CRÔNICA: Mudanças
É comum que, antes de alugarmos um imóvel, seja feita uma vistoria para saber se tudo está “nos conformes”. Como resultado, tem-se um papelzinho, no qual são descritos os pormenores do imóvel, sendo que nele assina toda gente, os que entregam as chaves e os que as recebem. Tudo isso para tempos depois, quando o aluguel se encerrar, vir um outro avaliador, com o mesmo papelzinho e, cara-crachá, verificar se o antes e o agora são iguais, porque têm de ser, e ai de você se não o forem.
Foi pelas mudanças da vida que percebi ser este um ato insólito, para não dizer outra coisa. Digo isso porque as vistorias no imóvel alugado servem como uma máquina anti-tempo para apagar o que nele se passou. A dizer, nesta vã filosofia, elas tiram do imóvel tudo o que nele aconteceu, de bom e ruim, para que ele tenha a mesma cara de cinco, dez, quinze anos atrás, como se ninguém, nem mesmo o tempo, tivesse passado por ali. E já que estamos nas filosofias vãs – porque não – permitamos pensar que a vistoria reedita no contemporâneo a Titanomaquia clássica, pela qual Zeus, muito menos olímpico do que outrora, agora de boné da corretora de imóveis, vestindo a camisa de manga curta com logomarca da firma, prancheta e caneta na mão, só assina e dá ok na devolutiva do imóvel quando tiver mandado Kronos de vez por todas para o Tártaro.
Calma, não se deixe irritar pela antiguidade clássica, temos também coisas de presente e de futuro para falar.
No presente, estou também de mudança. E agora, ao olhar para a casa que logo mais deixarei, sinto uma certa raiva do corretor de imóveis que virá certificar que, nas paredes, portas e cômodos, um pedaço da minha história foi definitivamente apagado. Brota-me uma comezinha raiva, um pouco narcisista e sem lógica. Em primeiro lugar, meio narcisista, porque eu sinto que as portas arranhadas pelos gatos, as paredes pintadas à mão de criança, os remendos, as gambiarras e até mesmo os 64 furos que fiz na parede para acomodar a estante dos meus livros deveriam permanecer intactos para o futuro, como um legado não se sabe de que. Em segundo, porém, a raiva é um pouco sem lógica porque eu mesmo resolvi deixar tudo isso para trás.
Do presente ao futuro, não alivia, pois o outro lado é ainda pior. Na nova casa, disputamos já pelos novos quartos, pela organização da sala, pelo lugar onde ficará o piano e, o mais fundamental, claro, quem ficará com qual banheiro. Mais que isso, porém, estranho que entrarei num imóvel de 50 anos que não tem história, no qual é tudo igual ao que era antes. Sinceramente, eu gostaria de saber o que ali se passou, sendo que o corretor de imóveis poderia ter me dito coisas como “olha que nesse quarto foi onde o ex-morador escreveu o famoso livro”, “o morador anterior foi embora porque aqui nesse canto ele viu que ganhara na loteria” ou, um pouco mais romântico, a seguir às canções, “naquela janela fulano ficou vendo a banda passar, cantando coisas de amor e, depois, viu a Rosinha a vender limões à praça e, à pressa, casou-se com ela, mudou-se, foram embora”. Mas nada, só cheiro de tinta fresca cor branco-gelo.
Talvez seja importante, diante disso, lembrar de Amélie Poulain e esconder, em algum buraco na estrutura, uma cartinha ou caixinha de lembranças, depois cimentar. Quem sabe assim, um dia, alguém encontre o escrito durante uma reforma e, ao ver minhas lembranças, consiga unir as temporalidades e experiências, não para tecer a cronologia das paredes, mas para compreender que as mudanças da vida ocorrem, de fato, porque o tempo não para, nem mesmo se o avaliador da imobiliária for Zeus e, pior, se a nova tinta for na cor branco-gelo.
@fernandodavidperazzoli



