Além do laço rosa: histórias de mulheres que enfrentam o câncer de mama

O Outubro Rosa é tradicionalmente marcado por campanhas de conscientização, ações de prevenção e orientações sobre o câncer de mama.

Mas, por trás dos laços cor-de-rosa e das mensagens que se multiplicam nesta época do ano, existem mulheres que vivem diariamente os desafios do diagnóstico e do tratamento. Mulheres que precisam lidar com o medo, as mudanças no corpo, a incerteza sobre o futuro e a necessidade de reorganizar a própria vida.

Entre essas histórias estão as de Ariele Vogel, de 34 anos, e Salete Alves. Em diferentes momentos de suas jornadas, ambas decidiram compartilhar suas experiências para incentivar outras mulheres a prestarem atenção aos sinais do corpo e buscarem orientação médica.

Um diagnóstico aos 34 anos

Ariele Vogel não imaginava que precisaria enfrentar um câncer de mama tão jovem. Acostumada a manter uma rotina ativa, praticar exercícios físicos e cuidar da alimentação, ela acreditava que a doença estava mais associada às mulheres de idade avançada.

Foi durante um banho, no final de abril deste ano, que percebeu um nódulo palpável em uma das mamas. Em junho, realizou exames de mamografia e ultrassonografia. A confirmação do diagnóstico veio em agosto, mês em que também iniciou as sessões de quimioterapia.

Até então, Ariele não realizava exames de imagem com frequência, embora tivesse o hábito de observar e tocar as mamas durante o banho. Ela conta que, inicialmente, a possibilidade de estar com câncer parecia distante de sua realidade.

“Quando veio o diagnóstico, eu não acreditava, por ser jovem e não ter casos na família por parte materna”, relata.

Embora não existam registros de câncer de mama entre as mulheres da família materna, Ariele conta que sua avó paterna, já falecida, e uma tia tiveram a doença. Do lado materno, há histórico de câncer do colo do útero.

Após receber o diagnóstico, passou a pesquisar mais sobre o assunto e a conversar com outras mulheres que enfrentam a mesma situação. Atualmente, participa de um grupo de apoio e troca de experiências, de abrangência nacional, com mais de 500 mulheres. Segundo ela, muitas das participantes que relatam diagnóstico de câncer de mama têm entre 28 e 40 anos.

A convivência com essas histórias fez Ariele perceber que a doença também faz parte da realidade de mulheres jovens, algo que antes não considerava.

Ariele Vogel descoberta do câncer aos 34 anos (ARQUIVO PESSOAL)

Os desafios que acompanham o tratamento

Ariele iniciou o tratamento em Curitiba, mas posteriormente conseguiu transferi-lo para o Hospital Regional/São Braz, em Porto União. Em outubro, ainda está nas primeiras etapas da quimioterapia, enfrentando os efeitos físicos e emocionais do processo.

O protocolo inicial inclui sessões de quimioterapia conhecida popularmente como “vermelha”, denominação associada à coloração de determinados medicamentos utilizados no tratamento oncológico.

“Não tem sido fácil. Iniciei pelas quimioterapias vermelhas, as temidas, e realmente os efeitos colaterais são muito fortes”, conta.

Segundo ela, um dia após cada sessão começam os episódios de náusea, vômitos e mal-estar intenso. Os sintomas permanecem por aproximadamente cinco dias, até que ela começa a apresentar melhora.

Outra mudança significativa foi a perda dos cabelos, que começou cerca de 15 dias após a primeira sessão.

Aos desafios físicos somam-se os emocionais. Ariele conta que o diagnóstico trouxe sentimentos difíceis de explicar, principalmente diante das mudanças na aparência e das incertezas em relação ao tratamento.

“Não vou mentir, tem sido tudo difícil. É um medo sem explicação. Ver-se sem cabelo, a autoestima… É um processo bem doloroso. Estou ainda no início do tratamento e sei que tenho um longo processo pela frente”, desabafa.

Funcionária de uma imobiliária, ela precisou se afastar temporariamente do trabalho devido à intensidade dos efeitos colaterais. Neste momento, decidiu concentrar suas forças nos cuidados com a saúde. “Optei por cuidar somente da minha saúde”, afirma.

