Crônica: “Doutor Carlos do céu: sem você e sua equipe, eu não seria nada”

A referência adulta que muitas crianças e adolescentes possuem na família nem sempre são as mais positivas. Por mais que quase sempre ainda exista algum afeto na ligação entre filhos com mãe e pai, verificamos nos atendimentos do fórum muitas situações de violência de toda espécie. Algumas chocantes, com práticas de violências de ordem sexual, física, desrespeito, negligência, falta de cuidado, carinho e compreensão, outras que ocorrem pelas condutas cotidianas que refletem muitas vezes o viver de núcleos familiares bastante desajustados.

Crônica: "Doutor Carlos do céu: sem você e sua equipe, eu não seria nada"

Muitos anos atrás, com agenda cheia em município no interior da comarca, parei em um restaurante para almoçar com a equipe, antes de continuar os atendimentos pela tarde. Quando ainda estava na “metade do prato”, chegou à mesa ao lado, um pai com duas crianças, um menino e uma menina. Ele mais velho, cerca de dez anos, a menina não passava de sete ou oito anos. O pai havia feito seu prato bem cheio ao se servir no “buffet”, e ao se arrumar na sua cadeira, dividiu parte da comida nos pratos dos filhos. Pediu ao garçom uma garrafa de cerveja, o que me chamou atenção. “Dia de semana, não são nem 12h00min, e já está bebendo” comentei com o servidor que me acompanhava.

E qual não foi a surpresa, quando após se servir em seguida encheu de cerveja os copos dos filhos. Nosso almoço terminou ali. Chamei o dono do restaurante e pedi para recolher a bebida da mesa. O pai reclamou: “Por que isso? Eles estão acostumados!”. Não chamei a polícia porque a situação poderia tornar ainda mais negativa a experiência para as crianças. Rapidamente, chegou o Conselho Tutelar, que encaminhou a família para atendimento.

O abuso de álcool e outras drogas pelos pais é uma constante em nossos atendimentos de crianças e adolescentes envolvidas em situações de vulnerabilidade, o que causa por consequência a quebra de vínculo e confiança destes com seus familiares. Com a ausência de qualquer referência positiva a sua volta, naturalmente estes criam uma ligação muito forte com aqueles que os escutam, que prestam socorro em momentos de dificuldade.

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Se o juiz além de atender seu “processo” se coloca à disposição para conversar, orientar e acolher, inevitavelmente o mesmo é incluído na sua rotina e passa também a fazer parte dos momentos importante de sua vida, recebendo todo o tipo de “feedback”.

Foi exatamente isso que aconteceu no início desta semana, quando recebi mensagem no whatsapp de uma jovem que atendemos por alguns anos pelos projetos de cidadania do fórum: “Tudo bem Doutor Carlos, como vai? Bom, primeiramente, hoje começa os meus estudos, á Universidade já postou os horários, ás aulas, disciplinas que terei, … é muito bom saber que eu consegui com os meus méritos e agora é uma nova vida, novas histórias e um novo caminho, á princípio gostaria de agradecer a todos vocês do Cejusc que ajudou muito até aqui, obrigada por tudo Doutor!”

Miriam havia parado de estudar, quando procurava trabalho para ajudar a mãe doente. Foi abandonada pelo pai alcoolista ainda pequena. Também passou pela orientação vocacional e preparo para o primeiro emprego, voltou para a escola por incentivo de nosso projeto “Fábrica de Oportunidades”. Agora conseguiu por meio dos programas sociais de governo, o ingresso na universidade e lembrou de me avisar, e agradecer.

As oportunidades que propomos por meio dos projetos trabalham a autonomia e o preparo para a “vida adulta”. Nem sempre atingimos os objetivos traçados. Mas é preciso tentar, repetir novamente, quando a primeira tentativa não funciona, procurar e criar possibilidades para adolescentes e jovens que são abandonados e negligenciados pela própria família e pelo poder público.

