De Bituruna para o Brasil: família ajuda Embrapa a salvar antiga raça de porcos
Uma raça de porcos que chegou ao Brasil com os colonizadores, adaptou-se às condições do país e quase desapareceu com a modernização da suinocultura começa agora a ganhar uma nova chance. E parte dessa história passa pelo interior de Bituruna, no Sul do Paraná.
Na comunidade de Santo Antônio do Iratim, animais da raça Nilo, também conhecida como Nilo-Canastra, vêm sendo mantidos pela família de Marcos Bertoletti. Agora, exemplares dessa criação passam a integrar uma iniciativa da Embrapa Suínos e Aves, de Concórdia (SC), voltada à preservação, à pesquisa e à recuperação genética da raça.
O pesquisador José Victor Vieira Isola explicou que os animais Nilo descendem dos primeiros suínos trazidos pelos colonizadores ao Brasil. Ao longo dos séculos, a raça se adaptou às condições brasileiras, mas perdeu espaço com a industrialização da produção e a introdução de linhagens comerciais. Hoje, segundo o pesquisador, há risco de desaparecimento caso não sejam adotadas medidas de conservação.
A preocupação também aparece em publicação científica lançada neste ano pela Embrapa. O documento descreve o Nilo como uma raça suína crioula brasileira de pele preta e ausência de pelos, descendente principalmente de suínos ibéricos introduzidos nas Américas a partir do século XVI. O declínio teria se acentuado com as mudanças na suinocultura brasileira a partir da década de 1970.
Busca por animais em todo o Brasil
O projeto não se limita ao Paraná. A equipe da Embrapa passou a procurar criadores em diferentes regiões do país para localizar animais e linhagens que ainda conservassem as características do Nilo.
Segundo José Victor, a tarefa não foi simples. A localização dos criadores envolveu contatos pessoais, grupos de whatsapp e questionários. A intenção é reunir diferentes linhagens para formar um núcleo de conservação na unidade da Embrapa em Concórdia e reduzir problemas de consanguinidade. Há ainda a proposta de estruturar registros e controlar o pedigree dos animais, em trabalho que envolve a Associação Brasileira de Criadores de Suínos.
Bituruna marca uma das primeiras etapas práticas dessa busca. Da propriedade da família Bertoletti, um macho e duas fêmeas estão sendo levados para Concórdia. Outros animais deverão ser incorporados ao núcleo a partir de criadores de estados como São Paulo e Goiás.
Os exemplares encontrados no município apresentam características associadas à raça, entre elas coloração escura, pouca ou nenhuma presença de pelos e os chamados “brincos”, pequenas protuberâncias existentes na região das bochechas em determinados animais. A conformação do focinho e das orelhas também faz parte da avaliação realizada pelos pesquisadores.
Ciência vai investigar a origem da raça
Levar os animais a Concórdia é apenas o começo. O trabalho da Embrapa prevê estudar cientificamente uma raça sobre a qual ainda existem muitas lacunas de conhecimento.
Entre as linhas de investigação está a genética molecular, que poderá ajudar a determinar o grau de parentesco do Nilo brasileiro com os antigos suínos ibéricos. Os pesquisadores também consideram a possibilidade de que, ao longo dos séculos, tenha ocorrido contribuição genética de raças asiáticas.
Também serão avaliadas características produtivas, como crescimento, manejo e qualidade da carne. Um dos interesses está na gordura intramuscular, característica que pode favorecer sabor e suculência, além da possibilidade de utilização em produtos de maior valor agregado, especialmente na charcutaria.
A publicação da Embrapa aponta justamente esse potencial. Além da importância como patrimônio genético, o Nilo pode ter espaço na produção de carnes e embutidos diferenciados e funcionar como reservatório de genes ligados à adaptação às condições tropicais e à resiliência.
Uma genética mantida por gerações
Se hoje pesquisadores conseguem encontrar exemplares para iniciar o trabalho de recuperação, isso também se deve a produtores que continuaram criando esses animais quando as raças comerciais passaram a dominar a suinocultura.
Marcos conta que seu contato com o Nilo-Canastra começou ainda na infância. Ele relata ter recebido um animal quando tinha quatro ou cinco anos e que, ao longo das décadas, a família manteve a ligação com os porcos de criação mais rústica.
Na propriedade, a criação atualmente envolve Marcos, a esposa Débora e os filhos. Além do Nilo, a família mantém outros suínos de linhagens antigas e diferenciadas, como Moura, Piau e Casco de Burro, preservando uma forma de criação muito diferente do modelo intensivo das grandes granjas.
Para Marcos, ver animais da propriedade escolhidos para o projeto representa o reconhecimento de um trabalho que, durante muitos anos, ocorreu praticamente de maneira informal. Ele afirma que os exemplares passaram por exames e avaliação genética antes de serem aceitos e vê a iniciativa como uma possibilidade de garantir que aquela genética continue existindo nas próximas décadas.
De Bituruna para a pesquisa nacional
O que durante décadas permaneceu no interior de uma propriedade rural agora ganha dimensão científica.
Os três animais que deixam Bituruna com destino a Concórdia não representam apenas mais um grupo de suínos. Eles carregam material genético de uma raça que atravessou séculos, adaptou-se ao Brasil, perdeu espaço para a produção industrial e agora passa a ser procurada justamente pelas características que conseguiu preservar.
Para a Embrapa, recuperar o Nilo significa estudar e proteger um patrimônio genético brasileiro. Para a família Bertoletti, significa transformar uma tradição mantida por gerações em parte de um projeto que pode ajudar a evitar que a raça desapareça.
E, para Bituruna, isso coloca uma pequena propriedade de Santo Antônio do Iratim no centro de uma iniciativa que procura, em diferentes pontos do Brasil, salvar da extinção o antigo porco preto brasileiro.
Assista à reportagem completa
Confira, no YouTube do Jornal O Comércio, a reportagem sobre a preservação da raça Nilo e a participação da família Bertoletti no projeto da Embrapa.
Marmoreio:
O marmoreio é decorrente da presença de gordura intramuscular. Essa gordura agrega valor ao produto e é um critério de qualidade observado pelos consumidores mais exigentes. A aceitabilidade maior ocorre não apenas para produtos in natura, mas também para os processados.






