Crônica: Na bagagem do viajante
De antemão peço duas desculpas aos fãs de Saramago. Primeiro porque o título desta crônica pode parecer-lhes uma apropriação indevida de um dos livros que, para mim e para muitos, é um dos mais interessantes dentre os dele. Desculpem-me, em segundo, porque bebo no título de um livro de crônicas para escrever o título de uma crônica que não tem livro, o de José e a minha, tão diferentes entre si, naquilo que há nos longos e profundos escritos dele e naquilo que se lê nos meus simples e superficiais textos. Desculpado que acredito estar, sigo então pelo que ele me trouxe, compartilhando-o aqui.
O título contém uma variável. Saramago disse “A bagagem…” e eu meti ali um N, virou “Na bagagem…”. Pode parecer pouco, mas quem leu “A Jangada de Pedra” sabe o poder e os perigos de uma palavra a mais. Pois bem, inseri o N e localizei que não estamos mais a ver a bagagem, migramos para dentro dela, quase a propor o contrário do “Conto da Ilha Desconhecida”, isto é, ao invés de sair da ilha para ver a ilha faço um convite para entrar na ilha, ou bagagem, e conhecê-la.
Até o final destas linhas será um texto, mas para mim é substancialmente música. Não conheci José, infelizmente, mas tive a honra de conversar tête-a-tête com Pilar, que foi esposa dele de 1988 até a morte do escritor, em 2010. Dela ouvi em Lisboa, aos pés da oliveira plantada sobre as cinzas do Autor, exatamente em frente à Fundação que leva seu nome e sua história adiante, a leitura de um pequeno parágrafo do livro “As Intermitências da Morte”, na parte precisa em que a Morte – sim, ela – apaixona-se por um violoncelista e, tomado pela música e pelos sentimentos humanos que dali emergem, deixa um pouco de lado seu ofício de matar. Ali ao lado de Pilar, a ouvi-la, pensei que a minha bagagem poderia também ser música, ser composta de música. Na mesma tarde e à Ribeira, exatamente onde Carlos do Carmo disse que se deita a cabeça, a almofada da cama do Tejo, juntei os fios desse lençol bordado à pressa e, para não perder a cambraia que conseguia fazer com as linhas de tal canção, criei então a playlist cujo nome intitula a presente crônica. Convido-vos a acessá-la, no Spotify.
São dois ensaios, aqui e acolá. Da “Cegueira” à “Lucidez”, consegui ir dos livros às músicas, num encontro comigo e com a minha história. Meti ali tudo que ligava um acorde a uma lembrança, qualquer uma, sem filtro e sem pudor. Descobri com isso que algumas notas musicais doem, outras alegram, algumas me levam ao ponto em que não pude para que outras me tragam de volta do lugar em que ousei estar. São notas de aventuras e de sonhos, de alegrias e tristezas, de romances e esperas, de beijos, de vinhos e de queijos. Uma playlist que me faz lembrar, que me duplica e que me faz ver-me (com todo perdão da colocação pronominal, que foi assim só para jogar com a angústia existencial no estilo Augusto dos Anjos).
Seria fácil citar agora o “As Pequenas Memórias”, mas prefiro a dureza do “O Homem Duplicado”, esse outro de mim mesmo que, não obstante ser outro, sou também eu. Minhas músicas e minhas histórias, um chão duro, donde a sempre levantar, concitam-me a responder outro texto dele, “Que farei com este livro?”, ou melhor, que farei com esta playlist?, que farei com estas memórias que não podem mais sumir? Na Bagagem do Viajante e nas suas músicas estou eu, tão eu que se a deixo a sonar noite adentro, ao acordar preciso rápido comer um pedaço de pão, um pouco como Blimunda o fazia ao lado de Baltazár em “O Memorial do Convento”.
Sempre quis, assim como se passa em “Todos os Nomes”, poder estender um fio de Ariade pelos nomes que povoam minhas memórias. Nomes sobretudo de gente, mas também de lugares, de experiências e de desejos, nomes de coisas que fui obrigado a nomear porque não sabia como dizê-las e, de olhos fechados, não podia sequer tocá-las com os dedos. Como um exercício de “fort-da”, encontrei nas músicas uma lógica possível e, escutem só, já posso até caminhar pelo labirinto de minhas recordações no modo aleatório, no modo de repetição e no modo linear. Posso ir e voltar na playlist, inúmeras vezes, posso até pedir à Alexa que toque de pronto uma emoção bem localizada que ela, boba e sem graça, jamais conseguirá entender.
Fazer uma playlist com tudo que nos traz uma recordação não é fácil. Não se trata de poder brincar com o que vivemos, antes o fosse. Muitas vezes não consigo sequer ouvi-la e é preciso mesmo passar para outro tipo de arte. Saramago, nesse sentido, ensina a olhar e a ver, a encarar de frente o sentido das sombras na parede, assim como havia dito antes Platão, também em “A Caverna”. Viver é por aí, escrever a vida também. O dia 18 de junho de 2025 marcou 15 anos sem José por aqui. Faz falta, muita falta.

Fernando Perazzoli é professor e Advogado, tendo atuado por mais de dez anos no ensino superior em União da Vitória e Porto União. Além disso, lecionou na Universidade Federal de Santa Catarina, na Universidade de Coimbra (PT) e na Universidade de Mumbai (Índia). Foi consultor da Fundação Oswaldo Cruz (RJ e DF). Exerceu os o cargo de Diretor Municipal no Poder Executivo de União da Vitória, de Coordenador Jurídico na Secretaria de Atenção Especializada do Ministério da Saúde, em Brasília e de de Assistente para Probidade Adminsitrativa e Curatela do Patrimônio Público junto Ministério Público do Estado de Goiás. Atualmente é Professor de Direito Constitucional da UNIEURO (Brasília) e Consultor para o FNDE. Contato: perazzoli@gmail.com/@fernandodavidperazzoli.


