Do solo à mesa: técnica de remineralização traz mais saúde para alimentos
Foi pensando no bem estar da filha que o agricultor Rubens Bortolon optou por produzir alimentos orgânicos e mais nutritivos. Para auxiliá-lo na tarefa, optou pela remineralização. O processo consiste na utilização de rochas moídas para repor os nutrientes perdidos pelo solo ao longo dos anos. Os resultados foram satisfatórios, e o produtor se prepara para recorrer à técnica pela 10ª safra consecutiva.
“Nossa intenção é ter um solo saudável”, relata o agricultor, que destaca a importância de recuperar o solo, muitas vezes desgastado, seja pela erosão, perda de matéria orgânica, compactação ou uso de agentes químicos. Atualmente, Rubens aposta na remineralização para repor os nutrientes do solo em sua propriedade, o que, segundo ele, aumentou a qualidade da sua produção. “É primário isso. Se você não fizer essa recomposição você vai depender de produtos químicos que não condizem com a nossa condição de produtor orgânico”, completa.
Como funciona a remineralização?
O remineralizador foi aprovado como um insumo destinado à agricultura em 2013, e regulamentado em 2016 pela Instrução Normativa Nº 5. No processo, são utilizadas rochas moídas em partículas pequenas que, ao serem espalhadas no solo, têm seus minerais dissolvidos por microrganismos e plantas. Na prática, pode-se dizer que é uma fertilização com pedras.
O pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Éder Martins, explica que a prática de remineralização para fertilização do solo é benéfica, entre outros fatores, por utilizar materiais presentes em abundância próximo de áreas agrícolas. Na região do Vale do Iguaçu, por exemplo, destaca-se o basalto. Além disso, a remineralização melhora o solo no ponto de vista químico, físico e biológico. “Isso é muito importante para a saúde do solo, das plantas e de quem se alimenta das plantas, incluindo nós, humanos”.
Atualmente, o calcário é a rocha mais utilizada nas produções, para melhorar os níveis de PH do solo e fornecer nutrientes como cálcio e magnésio, elementos que formam o calcário. Rochas como o basalto, podem fornecer as mesmas propriedades, ofertando, além disso, outros elementos capazes, inclusive, de retirar o alumínio tóxico presente no solo.
Isso quer dizer que a remineralização é um substituto definitivo para o calcário? A resposta dependerá da necessidade do solo do produtor. Éder indica que ambas as técnicas podem ser utilizadas em conjunto, mas que, em alguns casos, o basalto sozinho é suficiente para uma boa fertilização. “Tudo depende de como está o seu solo, como está o manejo, qual a demanda de calagem, mas é totalmente possível usar exclusivamente o basalto”.
Segundo o pesquisador, o Brasil é o primeiro país a utilizar a remineralização em grande escala. E a técnica tem avançado com a expansão do registro de produtos. Em 2017, pouco tempo após a regulamentação pelo Ministério da Agricultura, dois produtos foram registrados. Hoje, já há mais de 75 aptos para uso, e a expectativa é que o número aumente ainda mais. “Estamos ainda no início, porque podemos ter 500 produtos desses registrados sem precisar abrir uma mina, porque já existem minas, têm rochas com aplicação para outras finalidades, e delas, 90% delas têm potencial para gerar o remineralizador”, comenta Éder.
Uma das grandes vantagens da remineralização, de acordo com Éder, é a abundância de fontes de extração, tanto em solo brasileiro como em outros países e continentes. Além disso, o pesquisador lembra que muitos dos insumos utilizados atualmente são encontrados em poucos lugares, e já possuem estoques limitados, como no caso do fósforo, com reservas que devem se esgotar em cerca de 100 anos. Apostar na remineralização seria uma solução para abrir mão da dependência de fontes importadas e escassas. “Muda o conceito. Saímos da carência e vamos para a abundância”.
Mais nutrientes, mais saúde
Ao utilizar rochas ricas em minerais para fertilizar o solo, os nutrientes presentes nesses compostos são absorvidos por plantas, gerando uma cadeia alimentar mais rica. Concomitantemente, ao nos alimentarmos de produtos mais nutritivos, podemos, muitas vezes, abrir mão de suplementações. “É bom saber que temos como sair da dependência da farmácia e tirarmos os nutrientes no próprio alimento”, comenta a vice-prefeita de Porto União e empresária do ramo na mineração, Suelen Geremia.
Tal opinião é compartilhada pelo professor e pesquisador Bernardo Knapik, autor do livro “Rochagem – pensamentos, experiências e perspectivas para uma agricultura sustentável”, que aborda o uso da remineralização. Filho de produtores rurais, Bernardo recorda que, desde pequeno, percebeu que as terras em que a família produzia eram mais férteis nas áreas ricas em basalto. Tal constatação o fez estudar o caso durante anos.
Para o professor, a difusão da remineralização no Brasil passa por uma mudança de paradigmas. “O problema é que estamos há mais de 50 anos acostumados a um pacote e o agricultor não precisa pensar, só precisa pagar”.
Bernardo é firme em sua visão de que a remineralização é essencial para garantir que produtores forneçam um alimento mais saudável à população. “Se conseguirmos convencê-los de que assim o alimento vai ser muito mais saudável, mais completo, vamos conseguir reverter um pouco toda essa parafernalha de suplementos, farmácias e doenças crônicas. Mas isso é um processo que precisa ser mais visível e agressivo para que todos comecem a fazer. Eu não sei se podemos valorizar tanto a nossa vida ou não. Ou vamos tocando assim e morremos mais cedo e ponto final”.
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