CRÔNICA: Ilegalidades

Já comentei por aqui que eu gostaria de ser, na vida como um todo, a mesma pessoa que eu sou enquanto dirijo. Dentre as virtudes que ressalto serem minhas ao volante, o respeito à sinalização e às regras de trânsito é uma das que mais orgulho de ostentar. Mal sabia, porém, que justamente sobre isso a vida me pregaria uma grande peça.

É que cumprir as regras de trânsito, certinho, equivale a não raro suportar longos congestionamentos, a não poder enfiar o carro na frente dos outros, a não agir de maneira imprudente para mudar de faixa e, sobretudo, nunca, absolutamente nunca, usar a faixa exclusiva dos ônibus, das autoridades e dos táxis. Talvez essa última, inclusive, seja a regra de ouro do respeito ao código e, por que não dizer, da civilidade sobre a pista. Dou ênfase no “não usar a faixa exclusiva” porque ela não é só uma infração mas, em verdade, uma espécie de infração-tentação com possibilidade de altíssima recompensa, a dizer, não é só um desvio da norma, mas a possibilidade de você andar livre em meio ao caos urbano e, com isso, ganhar muito tempo.

Veja bem meu caso. Para chegar ao trabalho são doze quilômetros de pista, uma quantia bastante considerável se o que está em jogo é bater o ponto na hora certa. Ao largo de toda a via (e são seis pistas de rolagem!) há uma dedicada a ônibus, viaturas oficiais e táxis. Quase sempre, no horário de chegar ao trabalho há engarrafamento e a viagem se torna infernal.

Há, porém, dias piores, inglórios, aqueles em que saímos atrasados e, quando passamos pelo mesmo lugar de sempre, lá estão outras cinco mil pessoas, também atrasadas, a dirigir. Há os dias de acidentes na pista, nos quais a frase “morreu na contramão, atrapalhando o tráfego”, do famoso dodecassílabo de Chico Buarque, adquire uma pungência incomum. Há, enfim, toda sorte de imprevistos, sempre hábeis a complicar tudo até ao destino.

Naquele dia eu me atrasei consideravelmente para sair para o trabalho. Antevi ao menos uma hora no engarrafamento. Preparei a alma, escolhi a playlist, deixei pronto algum snack e mentalizei o sufoco que passaria. Um bom e preparado mindset faz diferença em horas tais. Vida que segue. Dei partida no carro mas, para desespero, não ligou. Foi então que chamei o Uber. Demorou e, ao demorar, mais tempo de congestionamento eu antevi. Há dias que são dias, como diz a canção portuguesa e, aquele, era um de tais.

Foi então que algo novo aconteceu, algo inacreditável na minha tão simplória vida de motorista. Eis que o motorista do Uber simplesmente ignorou que havia uma fila de congestionamento e, por exatos dozes quilômetros, trafegou livre, leve e solto pela fila exclusiva dos ônibus, das autoridades e dos táxis. Meu coração passou a bater espaçado, sôfrego. Era muito imperativo categórico sendo colocado de lado naquela viagem. Eu havia me tornado aquele-que-não-eu, o outro que eu sempre critiquei.

Aos poucos, via os demais carros a ficar para trás. Senti-me como um adolescente, que mesmo diante das reiteradas orientações dos pais, ousava. Eu sabia que estava na ilegalidade, que algo de errado estava se passando mas, ainda assim, eu nada falei, nada reclamei. Simplesmente fui, tão certo e errado quanto na primeira vez em que experimentei um cigarro. Clarice teria dito que, naquele momento, eu cumpria uma coragem. Talvez estivesse certa. Fechei os olhos e me entreguei.

Doze quilômetros depois e com mais de uma hora economizada, cheguei. Tudo era diferente do que eu conhecia. Tudo havia mudado e eu já não era mais o mesmo. Mais que isso, pensava eu, como eu ensinaria direito de trânsito logo após ter vivido o frenesi da ilegalidade? Eu era já um malfeitor, um irmão metralha, um foragido. Havia policiais na minha turma. Eu seria preso e a vida e a carreira estariam acabadas. Pensei em ligar para um advogado criminalista. Talvez fosse melhor um Habeas Corpus preventivo.

Atônito e em nítido processo de alto flagelação moral, dei-me então conta de algo que até então não havia percebido. A placa do carro era especial. Havia até um taxímetro no painel. O motorista estava sentado sobre aquela capa de bolinhas de madeira que revestia o banco. Havia o número de uma cooperativa na porta. Eu estava salvo. Era um táxi e eu não havia, afinal, cometido ilegalidade alguma. Agradeci o taxista. Limpei o suor da testa. O coração voltou a bater na frequência do normal. O frenesi acabara e eu sabia que, com a consciência limpa, daria uma aula límpida e imaculada sobre infrações de trânsito. Antes, porém, achei por bem comprar um capuccino.

Fernando Perazzoli é professor e Advogado, tendo atuado por mais de dez anos no ensino superior em União da Vitória e Porto União. Além disso, lecionou na Universidade Federal de Santa Catarina, na Universidade de Coimbra (PT) e na Universidade de Mumbai (Índia). Foi consultor da Fundação Oswaldo Cruz (RJ e DF). Exerceu os o cargo de Diretor Municipal no Poder Executivo de União da Vitória, de Coordenador Jurídico na Secretaria de Atenção Especializada do Ministério da Saúde, em Brasília e de de Assistente para Probidade Adminsitrativa e Curatela do Patrimônio Público junto Ministério Público do Estado de Goiás. Atualmente é Professor de Direito Constitucional da UNIEURO (Brasília) e e Consultor para o FNDE. Contato: perazzoli@gmail.com/@‌fernandodavidperazzoli. perazzoli@gmail.com/@‌fernandodavidperazzoli.