Crônica: Modelos de utilidade
Tornar-me pai trouxe consigo algumas inquietações. Uma delas, comezinha e aparente, vem do fato de minha filha ter me mostrado novos modelos de utilidade para coisas do tempo em que era minha a vez ser criança, ou seja, inventos diante dos quais me pergunto: por que fui obrigado a esperar tanto para algo tão simples e bom ser criado? Pior ainda é que muitas vezes esses novos modelos sequer estão associados às grandes áreas da ciência, visto que surgem das coisas mais triviais do nosso dia a dia, como naquela vez em que alguém resolveu acoplar uma barra de empurrar na traseira do triciclo infantil e, de quebra, mudar para toda uma geração o conceito de esforço.
Pois é, no nosso tempo até tínhamos o tal do triciclo, que por si só já era medíocre em cores e luzes se comparado aos atuais. Ele era de roda de plástico, capaz de enlouquecer qualquer um com o barulho que fazia. Não obstante, lá estávamos nós, a pedalá-lo com persistência e determinação. Passou o tempo, muitas gerações de desgaste físico e emocional e eis que, da noite para o dia, não havia mais dureza ou esforço, pois melhoraram a coisa com uma barra acoplada na carenagem. Desde então basta apenas um adulto para empurrá-lo.
Aí que surge o questionamento: por que é que no meu tempo de criança não havia essa tal barra no meu triciclo? Por que eu tive que peladar tanto para minimamente sair do lugar? Não, não é possível, não quero acreditar, afinal é só uma barra, nada mais do que isso. Não estamos falando de um novo algorítimo, do bóson de Higgs ou da nanotecnologia, mas de uma simples barra. Entendeu a inquietação? Calma, tem mais…
A farmacologia e a engenharia química evoluíram de uma maneira considerável nos últimos dez anos, só que demorou décadas para elas colocarem sabor nos antitérmicos infantis. Sim, hoje as crianças, quando estão com febre, não tomam mais remédio algum com gosto de morte, visto que os têm à disposição nos sabores tutti-frutti, morango e abacaxi. O mesmo se aplica ao famoso antisséptico, que hoje em dia não arde quando colocado no machucado. Pois é, como não pensaram nisso antes? Antes de nós?
Se chegamos até aqui é preciso, então, ir além e tocar o fundo. Falemos do grande baluarte dos tempos atuais, que de tão simples nos faz voltar a atenção ao passado para perguntar aos nossos pais e mães o que foi que (não) aconteceu. Trata-se da brinquedoteca do restaurante. Sim, ela mesma! Gosto de pensar que não se trata de uma invenção, mas um modelo de utilidade formado pela junção perfeita entre um pequeno espaço livre no restaurante, uma piscina de bolinhas e túneis de plástico, tudo isso na distância ideal para os pais comerem tranquilamente e para as crianças se divertirem em paz. A brinquedoteca é coisa nova, recente, mas poderia ter estado entre nós o tempo todo e teria funcionado já no primeiro restaurante que admitiu entre seus clientes famílias com crianças.
Diante de tais questões não há, acreditem, irritação ou reclamo, nada disso. Adoro ver minha filha e sua geração ter tudo isso e muito mais à disposição. Minha inquietação é só aparente e comezinha, como disse. Aliás, ela cede sempre lugar à alegria e ao pensamento de que todas essas coisas que citei como exemplo não foram obra de gente adulta e engenheira, mas das próprias crianças, tecidas por elas na ludicidade e improvisação de seus jogos e brincadeiras. As crianças criam, desenvolvem e constroem mundos novos com as coisas que têm à mão. Dão outros sentidos ao que já existe. Quem já viu o que elas fazem com brinquedos montessorianos – ótimos por sinal – irá junto comigo na ideia. Duvido muito que soaria estranho se viéssemos a saber que a “Haste Empurradora”, a tal barra, foi criada por uma criança que resolvera empurrar o triciclo da outra com um cabo de vassoura. Da mesma forma, de nada ficaríamos surpresos se descobríssemos que por traz dos antitérmicos com gosto doce não há um engenheiro químico formado em Harvard, mas uma criança sapeca que decidiu, às escondidas, jogar gelatina de sabor no vidrinho de remédio, tanto quanto nada de estranho seria registrado se nos contassem que as brinquedotecas surgiram no dia em que crianças criativas perdidas num restaurante monótono arrastaram cadeiras, mesas e toalhas para algum canto e lá improvisaram, à revelia do almoço e para alegria de toda gente, algo entre um parque de diversões e um acampamento militar.
Em uma das nossas viagens em família fizemos o passeio pelo Vaticano, com aquela coisa de museus, catedrais e capelas, incluída, claro, a famosa Capela Sistina, cheia de afrescos sobre a criação do mundo. Lá, bem embaixo do famoso dedo de Deus a quase tocar o dedo de Adão, no mesmo lugar onde por séculos os papas têm sido eleitos, perguntei para minha filha de quatro anos: e aí? Ao que ela me respondeu com aquela carinha de dúvida, a balançar a mãozinha no ar e a dizer: mais ou menos, falta uma brinquedoteca! Ora, vejam só, uma criança a sugerir uma brinquedoteca na Capela Sistina. Papa Francisco, fica a dica.

Fernando Perizzoli é professor e Advogado, tendo atuado por mais de dez anos no ensino superior em União da Vitória e Porto União. e lecionado na Universidade Federal de Santa Catarina, na Universidade de Coimbra (PT) e na Universidade de Mumbai (Índia). Foi consultor da Fundação Oswaldo Cruz (RJ e DF). Exerceu o cargo de Diretor Municipal no Poder Executivo de União da Vitória e o de Coordenador Jurídico na Secretaria de Atenção Especializada do Ministério da Saúde, em Brasília. Atualmente é Professor de Direito Constitucional da UNIEURO (Brasília) e trabalha no Ministério Público do Estado de Goiás. Contato: perazzoli@gmail.com/@fernandodavidperazzoli.