Mesmo diante das dificuldades, Ariele passou a enxergar o futuro de outra maneira. Antes do diagnóstico, não pretendia ter filhos. Agora, a experiência despertou nela novos desejos e perspectivas.

“Depois do diagnóstico, a gente começa a ver a vida com outros olhos. Se Deus me permitir, quero sim, após todo esse processo acabar e eu ter a minha cura”, conta.

 Transformar a própria experiência em alerta

Ariele levou algumas semanas até encontrar coragem para falar publicamente sobre a doença. A decisão de compartilhar o diagnóstico veio acompanhada de um propósito: alertar e ajudar outras mulheres.

Ela destaca que não apresentou dor nem outros sintomas antes de perceber o nódulo na mama.

“Sempre fui uma pessoa ativa, fazia exercícios físicos e tinha uma alimentação saudável, e mesmo assim aconteceu comigo”, relata.

Hoje, sua mensagem é direcionada especialmente às mulheres que, assim como ela, acreditam que o câncer de mama é uma preocupação distante por causa da idade.

“Quero deixar um recado para todas as mulheres: cuidem-se e façam seus exames regularmente. O câncer de mama pode ser silencioso. Eu não tive nenhum sintoma. Por isso, não esperem sentir alguma coisa para procurar um médico. Qualquer alteração, por menor que seja, procurem orientação médica e mantenham seus exames em dia.”

Para Ariele, dividir uma experiência tão pessoal também é uma forma de encontrar sentido em meio às dificuldades.

“Estou compartilhando a minha experiência porque, se ela puder servir de alerta para outra mulher se cuidar e descobrir algo a tempo, já vai ter valido a pena.”

O acolhimento que fortalece a caminhada

Assim como Ariele, Salete Alves de 60 anos descobriu uma alteração na mama ao tocar o próprio corpo. A percepção de que havia algo diferente a levou a procurar atendimento médico e realizar os exames que confirmaram o câncer.

Desde então, Salete também passou a enfrentar os desafios do tratamento. Em sua trajetória, destaca a importância do apoio recebido da Rede Feminina de Combate ao Câncer Casa Bebel.

“Já estou fazendo tratamento e tenho recebido muito carinho e apoio da Rede Feminina de Combate ao Câncer Casa Bebel, que tem sido fundamental na minha caminhada”, relata.

O acolhimento, segundo ela, tem sido uma parte importante desse período. Diante das dificuldades, Salete encontra na fé, na esperança e no apoio recebido a força necessária para seguir.

“Estou enfrentando essa batalha com muita fé, esperança e acreditando na minha cura”, afirma.

Ao compartilhar sua história, ela também deixa uma mensagem de conscientização.

“Se toquem, conheçam o seu corpo e, se perceberem algo diferente, procurem um médico. Não tenham medo.”

Salete Alves compartilhou sua história para inspirar outras mulheres (ARQUIVO PESSOAL)

Muito além de outubro

Embora tenham trajetórias diferentes, Ariele e Salete compartilham uma experiência que ultrapassa o diagnóstico. Ambas perceberam alterações nas mamas ao tocar o próprio corpo, buscaram atendimento médico e hoje utilizam suas histórias para chamar a atenção de outras mulheres.

O câncer de mama pode ocorrer mesmo em pessoas que mantêm hábitos saudáveis e também pode atingir mulheres jovens. A ausência de histórico familiar conhecido não elimina a possibilidade de desenvolver a doença.

Conhecer o próprio corpo e observar alterações é importante, mas essa prática não substitui a avaliação médica nem os exames de rastreamento, realizados conforme as recomendações de saúde e as características individuais de cada paciente.

Nódulos nas mamas, alterações na pele, mudanças no mamilo ou secreções espontâneas devem ser avaliados por profissionais de saúde, independentemente da idade.

Neste Outubro Rosa, as histórias de Ariele e Salete lembram que a conscientização não termina quando o mês chega ao fim. Para quem enfrenta o câncer de mama, o cuidado, o tratamento e a busca pela recuperação fazem parte de uma realidade que continua durante todo o ano.

E, para quem recebe essas mensagens, fica o convite para transformar a conscientização em cuidado com a própria saúde.