Crônica: Capachos

Ajudar o próximo é, sem dúvida, uma das mais importantes ações sociais. Podemos pensar até que, talvez, o mundo fosse mais triste e difícil sem a solidariedade, sem o auxílio e sem a gentileza, para não falarmos do favor, que está na raiz do denominado “homem cordial” e do jeitinho brasileiro, a lembrar Sérgio Buarque de Holanda. Seja por altruísmo ou por narcisismo, não importa, ajudar é sempre uma boa coisa. Foi com essa animosidade de espírito que naquela noite chuvosa e fria resolvi ajudar a pessoa que mora no apartamento 367. Mal sabia eu, no entanto, da comédia humana e da crônica em que eu me meteria com isso. Vamos lá.

Crônica: Capachos

Foto: Freepik

Viver num condomínio com 422 apartamentos é uma experiência antropológica. Tem de tudo e mais um pouco, como dizem. São tantos corredores e labirintos que o fato de sair da portaria e chegar em casa pode ser melhor definido como uma saga. Nesta cidade privada, reservar a churrasqueira para assar uma carne no domingo equivale a ganhar na Mega Sena, ir à piscina é o mesmo que ir à praia em Balneário Camboriú na alta temporada e, porque não dizer, a eleição para síndico bem mereceria intervenção da Justiça Eleitoral. É tanta gente junta e misturada que fiquei sabendo, ao acaso, ter a vizinha do 215 aberto uma empresa de marmitas, exclusivamente para entregas dentro do condomínio. Faturava muito, trocou de carro e já fazia planos de migrar para a cobertura. Até aí tudo bem, só ficou ruim quando descobriram que ela cobrava também uma obscura taxa de entrega por motoboy. A empresa faliu e, com medo de algum confronto com outros moradores, ela agora evita as áreas comuns, o que equivale a não sair de casa e a pedir tudo pelo sistema delivery, ironicamente a ser entregue por um motoboy. Vida que segue.

Outro dia acabei por me perder no condomínio. Errei a prumada e fui parar num corredor muito igual a todos os outros, com portas de formas e cores obrigatoriamente idênticas. Só descobri onde estava por força de um detalhe muito peculiar, que na cartografia desse espaço geográfico padronizado é um elemento fundamental tanto para orientação quando para evitar erros: os capachos de porta. Resolvi, no acaso, dedicar-lhes certa atenção.

Foi assim que compreendi de imediato que talvez sejam eles os mais maltratados componentes das nossas casas, aos quais não damos sequer a dignidade de serem chamados de tapetes e, menos ainda, aos quais nunca fazemos um singelo convite para entrar e partilhar um pouco da residência junto aos seus congêneres, seja nos banheiros, na sala, nos quartos ou na cozinha. Muito ao contrário, ficou evidente que é justamente nos piores dias, de chuva e de frio, que os capachos nos servem mais a contento, a sofrer com as pancadas e com os arrasta-pés que sobre eles fazemos antes de entrarmos e nos aquecermos no conforto dos nossos lares, deixando-os sujos e para trás tão logo tirem a água e a sujeiras das nossas botinas.

Mas, ultrapassada essa reflexão ontológica inicial, pareceu-me evidente outra característica deles, muito mais voltada ao campo do simbólico do que ao funcionalista. É que eles são, em verdade, um cartão de visitas de nós mesmos, uma espécie de nano-currículo da nossa comédia humana caseira. Digo isso porque percebi que o morador do 413, que é um senhor bruto, marrento, de cara fechada, que quase nunca cumprimenta as pessoas e do tipo que faz as crianças se gelarem até nos ossos quando passa por elas, tem um capacho no qual está escrito “a vida é leve e bela como a luz do sol ao amanhecer”. Não sei da real história dele mas, desde que vi o seu capacho, a lenda de que ele lutou no Afeganistão ao lado dos americanos, perdeu amigos e viu a morte de perto ficou muito mais duvidosa. De porta em porta, naquela tarde, fui construindo por amostragem uma etnografia condominial muito interessante. Encontrei curiosidades e criatividades como um capacho que dizia “Aqui moram dois gatos. Um deles é persa”, outro que estampava a gatinha Kitty, com um bigodão, seguido da expressão “Hello Nietzche”. Havia também os tradicionais “Aqui vive uma família feliz” e “Deixe seus problemas para fora”, os religiosos “Tudo posso naquele que me fortalece” e “Os humilhados serão exaltados”, além dos musicais, dos ousados, dos eróticos, dos patriotas e, estranhamente, um do Itaú. Encontrei, claro, os que nada diziam e acabei primeiro concluindo que esses eram os de gente sem graça para, logo em seguida, chatear-me ao lembrar que o da minha casa é também sem dizeres. Triste foi, porém, onde nenhum capacho encontrei.

Aí que está. No mesmo dia, quando passava pela portaria central, deparei-me com a pessoa que mora no 367. Carregava ela várias sacolas de supermercado e uma bandeja com ovos. Lembrei da solidariedade humana e das boas energias que, aqui ou no além, tais gestos podem trazer. Solícito, ofereci-me para ajudá-la a carregar algumas das sacolas. Notei, entre as que peguei, muitos quilos de arroz e feijão, mas também algumas latas de cerveja, energéticos e uma vodka. Interessante – pensei. Ao longo do caminho até o último bloco, onde ela mora, conversamos e ela me perguntou se estava tudo bem comigo e se eu me sentia sozinho naquele dia. Disse-me, também, que morava sozinha, mas que gostava de receber visitas. Poderíamos pedir uma pizza, sugeriu-me. Reconheci-me numa situação absurdamente hilária e constrangedora e, enquanto pensava numa solução, chegamos enfim à porta do apartamento. Foi nessa hora que vi, para minha salvação, o capacho rosa choque, no qual estava escrito em dourado algo como “Nessa casa a temperatura é quente”. Fiz uma cara de espanto e disse-lhe que, diferentemente do dela, no meu capacho não tinha nada escrito. Sem graça, muito sem graça! Replicou-me em tom de voz elevado, enquanto pegava as sacolas, agradecia-me e fechava a porta na minha cara. Já em casa, depois do jantar, minha esposa me perguntou a razão pela qual eu estava com o pensamento tão longe. Sem explicar, disse-lhe que naquela tarde passara a entender ainda mais o condomínio onde moramos e, por vários motivos, adorava o nosso capacho da porta. Ela nada entendeu sobre essa deferência tão peculiar… e achou ainda mais estranho quando, antes de dormir, viu que o recolhi para passar a noite dentro de casa.

Fernando Perazzoli é professor e Advogado, tendo atuado por mais de dez anos no ensino superior em União da Vitória e Porto União. Além disso, lecionou na Universidade Federal de Santa Catarina, na Universidade de Coimbra (PT) e na Universidade de Mumbai (Índia). Foi consultor da Fundação Oswaldo Cruz (RJ e DF). Exerceu os o cargo de Diretor Municipal no Poder Executivo de União da Vitória, de Coordenador Jurídico na Secretaria de Atenção Especializada do Ministério da Saúde, em Brasília e de de Assistente para Probidade Adminsitrativa e Curatela do Patrimônio Público junto Ministério Público do Estado de Goiás. Atualmente é Professor de Direito Constitucional da UNIEURO (Brasília) e consultor para o FNDE. Contato: perazzoli@gmail.com/@‌fernandodavidperazzoli.

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