Crônica: Deixados para trás
Quinta-feira é dia dos hortifrutis no supermercado. Tudo pela metade do preço e, como de costume, lá fui eu para mais uma manhã ensolarada a selecionar abobrinhas e chuchus. Falo de deixados para trás não porque abreviei o hortifruti a ponto de cortar o “granjeiros” do nome. Nada disso. É que na noite que antecedeu a expedição ao supermercado eu havia maratonado pela terceira vez a primeira temporada da belíssima série da HBO chamada “The Leftovers” ou, em tradução livre, algo como “sobras” ou “deixados para trás”. Agora, o que é que ela tem a ver com o supermercado e seus nabos, bananas e pimentões em promoção?

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É que o supermercado é o lugar por excelência das escolhas ou, melhor dizendo, de deixar coisas para trás. Nenhum outro reproduz tanto e de forma tão ampla a impossibilidade econômica de se comprar tudo, naquilo que os doutos chamam de “trade-off”. Claro, a vida é repleta de tais lugares que nos obrigam a escolher, mas o supermercado, penso eu, é muito mais democrático para esta crônica, até porque é no rés de chão da vida que somos forçados a decidir se levamos o café ou a margarina, nunca os dois, porque o dinheiro não dá pra tanto – quem nunca, não é?
Conto a cena que vivi para que o raciocínio vá adiante. O relógio marcava oito da manhã e eu já estava na boca do caixa. Quem busca hortifrutis em dia de promoção sabe bem que não se pode tardar na feitura das compras, sob pena de se encontrar apenas sabugos desdentados, bananas inaceitáveis e cebolinhas com cifose juvenil. Fui cedo. Escolhi a dedo. Estava feliz. Comprei até uma pitaia, sem saber muito a razão para tal, até mesmo porque eu não sei ao certo o que é uma pitaia.
Fato é que ali, prestes a passar as compras pelo caixa, reparei que ao meu lado havia uma geladeira de refrigerantes e, sobre ela, uma cesta com produtos que as pessoas deixavam para trás. Senti-me na série televisiva e, atônito, percebi que em plena 08:30 da manhã já haviam sido refugados 1 pacote de café descafeinado, uma laranja, um ketchup, um fermento Royal, uma caixa de cervejas em lata, um pote de margarina, um detergente e, de forma impressionante, um ventilador, uma pequena garrafa térmica e um óleo para motores de veículos.
Fiquei a olhar tais produtos e a imaginar que pessoas eram aquelas que haviam passado por ali antes de mim para, nos seus cálculos enquanto consumidores, terem deixado para trás, no derradeiro momento, produtos tão peculiares. Claro que em relação ao café descafeinado é fácil de se entender, afinal tão cedo assim o melhor é que se aposte em outro com cafeína, por lógica. O processo decisório é um pouco mais difícil de ser imaginado quando se trata do fermento pó Royal: teria a pessoa desistido de fazer um bolo para alguém que iria logo acordar? Talvez sim e a própria margarina poderia ter sido fruto do mesmo desatino, pois se a pessoa que ainda dormia não era digna de um bolo quentinho quando acordasse, então não seria a margarina a salvar tal relacionamento. O Ketchup, a minigarrafa térmica e o detergente podem ter sido deixados em razão de um “achei que precisava” mas lembrei que “já tenho”. Os três, vamos combinar, são imprescindíveis e ninguém os abandonaria sem mais nem menos, a qualquer hora do dia ou da noite.
Mais a fundo, pensei muito naquela caixa de cerveja. Talvez tenha sido um alcoólatra que, ali e de súbito, decidiu parar de beber ou, ainda, um outro alguém que resolveu não começar. De qualquer sorte, é fácil desistir de uma caixa de cerveja às 08:30 da manhã, especialmente quando supostamente se está cercado por pessoas armadas com alhos-porós e dispostas a qualquer coisa para provar que o mundo pode ser muito cruel com quem ousar comprar álcool tão cedo no dia.
Cheguei então ao tártaro dos pensamentos e nele tive que dar conta do ventilador e do óleo automotivo. Fiquei a pensar: que engano, meu Deus, que engano! Quem, em sã consciência, errou ao pegar na prateleira um ventilador e um óleo? Não há possibilidade alguma de isso ter caído no carrinho. Qual foi o desatino da criatura que pensou: eu queria berinjela, acordei cedo para isso, nem tomei café da manhã, fui o primeiro a chegar nos hortifrutis, mas agora, olhando assim para o ventilador, acho que é isso que eu quero?! Não, não é possível… o mesmo se passa com o óleo automotivo. Que epifania ou visão mística teve essa pessoa para em plena manhã de hortifrutis achar que era uma boa ideia comprar um óleo para motor? Mais que isso, porém, o que as teria feito desistir na última hora? Uma crise de consciência, a falta de dinheiro ou a intervenção divina? Sabe-se lá.
E foi assim que, tomado pela reflexão, acordei da quimera filosófica com um nada educado chamamento feito pela funcionária do supermercado, a qual me perguntava se eu iria levar algo ou só ficar olhando. Passei tudo rapidinho, aos atropelos, sobrepondo nas sacolas os pesados melões às delicadas uvas e misturando rúculas com agriões para nunca mais conseguir separá-los. Paguei a conta e voltei para casa. Enquanto guardava as coisas na geladeira percebi então a falta da Pitaia. Sim, eu a havia deixado para trás e ela certamente estava à mostra sob uma geladeira de refrigerantes, entre um ventilador e um óleo de motor, junto a um Ketchup e a um fermento pó Royal de um amor já acabado. Ela era então mais um produto entre aqueles deixados para trás, tão sem explicação quanto a primeira temporada da série da HBO que eu maratonara durante a noite e que acabou por me levar aos pensamentos. É bem provável que lá no mercado um outro de mim tenha parado diante daquela cena idílica à boca do caixa e se perguntado com indignação: mas quem é que compra Pitaia às 08:30 da manhã meu Deus do Céu? Aliás, quem é que compra Pitaia?

Fernando Perazzoli é professor e Advogado, tendo atuado por mais de dez anos no ensino superior em União da Vitória e Porto União. Além disso, lecionou na Universidade Federal de Santa Catarina, na Universidade de Coimbra (PT) e na Universidade de Mumbai (Índia). Foi consultor da Fundação Oswaldo Cruz (RJ e DF). Exerceu os o cargo de Diretor Municipal no Poder Executivo de União da Vitória, de Coordenador Jurídico na Secretaria de Atenção Especializada do Ministério da Saúde, em Brasília e de de Assistente para Probidade Adminsitrativa e Curatela do Patrimônio Público junto Ministério Público do Estado de Goiás. Atualmente é Professor de Direito Constitucional da UNIEURO (Brasília) e e Consultor para o FNDE. Contato: perazzoli@gmail.com/@fernandodavidperazzoli.


