CRÔNICA: Ginástica artística

O ouro de Rebeca Andrade nos jogos olímpicos saiu-me caro. Não o soube de primeira e, se o soubesse, talvez tivesse tido mais cuidado ao utilizar o nome da maior ginasta brasileira de todos os tempos para incentivar minha filha a comer comida decente. Sim, funciona e indico, com moderação. Não quer comer brócolis? Pois é… a Rebeca Andrade come. Quer trocar o feijão com arroz por um biscoito? Então, deixa eu te contar uma coisa minha filha, a Rebeca Andrade chegou aonde chegou porque sempre focou no feijão com arroz. E por aí vai.]

CRÔNICA: Ginástica artística

Foto: Luiza Moraes/COB/Direitos Reservados

Eu não sei se isso é verdade, talvez um dia a própria Rebeca possa me dizer que come, sim, biscoitos recheados vez ou outra no lugar do feijão com arroz. Mas a Rebeca de que falo não é a humana, de carne e osso, e sim aquela idealizada no coração da minha filha e de uma geração inteira que agora a tem como majestade, a fazer o que ela faz como um imperativo categórico. Fico feliz, é uma ótima liderança e inspiração! Só que a pedagogia deu tão certo que, dos brócolis ao feijão com arroz, passamos então ao escovar dos dentes, ao deitar-se cedo, ao tomar bastante água, ao ser educada com as pessoas, ao fazer a lição de casa, ao respeitar pai e mãe, enfim, tudo consoante a Rebeca faria, afinal, se ela escova os dentes depois do almoço quem somos nós para não o fazer, não é?

Quando percebemos, porém, as coisas haviam tomado outra dimensão e nossa pequena estava se apresentando, no auge de seus quatro anos de idade, num ginásio lotado durante a copa brasiliense de ginástica artística. Aí a coisa começou a mudar de rumo e a fugir do controle, pois o efeito Rebeca Andrade inverteu os polos e, da noite para o dia, nós adultos é que passamos a ser chamados para acordar mais cedo porque, segundo nossa filha, a Rebeca também acordava. Ir no parquinho a toda e qualquer hora? É claro papai, a Rebeca também vai. Assistir televisão? Sem dúvida que a Rebeca assiste. Foi preciso então uma série de explicações mirabolantes e mentiras sinceras para justificar, por exemplo, que ainda que nunca tenhamos visto a Rebeca Andrade fazer algo parecido, os adultos podem tomar café várias vezes por dia, podem assistir filmes de terror e podem, claro, tomar sorvete na quarta-feira pela manhã. Vencemos um round para perder outro maior, contudo.

É que a equipe de ginástica criou o dia da família, ou seja, um dia em que você deve abandonar a tranquilidade de sua biblioteca para se aventurar com a família inteira nos perigos mortais da trave, das barras assimétricas e do solo, a arriscar ligamentos, tendões, vértebras e dignidade em prol da diversão coletiva e das memórias afetivas. O que não sabiam, porém, é que aqui em casa brincadeira é coisa levada a sério e, por tal, resolvi que ao longo da semana inteira treinaria à exaustão para ser o melhor pai ginasta adulto do mundo.

Tendo por professor um youtuber congolês de currículo questionável, uma página da Wikipedia por guia de movimentos e a coragem por coaching, aprendi sozinho as posições da “vela”, da “mesinha” e da “ponte”. Na segunda-feira estive à mercê de comprometer para sempre minha cervical ao fazer a “rampa” e a estranha posição da “roupa no varal”. Na terça-feira dediquei-me por horas a fazer as coreografias da “lagartixa” e do “tatu bola”, para o quê foi preciso um pós-treino regado a doses cavalares de anti-inflamatório. Na quarta-feira investi na posição do “morcego” e, já com a costas tomadas por emplastros, cheirando por inteiro a sebo de carneiro com arnica, aproveitei o treino final de quinta-feira para executar da melhor forma possível as tão esperadas coreografias da “mulher maravilha” e do “cachorro-manco”. O paradigma Rebeca Andrade cumprira seu mister e eu estava pronto.

Só que na sexta-feira, quando chegamos para a apresentação com a família, fomos informados de que só um dos genitores, pai ou mãe, poderia fazer as atividades. Não pude acreditar quando minha filha escolheu a mãe. Tentei por todas as formas participar e, incrédulo com tantas negativas, senti-me como o aldeão diante do templo da lei no conto de Kafka. Tentei um pouco mais com a direção do evento e, para minha surpresa, ouvi a coordenadora dizer, na frente de toda gente, que eu não deveria insistir, pois a Rebeca Andrade jamais insistiria. Fui ferido pela própria flecha que lançara. O argumento se tornou invencível e, por tal, restou-me ser o fotógrafo do evento, o que fiz com um pouco de má vontade, confesso. Devido aos treinos, passei o final de semana mal, com dores pelo corpo. Há dois dias fui no ortopedista. Fiz uma ressonância e descobri, vejam só, que havia comprometido o tornozelo. Pois é, minha filha adora brócolis e feijão com arroz, mas o ouro de Rebeca Andrade nos jogos olímpicos, ao fim e ao cabo, saiu-me caro.

Fernando Perazzoli é professor e Advogado, tendo atuado por mais de dez anos no ensino superior em União da Vitória e Porto União. Além disso, lecionou na Universidade Federal de Santa Catarina, na Universidade de Coimbra (PT) e na Universidade de Mumbai (Índia). Foi consultor da Fundação Oswaldo Cruz (RJ e DF). Exerceu os o cargo de Diretor Municipal no Poder Executivo de União da Vitória, de Coordenador Jurídico na Secretaria de Atenção Especializada do Ministério da Saúde, em Brasília e de de Assistente para Probidade Adminsitrativa e Curatela do Patrimônio Público junto Ministério Público do Estado de Goiás. Atualmente é Professor de Direito Constitucional da UNIEURO (Brasília) Consultor para o FNDE. Contato: perazzoli@gmail.com/@‌fernandodavidperazzoli..

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