durante a emergência climática.

A preocupação ocorre justamente no momento em que famílias precisam deixar áreas alagadas e procuram imóveis temporários para permanecer enquanto suas casas continuam atingidas pelo Rio Iguaçu.

O requerimento também pede fiscalização sobre preços de itens considerados essenciais, como alimentos e produtos de limpeza.

Na justificativa, os vereadores afirmam que a elevação injustificada de preços durante um momento de calamidade pode representar uma prática abusiva contra consumidores em situação de vulnerabilidade. O documento solicita presença mais intensa do órgão nas ruas, fiscalização de imobiliárias, corretores e estabelecimentos comerciais e a criação de canais rápidos para denúncias.

Escola Melvin Jones pode ganhar sede própria

Mesmo com a enchente dominando os debates, outras demandas importantes também foram analisadas.

Os vereadores Professor Cordovan Neto e Joarez Tica apresentaram o Requerimento nº 110/2026, solicitando à Prefeitura estudos técnicos, jurídicos e orçamentários para viabilizar uma sede própria para a Escola Municipal Melvin Jones.

Atualmente, a unidade atende aproximadamente 290 alunos e divide a estrutura com o Colégio Estadual Neusa Domit. O documento aponta que o crescimento do número de estudantes tem provocado limitações na utilização de espaços como quadra esportiva, biblioteca, laboratório de informática e salas destinadas a atendimentos especializados.

A solicitação teve origem em um abaixo-assinado organizado pela própria comunidade escolar.

Drenagem no Cristo Rei

Outro requerimento aprovado trata diretamente de um problema recorrente em períodos de chuva.

De autoria da vereadora Cleonice Martinazzo Moller, o Requerimento nº 109/2026 solicita a instalação de tubulação na Rua 22 de Abril, no bairro Cristo Rei.

Segundo a justificativa, a via sofre com problemas de drenagem, acúmulo de águas pluviais e alagamentos. O documento também relata que uma valeta a céu aberto existente no local está tomada por lixo.

Câmara também analisa concessão de imóvel público

Na Ordem do Dia, os vereadores analisaram ainda o Projeto de Lei Ordinária nº 49/2026, encaminhado pelo Poder Executivo.

A proposta autoriza o município a realizar, mediante licitação, a concessão de direito real de uso de um imóvel público, estabelecendo também restrições relacionadas à incompatibilidade sanitária. Os pareceres das comissões responsáveis foram favoráveis ao projeto.

Cheia expõe novamente desafios históricos

Apesar das diferentes matérias analisadas, foi a enchente que deu o tom político da sessão.

As manifestações mostraram que o debate na Câmara deixou de estar concentrado apenas na retirada das famílias das áreas alagadas e passou também para o que deve ser feito antes da próxima cheia.

Estrutura permanente da Defesa Civil, mapeamento de áreas de risco, condições dos abrigos, atendimento aos animais, aluguel social, manutenção da drenagem urbana e grandes obras para reduzir os impactos do Rio Iguaçu apareceram entre as principais cobranças.

Com o rio ainda em nível elevado e milhares de moradores acompanhando diariamente as medições, a discussão deve permanecer entre as prioridades do Legislativo nas próximas semanas.

A próxima sessão ordinária da Câmara Municipal de União da Vitória está prevista para 21 de setembro.