Morre o advogado Gilberto Dombroski, ex-presidente da OAB de União da Vitória

União da Vitória se despede, nesta quinta-feira (15), do advogado Gilberto Tadeu Dombroski, que morreu aos 69 anos. Ex-presidente da subseção da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) no município, ele construiu uma trajetória de décadas na advocacia, participou de mobilizações pelo fortalecimento do Poder Judiciário na região e também deixou sua marca na história da comunicação regional. Gilberto lutava contra um câncer e estava internado havia alguns dias na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Maternidade APMI.

(Foto: redes sociais).

Nascido em 7 de outubro de 1957, Dombroski havia completado 69 anos oito dias antes de sua morte. Comunicativo e conhecido pelas amizades que cultivou ao longo da vida, também era lembrado pelo envolvimento com a comunidade e pelo carinho que mantinha pelo rádio, atividade que marcou o início de sua trajetória profissional.

A notícia de sua morte motivou uma manifestação oficial da OAB de União da Vitória, que divulgou uma nota de pesar nesta quinta-feira. A entidade destacou a dedicação do advogado à profissão e à instituição, além de sua participação na história da advocacia regional.

Com o jornalista Rafael Peruzzo, para a série Lideranças do Direito, produzida pelo Jornal O Comércio

Parte da trajetória de Gilberto também foi resgatada em uma entrevista concedida ao jornalista Rafael Peruzzo, para a série Lideranças do Direito, produzida pelo Jornal O Comércio e disponibilizada no canal do veículo no YouTube. Na conversa, ele relembrou a infância, os esforços da família para que pudesse estudar, o início da carreira jurídica, a passagem pela presidência da OAB e as pessoas que influenciaram sua formação. (Assista a entrevista no final da reportagem).

Com a morte do advogado, o registro ganha um significado especial ao preservar as memórias de uma liderança que acompanhou mudanças importantes na advocacia e na estrutura judiciária de União da Vitória.

Do rádio para o Direito

A trajetória profissional de Gilberto começou aos 12 anos, quando, incentivado pelo pai, procurou o primeiro emprego. A oportunidade surgiu na antiga Rádio Educadora, onde começou a trabalhar como sonoplasta.

Na emissora, reencontrou Samuel de Andrade Canfield, com quem já havia convivido quando ambos eram coroinhas. Foi também no rádio que construiu amizades duradouras, entre elas com Samuel Canfield e Wilson Breyer.

Durante a entrevista ao Jornal O Comércio, recordou os tempos em que a produção dos programas dependia de discos de vinil, gravadores de rolo e equipamentos que exigiam atenção e precisão dos profissionais.

Mais tarde, trabalhou na Rádio União e participou de um episódio marcante da história regional: a enchente de 1983. Na ocasião, prestou trabalho voluntário na Rádio Colmeia, em Porto União, ajudando a manter a emissora em funcionamento durante a emergência que atingiu União da Vitória e Porto União.

“Na época da enchente de 83 eu trabalhei de forma gratuita na Rádio Colmeia”, contou.

A experiência no rádio foi uma escola de comunicação e relacionamento com a comunidade, habilidades que também fizeram parte de sua atuação na advocacia.

O esforço da família para realizar o sonho da formação

Uma das lembranças mais emocionantes compartilhadas por Gilberto na entrevista foi o sacrifício feito pelo pai para que ele pudesse cursar o ensino superior.

Filho de um trabalhador da construção civil, enfrentou dificuldades financeiras para ingressar na faculdade. Depois de algumas tentativas, conseguiu uma vaga no curso de Direito da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), em São Leopoldo, no Rio Grande do Sul.

Para ajudar a custear os estudos, o pai contraiu um empréstimo. Gilberto também precisou encontrar alternativas para permanecer na universidade, contou com a ajuda de amigos e chegou a percorrer a pé o trajeto até a instituição.

Apesar das dificuldades, concluiu a graduação em 1985.

Depois de formado, fez questão de compartilhar com o pai os resultados daquele esforço. Durante aproximadamente 15 anos, levou-o em viagens profissionais para municípios da região, incluindo deslocamentos relacionados ao atendimento de trabalhadores e às atividades da advocacia.

Ao recordar essa experiência, emocionou-se:

“Esse é o orgulho que eu tenho: meu pai fez sacrifício para mim estudar 5 anos, por 15 anos ele viajou comigo!”

