CRÔNICA: Guiar(se) pela vida

Talvez já tenha dito por aí e algumas vezes que gostaria de me guiar pela vida da mesma forma que guio meu carro no trânsito. Acreditem, sinto-me o motorista exemplar e gostaria que as pessoas fossem iguais a mim quando estão na popular “boleia”. Calma, calma… não me achem narcisista ou sem modéstia, afinal não é disso que se trata. Falo mesmo é desde questões objetivas, verificáveis por qualquer observador que queira conferir como executo as manobras e as aceleradas, nada além disso. O que pontuo é que descobri na estrada, ao acaso, uma íntima relação entre ela e a vida fora dela. Será possível?

Todos os dias dirijo por intensas rodovias em Brasília. Sorte a minha que quase sempre é no sentido contrafluxo, ou seja, pista livre do meu lado enquanto meio mundo se apinha do lado lá. Nem por isso me apresso. A pista vazia não me convida a outra coisa que a escutar com tranquilidade e menos ruído meus podcasts favoritos. Eu vou devagar, quase nunca troco de pista, não fico nem um pouco estressado quando interrompem meu caminho, quando buzinam para mim ou até mesmo quando fazem um ou outro gesto grosseiro, muito além do limite da boa educação.

De outra banda, na vida fora das pistas sou um atrapalho só e, a correr pela metáfora, ando por ela com velocidade, às pressas, querendo sempre chegar em algum lugar que não sei bem onde é. Nela buzino quando quero passagem, atravesso a frente dos outros, desrespeito alguns sinais e faço manobras arriscadas. Claro, nem sempre é assim, até porque seria insuportável uma vida maluca sempre na contramão, mas muitas vezes é assim mesmo que acontece. A grande exceção, como tenho dito, é o trânsito, por mais paradoxal que seja.

É por isso que eu tenho percebido que tanto quanto a vida pode (e deve) ensinar o trânsito, a recíproca também pode ser verdade. Pensem comigo: quando saímos de carro, estabelecemos um destino, calculamos o tempo, analisamos os recursos disponíveis no veículo e planejamos as paradas que faremos, num circuito que nos faz até mesmo olhar o céu para saber se eventualmente irá chover no meio do caminho (quem é de São Paulo sabe exatamente o que isso significa). Fazemos isso tudo tão bem e tão calculado, todos os dias, que o trajeto de carro até a padaria chega a ser tão racionalizado quanto um vôo comercial. Por outro lado, quando fazemos coisas muito mais simples, tais como fazer compras, assinar o novo canal de streaming, matricular-se num novo curso, ir a uma festa ou trocar uma roupa, parece que esquecemos a nossa capacidade de racionalizar e, aos trancos e barrancos, tomamos decisões estranhas e sem lógica alguma, a ponto de sairmos para comprar um pacote de macarrão e voltarmos para casa com uma telesena e dois livros do Bobbie Goods, sem macarrão algum porque almoçamos no caminho.

Admiro muito as pessoas que tocam suas vidas com prudência e foco em metas tangíveis, factíveis e comuns. Estranhamente, porém, quando saímos juntos de carro e são elas a dirigir eu me sinto numa montanha russa, sem saber direito onde me agarrar e aonde aquilo tudo vai terminar. As vezes chego a não reconhecer como aquela pessoa que sequer faz compras irracionais e a prazo no cartão de crédito consegue furar dois sinais vermelhos em um trajeto de menos de duzentos metros. É estranho, mas percebam como a inversão de sentido entre o guiar-se na vida e o guiar-se no trânsito é mais comum do que se pode imaginar. Caso você se reconheça na situação, saiba que você não está só nesta jornada.

E olha, fiz meu trabalho, pois de modo a testar a hipótese conversei um pouco sobre o tema com o porteiro do prédio. Surpreendi-me com a imediatez da concordância dele, como se eu lhe tivesse dito não um pensamento qualquer, mas uma verdade inexorável: – Tenho oito filhos para criar, fruto de quatro casamentos que não deram certo, vivo vendendo o almoço para comprar a janta e já fali duas vezes, mas veja bem Dr., nunca levei uma multa! Disse-me com incrível naturalidade. Espantado, subi para o apartamento, pensativo e disposto a fazer alguns ajustes de metas e de rotas, isto é, a comprar menos telesena e a guiar-me pela vida um pouco mais próximo de como guio pela estrada.

Fernando Perazzoli é professor e Advogado, tendo atuado por mais de dez anos no ensino superior em União da Vitória e Porto União. Além disso, lecionou na Universidade Federal de Santa Catarina, na Universidade de Coimbra (PT) e na Universidade de Mumbai (Índia). Foi consultor da Fundação Oswaldo Cruz (RJ e DF). Exerceu os o cargo de Diretor Municipal no Poder Executivo de União da Vitória, de Coordenador Jurídico na Secretaria de Atenção Especializada do Ministério da Saúde, em Brasília e de de Assistente para Probidade Adminsitrativa e Curatela do Patrimônio Público junto Ministério Público do Estado de Goiás. Atualmente é Professor de Direito Constitucional da UNIEURO (Brasília) e Consultor para o FNDE. perazzoli@gmail.com/@‌fernandodavidperazzoli.

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