El Niño é certeza, mas previsão de desastre é precipitada
O El Niño, fenômeno recorrente, deve começar a causar efeitos no clima da região sul já no inverno. Segundo informações apresentadas no 241º Fórum Climático Catarinense, que reuniu meteorologistas e pesquisadores da Secretaria da Proteção e Defesa Civil de SC, da Epagri/Ciram, do AlertaBlu, do IFSC e da UFSC, a formação do fenômeno entre o inverno e a primavera deste ano já é consenso, com mais de 80% de chance de se estabelecer no trimestre de junho, julho e agosto.
O fenômeno é caracterizado pela elevação anormal da temperatura das águas do Oceano Pacífico na região próxima à linha do Equador. Quando formado, o El Niño altera o regime de chuvas no Brasil, aumentando a incidência de precipitação na região sul.
Climatologistas independentes têm apontado a possibilidade de volumes de chuva que se assemelham ao padrão registrado em 1982 e 1983. Porém, o secretário de estado da proteção e defesa civil e comandante-geral do Corpo de Bombeiros Militar de Santa Catarina, coronel Fabiano de Souza, alerta que é impossível afirmar quais serão os efeitos da precipitação prevista para o período em que o El Niño estiver presente. “O que a gente pode afirmar é que em períodos de El Niño o volume de chuva registrado é maior. Daí a gente ter, nesse momento, a afirmação de que teremos um desastre ou um desastre de grande proporção, ainda que essa possibilidade exista, esse não é o caminho”.
A declaração foi dada durante a Coletiva ACAERT, realizada na quarta-feira, 13. Na oportunidade, o secretário destacou que o El Niño não é um sinônimo de desastre. Segundo ele, o fenômeno altera sim o volume de chuva, trazendo precipitações acima da média histórica. Mas o que determina se haverá riscos, como enchentes, é a concentração da precipitação.
Ou seja, o volume de chuva deve ser maior do que a média histórica, mas, neste momento, de acordo com o secretário, é impossível afirmar que todo o acumulado previsto atingirá as regiões em um curto espaço de tempo, algo considerado necessário para causas maiores problemas. “Um fator preponderante é a concentração dessa chuva. Se ela for acima, dentro ou abaixo da média histórica, se ela precipitar em pouco tempo, seja 24h ou 48h, independentemente de a gente estar vivendo um El Niño ou La Niña, a gente vai ter problema por conta do volume e da precipitação da chuva. Nesse momento o que a gente pode dizer com muita certeza é que toda a tendência é para a caracterização de um El Niño. Os cientistas apontam para um El Niño de forte intensidade, talvez batendo recordes históricos, e com isso podemos afirmar que teremos chuvas acima da média. Mas dizermos neste momento que teremos desastre de média ou grande proporção é precipitado. A gente precisa fazer o acompanhamento meteorológico. Dizer se as condições, quando essa precipitação ocorrer, são adequadas para causar um desastre, só mais próximo do evento. É importante que todos estejam preparados porque chuva acima da média é um indicativo de problema”.
Na mesma coletiva, o coordenador de Monitoramento e Alerta Defesa Civil, Frederico Rudorff, relatou que, neste momento, a probabilidade do El Niño atingir o nível muito forte é de 25%. Ele também reforçou a ideia de que a presença do fenômeno não é um indicativo concreto de desastres, citando o caso dos anos 1997 e 1998, em que havia um forte El Niño, mas que não causou grandes impactos no estado.
Impactos no clima
Em coletiva de imprensa realizada na quarta-feira, 13, o meteorologista do Sistema de Tecnologia e Monitoramento Ambiental do Paraná (Simepar), Reinaldo Kneib, explicou que neste ano devemos ter um inverno mais chuvoso, porém menos frio do que o registrado no ano passado, por exemplo.
A primavera, que segundo ele já é uma estação com maior incidência de precipitação, deve ter um impacto do El Niño no volume de chuvas. “Chuvas serão mais frequentes, mais persistentes, com vários dias consecutivos com precipitação. Associado a isso, a temperatura também pode ficar mais elevada. Nos períodos mais secos a possibilidade é que tenhamos alguma onda de calor ou vários dias consecutivos de temperatura elevada. As madrugadas não serão tão geladas. No verão, por exemplo, o desconforto pode aumentar”, comentou.
O maior volume de chuva, ao contrário do que parece, pode, no início do El Niño, ajudar o estado, de acordo com o meteorologista. “Neste momento, o início do fenômeno vai ser benéfico porque ele vai trazer a umidade que está faltando no solo. Depois nós vamos acompanhar para ver a evolução e os impactos em cada região”.