Em seguida, resumiu a importância daquele gesto: “Eu dei a oportunidade de ele desfrutar do sacrifício dele.”

A lembrança revelou a importância que atribuía à família e à gratidão por quem o ajudou a realizar o sonho de se tornar advogado.

Uma carreira construída na advocacia

Após concluir o curso de Direito, Gilberto retornou a União da Vitória e iniciou a carreira ao lado do advogado Valdir Gehlen, a quem considerava seu principal mestre na profissão.

O aprendizado ocorreu na rotina dos escritórios, fóruns e audiências, em uma época anterior à digitalização dos processos judiciais. Na entrevista, recordou com bom humor as dificuldades do início da carreira, quando precisou admitir ao colega mais experiente que ainda não sabia preparar um inventário.

A convivência com Gehlen foi decisiva para sua formação prática. Ao reconhecer a importância dessa parceria, afirmou:

“O que eu aprendi, o que eu sei hoje, o que eu desenvolvi foi com o Dr. Valdir Guerios. Jamais na minha vida vou deixar de levar ele comigo.”

(Foto: mídias sociais).

Ao longo dos anos, atuou em milhares de processos, com destaque para o Direito do Trabalho, atendendo trabalhadores e empresas em União da Vitória e em outros municípios. Também prestou serviços jurídicos ao Hospital São Braz e trabalhou em outras áreas do Direito.

Para Gilberto, a atuação do advogado não deveria se restringir à condução de processos ou à obtenção de resultados judiciais. O trabalho também envolvia orientar pessoas e compreender as situações vividas por cada cliente.

Ao recordar o atendimento a uma trabalhadora de General Carneiro, explicou:

“Então significa que você participa da vida das pessoas de uma forma não só para compensar ou receber o que não é devido, mas para orientar.”

A declaração sintetizava a compreensão que desenvolveu sobre a responsabilidade social da advocacia.

À frente da OAB, defendeu melhorias para a Justiça

Gilberto Tadeu Dombroski presidiu a subseção da OAB de União da Vitória por dois mandatos consecutivos, nas gestões 2004/2006 e 2007/2009. Segundo relatou ao Jornal O Comércio, venceu a primeira eleição por uma diferença de apenas três votos.

Ao assumir a presidência, trabalhou para melhorar a estrutura da sede, ampliar os recursos disponíveis aos advogados e fortalecer a representação institucional da Ordem.

Durante sua gestão, também acompanhou situações que afetaram a comunidade, como os prejuízos provocados pelo forte temporal de granizo registrado em 2004, quando buscou medidas de apoio aos advogados atingidos.

(Foto: mídias sociais).

Uma das principais pautas de sua atuação foi o fortalecimento da estrutura do Poder Judiciário na comarca. Diante do volume de processos e das dificuldades enfrentadas pelos profissionais, participou de reuniões e viagens a Curitiba para apresentar reivindicações a representantes do Tribunal de Justiça do Paraná.

Entre as demandas estavam a elevação da comarca à entrância final e a ampliação da estrutura judicial local.

Ao recordar as mobilizações, fez questão de atribuir os resultados ao trabalho conjunto de advogados e instituições.

“Eu sempre digo: a OAB fez o trabalho”, destacou.

Depois de deixar a presidência da subseção, continuou na estrutura da Ordem como conselheiro estadual da OAB Paraná por três gestões, entre 2010 e 2018, conforme informações divulgadas pela entidade. No início de 2018, voltou a se dedicar exclusivamente à advocacia.

Gilberto defendia que a OAB deveria atuar não apenas na proteção das prerrogativas profissionais, mas também no apoio à sociedade, especialmente em momentos de dificuldade e em situações de emergência.

OAB divulga nota de pesar

Em manifestação divulgada nesta quinta-feira (15), a subseção da OAB de União da Vitória expressou pesar pela morte de Gilberto e destacou sua dedicação à advocacia e à instituição.

A entidade ressaltou a atuação do advogado durante os dois mandatos na presidência da subseção e sua participação no Conselho Seccional da OAB Paraná por três gestões.

“Sua atuação e seu compromisso com a advocacia deixam uma contribuição importante para a história da nossa instituição e para todos aqueles que compartilham dos ideais da Ordem”, afirma o comunicado.