Como sempre divulgo meus contatos e incentivo a procura, mensagens chegam todos os dias. Em muitas delas há pedido de trabalho e emprego:

“tenho muitos sonhos para compri, não tive pai mais tenho minha mae e vou dar valor, não vou fase o que meu pai fez a ela abadonando nois”, me relatou um adolescente.

“Sim senhor! Sempre irei me esforçar ao máximo pra poder me formar em psicologia. Espero um dia poder retribuir tudo o que o senhor faz e fez por mim e pela minha família” disse uma adolescente que estava concluindo o ensino médio.

“Boa tarde Dr. Vejo que vc consegue ajudar várias pessoas a tralhar, vc poderia me ajudar?? To morando com o pai, ganho 160 por mês só, e eu não consigo serviço aqui, é muito difícil, vc conseguiria me ajudar?? Pq tá difícil desse jeito…”

“Será que o senhor consegue arrumar um serviço p mim. Eu tenho 17 anos, e por mais que entregue currículo ninguém me contrata. Já fiz até entrevista e nunca consigo.”

Como também chegam os agradecimentos espontâneos, que se revelam depois das primeiras oportunidades que aparecem, os quais são muito tocantes:

“O senhor sabe que amo escrever e que sempre que escrevo pro senhor acabo escrevendo um monte de texto, peço desculpas mas é que começo a lembrar de todos os momentos ruins em que passei e lembro que foi o senhor que me ajudou a se levantar, então eu só tenho a dizer Muito Obrigado Doutor Carlos!!!”

“Estou muito bem. Estou ganhando 2 mil reais. E passei na experiência. Obrigado Doutor. Se não fosse vc e o seu pessoal não taria nesse lugar.”

“Sério. Doutor Carlos do céu. Que boa notícia. Muito obrigado. Não sei como te agradecer. Obrigado. Vou segui em frente.Graças a vc e sua equipe eu não seria nada.”

“Obrigada Doutor. Me senti melhor tendo o seu parecer. Já estava desconfiando da minha própria sombra. Obrigado pela dica e pelo seu tempo gasto aqui comigo.”

E igualmente mostram o tamanho da responsabilidade:

“O projeto Cejusc mudou minha vida, iluminou meus caminhos e me fez sentir capaz de seguir meus sonhos! Eu estou tão feliz, o Brasil (e o mundo) ganha mais uma profissional!” 

“Quero aproveitar a oportunidade e lhe contar que você é especial! Me deu uma oportunidade gigantesca onde ninguém daria a uma menina de 12 anos e vc acreditou que eu seria capaz, quem faz isso? Quem tem um dia cheio de compromissos e ainda dispõe de tempo e paciência pare me ensinar? Por isso e muitas outras coisas que vc é tão especial e merece parabéns todos os dias!”

“Boa tarde doutor Carlos. Tudo bem com o senhor? Gostaria de compartilhar uma grande conquista com o senhor, hoje assinei meu primeiro contrato de trabalho, agora sou funcionária da … Quero agradecer o senhor por sempre ter me incentivado a lugar, a buscar por um futuro, mesmo quando nem eu acreditava mais no meu potencial o senhor continuava acreditando e hoje essa conquista não é só minha, mas do senhor e de toda equi pe. Obrigada. Gratidão!!” 

Ufa!!

A gratidão é toda minha, pela especial oportunidade que o universo me concedeu de poder por meio de meu trabalho, fazendo o que gosto todos os dias, promover socialmente crianças e adolescentes que não tiveram as oportunidades que tive, de ter uma família presente, que me trouxe exemplos positivos e valores, o que me permite pelo exercício da magistratura estender a mão a quem mais precisa.

*o nome aqui utilizado é fictício. As mensagens foram copiadas exatamente como escritas.

Carlos Mattioli é juiz da criança, adolescente, família e cidadania em União da Vitória (PR)

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