CRÔNICA: Dom Natural, lado B
As pessoas geralmente acham que é sorte o fato de eu sempre, absolutamente sempre, encontrar uma boa vaga de estacionamento. Não importa onde nem quando, eu sempre tenho um bom lugar reservado para meu carro. Muitas vezes ela não aparece na primeira volta, há um certo suspense no ar, como se todos já tivessem ocupado todas as vagas e eu tivesse que ir parar em outro sítio. Eis que, de repente, alguém dá sinal e eu ganho um farto espaço para estacionar – do nada, diriam. Passei por momentos de desafios, é claro, oportunidades nas quais a minha própria carona disse que não havia vaga e que todas as outras pessoas passavam pelo mesmo e que não seria eu que encontraria uma vaga. No mesmo instante, porém, alguém saiu e eu estacionei tranquilamente no local. Sorte? Nenhuma. Acaso? Menos ainda. Então o que? É que em situações tais funciona o que eu denomino, consoante minha fajuta e rasteira teoria, de Dom Natural Lado B. Explico.
O que eu sustento é que na mesma rampa de descida que fazemos para nascer humanos na Terra, exatamente quando ganhamos um Dom lado A, ganhamos também um Dom lado B, muito menos artístico, intelectualizado e grandioso que aquele, é verdade, mas ainda assim um Dom. Eu diria que o Dom Lado B é um dom funcional, voltado para as urgências, praticidades e vicissitudes mais comezinhas e necessárias da nossa vida ordinária de cada dia. Descobri este Dom Lado B em mim na minha cidade natal, curiosamente quando frequentava o Centro de Tradições Gaúchas, famoso CTG, para belas e suculentas costeladas. Claro, na festa sempre ia eu e a cidade inteira, pelo que já se pode imaginar que estacionamento lá é algo da ordem do nem pensar. Exceto para mim, que sempre encontro a melhor vaga. Diante disso, comecei a tomar nota da situação. Uma vez, duas vezes, três vezes… sempre! Do CTG fui então fazer observação participante pelas outras empreitadas da minha vida de motorista e, em todas, sempre meu Dom Lado B para achar vagas de estacionamento funcionou perfeitamente. Aos poucos, comecei a abrir a questão com amigos e conhecidos. No começo desconfiaram, mas aos poucos foram também entendendo seus próprios Dons Lado B.
Foi assim que fiquei sabendo que um grande amigo, sempre que termina de colocar os itens no carrinho durante as compras no supermercado, encontra um caixa vago. Eu, ao contrário, passo horas intermináveis na fila para comprar um mísero pacote de leite. Outro amigo contou que com ele nunca, absolutamente nunca, a folha de papel engasga na impressora. Uma amiga muito querida de Curitiba relatou algo curioso e muito funcional: sempre passa por blitz de trânsito sem ser parada, não importa onde e não importa quando. Os exemplos se multiplicam ao infinito, pois a hipótese aqui lançada é a de que todos nós temos nosso Dom lado B. É bem verdade que o Dom lado B é algumas vezes embaraçoso, particular e, não raro, diz respeito às intimidades mais escatológicas possíveis. Compartilho que uma pessoa certa vez me contou que quando sente um aperto e precisa fazer o número 2 em locais públicos sempre, sem erros, encontra um banheiro limpo e desocupado a lhe servir de trono. Achei que foi um comentário do estilo “Too Much Information”, embora tenha sido necessário concluir que ela era em verdade muito sortuda.
Concito-vos, de qualquer forma, a se interrogarem sobre quais seriam vossos próprios e únicos Dons lado B. Aquilo que vos permite sempre fazer bem e de forma natural coisas triviais do dia a dia, que para outras pessoas parece impossível ou que delas demandam um investimento e esforço descomunal. Já parou para analisar que a ponta do lápis talvez nunca tenha quebrado dentro do apontador quando você o apontava? Já reparou que talvez você sempre tenha dividido o elevador apenas com pessoas cheirosas, que você sempre tenha encontrado na loja a numeração exata do calçado que você procura, ou ainda, que talvez nunca o ovo lhe tenha vindo podre? Pois é, esta é a teoria do Dom Natural Lado B, fajutinha e rasteira, bem o sei, mas bastante viva entre nós, a ponto de eu poder tranquilamente lhe perguntar, caso dela duvide, se já parou para perceber, assim, sem maiores preocupações… que há pessoas que de sempre duvidam de tudo. Entendeu?

Fernando Perazzoli é professor e Advogado, tendo atuado por mais de dez anos no ensino superior em União da Vitória e Porto União. Além disso, lecionou na Universidade Federal de Santa Catarina, na Universidade de Coimbra (PT) e na Universidade de Mumbai (Índia). Foi consultor da Fundação Oswaldo Cruz (RJ e DF). Exerceu os o cargo de Diretor Municipal no Poder Executivo de União da Vitória, de Coordenador Jurídico na Secretaria de Atenção Especializada do Ministério da Saúde, em Brasília e de de Assistente para Probidade Adminsitrativa e Curatela do Patrimônio Público junto Ministério Público do Estado de Goiás. Atualmente é Professor de Direito Constitucional da UNIEURO (Brasília) e Consultor para o FNDE. Contato: perazzoli@gmail.com/@fernandodavidperazzoli.
Voltar para matérias