Na nota, a OAB também manifestou solidariedade aos familiares, amigos e colegas de profissão, desejando força e conforto a todos que sentem sua partida.

Ao concluir a homenagem, a instituição destacou a permanência de sua contribuição para a advocacia regional.

“Seu legado permanecerá na história da nossa instituição e na memória da advocacia”, registra a nota, assinada pela Ordem dos Advogados do Brasil – Subseção de União da Vitória.

Ética e responsabilidade como princípios da profissão

Ao longo da carreira, Gilberto acompanhou as transformações da advocacia, desde os processos elaborados em máquinas de escrever até a adoção de sistemas digitais.

Apesar das mudanças tecnológicas, considerava que os princípios fundamentais da profissão deveriam permanecer. Questionado pelo jornalista Rafael sobre o conselho que daria a um jovem estudante de Direito, respondeu:

“Primeira coisa: ética e moral.”

Na entrevista, ressaltou a importância do estudo, do conhecimento da legislação, do respeito às provas e da honestidade no relacionamento com os clientes.

A orientação refletia sua experiência de décadas na profissão e a responsabilidade que atribuía ao advogado ao receber a confiança de alguém para defender seus direitos.

As amizades, a família e as histórias de uma vida

Além da atuação profissional, a entrevista revelou um homem que gostava de recordar acontecimentos e compartilhar experiências. Gilberto mencionou colegas do rádio, amigos, professores, juízes e episódios vividos ao longo da carreira.

Entre as lembranças, falou com carinho do pai, das amizades construídas durante a juventude e das pessoas que contribuíram para sua formação. Também mencionou as irmãs, ligadas ao trabalho voluntário da Casa de Apoio Amor Fraterno, e demonstrou orgulho do filho, Neto.

Ao avaliar a própria trajetória, declarou ao jornalista Rafael: “Então sou uma pessoa realizada, Rafael”.

Nos últimos tempos, conforme relatou na entrevista, estava mais afastado das atividades profissionais por questões de saúde. Ainda assim, demonstrava interesse pela advocacia, pela atuação institucional da OAB e pelos rumos da Justiça brasileira.

Ao falar sobre as mudanças que acompanhou na estrutura da entidade, afirmou sentir satisfação ao ver os avanços alcançados: “Fico feliz, porque hoje nós temos uma OAB física compatível com a necessidade dos advogados.”

Na sequência, reconheceu a contribuição dos profissionais que deram continuidade ao trabalho.

Velório será realizado em União da Vitória

Conforme informado na nota de pesar da OAB, o velório de Gilberto Tadeu Dombroski terá início no final da tarde desta quinta-feira (15), no Velatório Santa Bárbara, em União da Vitória. O sepultamento está previsto para ás 11 horas dessa sexta-feira, 16, no Cemitério de União da Vitória.

A entidade encerrou a manifestação reiterando solidariedade aos familiares, amigos e colegas de profissão neste momento de despedida.

Um registro da história regional

Durante a entrevista ao Jornal O Comércio, Gilberto refletiu sobre a passagem do tempo e a importância de transmitir experiências às novas gerações. Ao comentar que, com a idade, havia chegado o momento de compartilhar suas vivências, resumiu: “Eu já conto história”.

A frase ganha novo significado com sua morte. Ao longo da vida, ele participou de diferentes momentos da história regional, desde os primeiros anos de sua trajetória no rádio até o trabalho voluntário durante a enchente de 1983, passando pela atuação na advocacia e pelas mobilizações em defesa do fortalecimento da Justiça em União da Vitória.

Sua participação na OAB também esteve ligada à construção coletiva da entidade e à busca por melhores condições para o exercício profissional na comarca.

A entrevista concedida ao Jornal O Comércio preserva parte dessas experiências em suas próprias palavras, reunindo lembranças pessoais, passagens da história da advocacia e relatos sobre pessoas que marcaram sua trajetória.

Com a despedida de Gilberto Tadeu Dombroski, União da Vitória perde um profissional que dedicou décadas ao Direito e manteve vínculos com diferentes setores da comunidade. Suas memórias permanecem registradas no relato de uma vida marcada pelo trabalho, pelas amizades, pela família e pela participação na história do Vale do Iguaçu.