Na coletiva, ele informou que é impossível determinar com exatidão quais serão as áreas mais afetadas pelo fenômeno, mas que, historicamente, a porção oeste do sul do país é a mais atingida pelo El Niño. “Estatisticamente falando, as regiões oeste, sudoeste, metade sul são as que geralmente, olhando a maioria dos El Niño, acabam sendo mais influenciadas por um tempo mais chuvoso, por períodos mais severos. Assim como no norte da Argentina, oeste de Santa Catarina. Então essa faixa oeste do sul do país geralmente é a que é mais impactada”.
Apesar de não ser possível afirmar que o fenômeno trará efeitos negativos, o secretário do desenvolvimento sustentável do Paraná, Everton Souza, relatou que o estado está apto a lidar com qualquer adversidade. “A gente tem que reforçar a preocupação de estarmos preparados para todas as condições climáticas que estão por vir. É neste sentido que nós temos trabalhado. Reforçando bastante a questão da previsão, com o Monitora Paraná, que vai adquirir radares, para que nós possamos fazer a previsão da melhor forma possível. E, diante da previsão, orientar a população no sentido de se precaver em determinadas situações”
Em União da Vitória
Com previsão de impacto nas condições atmosféricas ao longo do inverno de 2026, a Defesa Civil do Paraná também tem atuado na orientação das prefeituras, com ações preventivas, treinamentos e simulações, além da disponibilidade de recursos.
Em União da Vitória, a administração tem se preparado tanto para possíveis adversidades relacionadas ao El Niño, quanto para outros fenômenos. “Independente das previsões, nós sempre tomamos atitudes, desde que assumimos a prefeitura, de prevenção. É dessa forma que se deve atingir e atuar. É importante a preocupação dos vereadores e de toda a população, mas o Executivo está atento. É importante tranquilizar a população. Nós estamos muito bem preparados para enfrentar qualquer intempérie climática, ou seja, não são só as enchentes, mas também os vendavais, eventualmente as chuvas de granizo, enfim, todos os possíveis eventos climáticos que possam ocorrer”, comenta o prefeito Ary Carneiro.
Pensando nisso, a Defesa Civil de União da Vitória realizou, nos últimos meses, a revisão e atualização do Plano de Contingência para situações de emergência.
A reportagem de O Comércio teve, também, acesso ao plano de contingência para enchentes estruturado pela prefeitura. De acordo com o documento, o plano é ativado quando o Iguaçu atinge o nível crítico de 5 metros e 50 centímetros.
Segundo o plano, a prefeitura aumentou o número de abrigos públicos, passando de dois para 18. Para isso, serão utilizadas as associações de moradores dos bairros. A capacidade de atendimento será para mais de 2.500 pessoas. Cada abrigo contará com uma cozinha comunitária e terão divisões internas para separar famílias e dar mais privacidade aos alojados.
Cada associação também contará com um espaço para pets, e está planejado um abrigo público específico para animais abandonados. Os centros de distribuição de doações serão descentralizados, e cada Centro de Referência de Assistência Social (Cras) atuará como um ponto de distribuição.
“Nesse momento União da Vitória se encontra preparada. Existe todo um planejamento que foi organizado com a integração entre as secretarias desde janeiro do ano passado, tudo sob a coordenação da Defesa Civil do município. Esse planejamento, a organização e a integração entre as secretarias estão norteadas com reuniões durante o ano. Nós aprendemos com as enchentes anteriores e construímos um plano pensando em cuidar das pessoas com muita dignidade, rapidez e segurança. (…) O mais importante nesse momento que nós estamos vivendo é que são previsões. É preciso manter a calma, acompanhar apenas as informações oficiais. Hoje em dia a gente sabe que as redes sociais muitas vezes disseminam informações alarmistas que não devem ocorrer. As pessoas devem acompanhar as informações oficiais, ou seja, do município, do Estado, governo federal que se pode ter a certeza de que existe uma estrutura toda preparada para atender a população. União da Vitória tem todo um plano de contingência organizado. A gente está extremamente atento. E volto a salientar, essa equipe nossa junto à Defesa Civil faz monitoramentos diários. Fenômeno climático é algo que ocorre a qualquer instante, agora o alarme exagerado leva as pessoas a perder a tranquilidade”, ressalta o prefeito.
*Com informações da Agência Catarinense de Notícias e AEN-PR





