CRÔNICA: GALINHA MORTA

Estou atônito, perplexo, travado na surpresa pós-abissal de um paradoxo galináceo-linguístico. Vida vai, vida vem, saímos por aí a dar conta dos nossos afazeres e, quando menos esperamos, ela nos joga sem aviso prévio na insustentável relação entre a ordem biológica dos galiformes e a complexa estrutura da língua portuguesa. Venham comigo, explicar-lhes-ei.

Saibam que hoje fui à feira e que de lá saí com muitas sacolas de frutas, legumes e salames a tiracolo. Comprei um monte de coisas e gastei um bom dinheiro, mas, ainda assim, fui embora de mal com meu amigo feirante, precisamente porque não quis dele comprar duas galinhas inteiras que jurava ter abatido logo antes e especialmente para mim.

Quem vai à feira sabe que amizade com o feirante é uma coisa e compra na feira é outra, bem diferentes entre si. São mundos que não podem se misturar, jamais. Digo isso porque não importam as maçãs que ele dera outrora de presente para minha filha, os pêssegos perfumados com os quais nos presenteou e, menos ainda, os queijos que ele retalhou para degustarmos ao pé do seu balcão de feirante. Nada disso pode ser levado em consideração quando se negocia a aquisição de galinhas recém-decapitadas, assassinadas em frente a melões e jabuticabas enquanto viventes de boa alma se regozijam com provas de doce de leite e goiabada-cascão. Hoje, não poderia ser diferente e eu, já com muitas abobrinhas e quiabos na sacola, simplesmente não cedi aos apelos de marketing improvisado e às insistências capitalistas que aquele senhor tão alegremente me fazia.

Bati o pé e não as comprei, mas, na prática, não foi fácil me desviar do assédio empreendedor e, confesso, quase cedi quando ele disse que para mim, suposto cliente especial, os restos mortais das falecidas penosas sairiam por R$ 50,00, preço esse tão em conta que eu poderia considerar o negócio como — rufem os tambores — “galinha morta”. Foi aí que quase as comprei, pela ironia, não pelo preço, pois por tal valor eu jamais as levarei para casa.

Vida que segue e, quilômetros depois, quando quase chegava em Águas Lindas de Goiás, fui surpreendido por uma placa de beira de estrada que me levou diretamente para outro mundo, totalmente diferente daquele em que estivera horas antes na feira. Se você já viajou de carro deve saber: há pelas estradas e acostamentos barraquinhas nas quais as famílias vendem algumas das suas produções agropecuárias locais. Na de que falo, em especial, havia frutas penduradas, pequis enormes, salames de metro e, para meu espanto, galinhas vivas. De manhã, galinhas guilhotinadas; de tarde, galinhas vivas. Era o cerco das penosas e, ali na BR, uma placa em letras garrafais oferecia-me duas delas ainda vivas pelo preço de R$ 35,00. Mais que isso, porém, dizia também a placa, num arroubo publicitário de fazer a racionalidade torcer até o avesso, que o preço estava tão bom que o negócio era “galinha morta”.

Pelos quilômetros seguintes minha incapacidade de gerir a situação foi só aumentando, a ponto de, inclusive, eu passar por um radar de velocidade acima do limite permitido. A primeira questão subjetiva que se colocou foi: podemos chamar a venda a bom preço de galinhas vivas como um negócio “galinha morta”? Claro, o adjetivo é para o contrato, não para as galinhas, posto que o contrário confundiria a qualquer um: comprar galinhas vivas como mortas e vice-versa. Simplesmente não dá, é incongruente. Pior ainda, consideremos também que o adjetivo é nefasto e, a bem dizer, equivale a uma sentença de morte para as tão vivas galinhas que, logo mais, serão galinhas mortas, literalmente. Melhor mudar a publicidade e, sugiro eu, que se utilize a expressão francesa “prix d’ami”, ou seja, preço de amigo, ao se referir aos bons negócios e às pechinchas que por aí se fazem com as galinhas, vivas ou mortas.

Seria fácil se fosse só isso. As teorias da metáfora, da metonímia e das frases de efeito, bem como os estrangeirismos, fariam seu trabalho de nos explicar as difusas relações entre os sentidos e as coisas, sempre tão escorregadias.
Ocorre que há um outro problema, ainda maior, filosoficamente falando: a galinha morta está valendo mais do que a viva. Ora, vejam só. Quando foi que o defunto valeu mais que o seu antigo ser vivo? Claro que eu sei que entra aí toda a industrialização dos tempos modernos, pela qual é mais fácil, na nossa cozinha, um quilo de peito de frango bem cortadinho do estilo sassami a uma galinha inteira a ser assassinada e depenada na frente das crianças, com aquela sangueira toda a feder pela casa e com a necessidade de darmos destino a tripas e vísceras. A questão não é essa.
É que no tribunal das minúsculas causas filosóficas e subjetivas de hoje deparei-me com o paradoxo de eu ter naturalizado que a galinha viva tem menos valor, para mim, que a galinha morta, além de que, por negócio, a galinha a bom preço virou um zumbi, o qual tanto pode ser uma galinha morta estando morta quanto estando viva, numa espécie tupiniquim do paradoxo do gato de Schrödinger. Sigo pensando nisso e, sem perder o juízo por tais preocupações, aproveito a oportunidade para esperar, atônito, perplexo e travado na surpresa pós abissal de um paradoxo galináceo-linguístico, que a multa que devo ter tomado seja também bem baratinha, que eu a pague durante algum período de promoção feito pelo Governo e, quem sabe, ela saia para mim uma galinha morta.

Fernando Perazzoli é professor e Advogado, tendo atuado por mais de dez anos no ensino superior em União da Vitória e Porto União. Além disso, lecionou na Universidade Federal de Santa Catarina, na Universidade de Coimbra (PT) e na Universidade de Mumbai (Índia). Foi consultor da Fundação Oswaldo Cruz (RJ e DF). Exerceu os o cargo de Diretor Municipal no Poder Executivo de União da Vitória, de Coordenador Jurídico na Secretaria de Atenção Especializada do Ministério da Saúde, em Brasília e de de Assistente para Probidade Adminsitrativa e Curatela do Patrimônio Público junto Ministério Público do Estado de Goiás. Atualmente é Professor de Direito Constitucional da UNIEURO (Brasília) e e Consultor para o FNDE. Contato: perazzoli@gmail.com/@‌fernandodavidperazzoli.

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