O novo fenômeno das urnas

O eleitor brasileiro apontou, no domingo, 04, para um caminho que as urnas já vinham sinalizando: os votos mais expressivos da eleição para a Câmara dos Deputados saíram das mídias sociais.

Em Minas Gerais, Nikolas Ferreira (PL) somou 3.119.318 votos, o equivalente a 27,3% dos votos válidos do estado. Em São Paulo, Lucas Pavanato (PL), vereador da capital, recebeu 3.038.438. Os dois ultrapassaram a marca de 3 milhões de votos e lideram o ranking nacional.

O fenômeno não ficou restrito a um partido nem a um estado.

Em Minas, Ana Elisa (PT), de 21 anos, foi eleita com 524.216 votos, a mulher mais votada do estado para a Câmara, construindo sua candidatura com conteúdo de conscientização política no Instagram e no TikTok.

Em São Paulo, Erika Hilton (PSOL) teve 1.596.472 votos e Sâmia Bomfim (PSOL), 583.107. No Ceará, André Fernandes (PL) teve 684.372 votos.

Em Santa Catarina, Julia Zanatta (PL) foi a mais votada do estado, com 560.223, sexta colocada no país. Um levantamento da Folha mostrou que parlamentares de direita com ao menos 200 mil seguidores no Instagram foram recordistas de votação em nove estados.

 No Paraná

O estado reproduziu o padrão. O mais votado foi Jeffrey Chiquini (Novo), advogado de 30 anos, que na primeira eleição que disputou teve 425.399 votos (6,81%) e superou o recorde de Carlos Massa Ratinho Junior, de 358.924 votos, em 2010.

Em segundo veio Guilherme Kilter (Novo), com 269.832 votos (4,32%). Eleito vereador de Curitiba aos 22 anos em 2024, ele chegou a mais de 1 milhão de seguidores no Instagram e conta que se projetou ao viralizar com postagens feitas durante uma conferência nacional de educação.

Entre os eleitos também estão Renato Freitas (PT), com mais de 824 mil seguidores na rede, e Da Costa do Perdeu Piá (Podemos), que já integrava a bancada de influenciadores da Câmara Municipal de Curitiba.

 Rejeição dos medalhões

Enquanto os novos nomes avançavam, figuras conhecidas ficaram pelo caminho. Ciro Gomes (PSDB) e Aécio Neves (PSDB) não conseguiram mandato, Renan Calheiros (MDB) deixa o Senado após 32 anos e Gleisi Hoffmann (PT) não voltou à Casa Alta pelo Paraná.

Até o humorista Tiririca (PSD), eleito desde 2010, ficou fora da Câmara, com pouco mais de 5 mil votos, depois de mudar o domicílio eleitoral para o Ceará. No Paraná, ex-governadores como Beto Richa e Roberto Requião, além de Raimundo Colombo, em Santa Catarina, também ficaram sem mandato.

 O que dizem os especialistas

Para o colunista do Jornal O Comércio, Walber Guimarães Junior, o resultado exige atenção.

“É fundamental a gente olhar com atenção para esse fenômeno de votações astronômicas de gente que não estava no nosso radar”, afirma. Segundo ele, os mecanismos tradicionais de definição de voto, como o palanque eletrônico, estão em curva descendente: “Com o controle na mão, você foge tranquilamente do horário político e se desloca aos streamings”. E o destino é conhecido: “É de lá, das redes, que saem os top trends, as principais pautas do debate nacional.”

A preocupação de Walber está na atuação desses novos atores.

“Eles estão focados no flash, nos 30 segundos, na postagem que rende polêmica, que rende interação e que rende comentários, não obrigatoriamente na consequência dessas ideias, na tradução delas em legislação que melhore a nossa vida”, diz. Ele também levanta uma hipótese sobre o papel dos algoritmos, sistemas de aprendizado de máquina: “Por que não imaginar que eles possam ser direcionados para produzir mais alcance quando as postagens tiverem identificação ideológica com os interesses de quem comanda os algoritmos?” Para ele, o mecanismo é eficaz porque “a mente de qualquer cidadão está propensa a receber informações que combinem com suas crenças, e quanto mais recebe, maior é a sua convicção”.

André Marsiglia, também colunista do Jornal O Comércio, o fenômeno não é exatamente novo. Ele lembra que Tiririca e Romário já haviam se elegido pela visibilidade, mas defende que agora há um novo passo: “Não é que a internet está dando visibilidade a certos influenciadores e eles ocupando o espaço da política. O que está havendo é que a internet se transformou no novo espaço de fazer política.”

Na leitura dele, o eleitor mudou de exigência.

“A política que é feita apenas dentro do Congresso, ou apenas nas colunas de jornais, ou apenas dentro das emissoras não é mais suficiente para o eleitor”, afirma. O resultado, segundo Marsiglia, foi duplo: “Houve uma rejeição dos medalhões da velha política e de personagens que tinham apenas visibilidade.” Os influenciadores que avançaram não o fizeram só por vir da internet: “Eles compreenderam a internet como um novo espaço de fazer política e um espaço com o qual o eleitor dialoga melhor.”

Para o advogado, o baixo peso dos debates na campanha confirma essa migração: “Um candidato poder abrir mão de fazer debate porque se expressa em outros meios é um termômetro de como a política está migrando das estruturas tradicionais para as mídias sociais.”

 Um debate que continua

As duas análises divergem no tom, mas convergem num ponto: a forma de conquistar o voto mudou. Para Marsiglia, as redes se tornaram “um ambiente para fazer política muito mais desejado pelo eleitor, sobretudo o jovem”.

Para Walber, é justamente por isso que a atenção precisa redobrar:

“É uma discussão em que os especialistas precisam se debruçar, para que a gente saiba se a rede social, a votação digital e o algoritmo não estão comprometendo a nossa democracia.”

A resposta, por ora, está em aberto, e o mandato dirá se a força construída no feed vai se converter em resultados no Congresso.