Crônica: O Fermento

Acordei com a notícia de que teríamos um novo ser a viver conosco aqui em casa. Calma, não é filho que vem por aí, também não é Pet, não é planta e não é Tamagotchi. A novidade por aqui é um fermento. Isso mesmo, um já bem vivido fermento para fazer pão, que chegou de Belo Horizonte num vôo da Latam e, com cinco anos de idade, tem o nome de Levain. Não foi encomenda, isso não, que fermento chique com esse nome não vem nunca por entregador. Veio nas mãos de padeiros de renome e, desde a última sexta-feira, portanto, é o mais novo inquilino na terceira repartição da nossa geladeira, aos fundos, embaixo da lâmpada, entre uma rapadura e um pote de pepino em conservas. Se cuidarem dele corretamente, durará uma vida inteira, disseram-nos. Uma vida inteira, como assim?, estou ainda a pensar.

Crônica: O Fermento

Foto: freepik

Instalado o fermento nos seus novos aposentos, aproveitei a oportunidade para refletir. Filosofia do fermento, dirão, mas não é nada disso, advirto e me divirto desde já. São meras inflexões. É que o fermento, para ser levado a termo e virar pão precisa mais do que a simples gestão de sua tão delicada vida. Ele pede tempo e dedicação de todos, ou seja, que mudemos toda a rotina e a ordem das coisas para nos ocuparmos por horas intermináveis na feitura de um pão. Veja bem: sou circundado por quatro padarias e três mercados, os quais contam, inclusive, com padarias gourmetizadas nas quais é possível encontrar tanto um simples pão francês quanto uma relíquia artesanal esculpida a partir de trigo sarraceno, tâmaras de Dubai e queijo Brie francês. Não haveria razão para gastarmos horas preciosas em prol de um brioche caseiro senão o puro prazer de desfrutar, muito além da preocupação com a saúde, de algo que realmente nos demandou horas para fazer. O fermento, portanto, na medida em que exige nossa atenção e nossa dedicação, até mesmo a abnegação de outras coisas, acaba por nos exigir paz e reconciliação em relação ao tempo das coisas que fazemos, e isso é belo.

Tenho a impressão de que faço as coisas do dia a dia cada vez de forma mais rápida, sejam elas as planilhas que analiso, as petições que redijo ou mesmo o café da manhã. Um paradigma de agilidade parece que tomou conta do cotidiano. Até mesmo no tempo certo a minha sala de aula parece que mais e mais conhecimento insiste em ser transmitido antes do intervalo. Não se trata só da velocidade com que nos hiper conectamos via redes sociais, tampouco do que a inteligência artificial pode mais rapidamente por nós fazer. É pior, é um paradigma de agilidade que adotamos sem saber. Não duvido, aliás, que tenha gente por aí usando Kanban para debater periodicamente com a esposa as contas a serem pagas, que outros se valham do Scrum para fazer as atividades escolares com a filha ou que alguém coloque no Trello metas e horários fixos para conversar com amigos e tomar um café.

Enquanto pensava a partir do novo paradigma temporal instalado pelo fermento, com olhar perdido na estante de livros, encontrei lado a lado um livro de crônicas de Luis Fernando Veríssimo e um romance de José Saramago. Lembrei que ao ler o primeiro sempre tive comigo que se tratava de um escritor com tempo para redigir, pois suas crônicas abordam os assuntos de modo lento e tranquilo. Descobri tempos depois que o próprio Veríssimo era e escrevia assim, com calma, saboreando as palavras e suas sintaxes. Já Saramago, o Nobel lusitano, escrevia texto longos, romances profundos e abordava temas sensíveis sem se preocupar com o passar das horas. Também depois de o ler descobri, na entrevista que concedeu ao programa Fantástico em sua casa, na ilha de Lanzarote, que escrevia apenas uma página por dia, não mais do que isso, ou seja, com muita calma. Na mesma entrevista convidava o repórter, tão apressado diante de José, a ver as oliveiras que plantara naquele terreno árido. É belíssimo poder vê-las crescer e sentir o tempo passar, disse ele em palavras outras.

Nesse contexto filosófico-literário e de fermentação entendi então que Levain era uma oportunidade, um sopro de alegria na correria do dia a dia. Suas exigências eram grandes, mas valia a pena. Desde então temos nos revesado nos cuidados, nutrindo-o com boas farinhas de tempos em tempos, vendo o crescer no calor controlado e a multiplicar-se junto às massas. Algumas leituras ficaram de lado e alguns compromissos precisaram ser adiados, mas estar a fazer o pão que assamos é maravilhoso. Acho que devemos trocar o método Pomodoro pelo método Levain, em busca de um ritmo mais lento e calmo de fazer as coisas! E agora me vou, pois um cheiro de broa fresca e quentinha começa chegar aqui no escritório, obrigando-me a romper com a pressa do cotidiano, hoje, amanhã e depois… quiçá pela vida inteira.

Fernando Perazzoli é professor e Advogado, tendo atuado por mais de dez anos no ensino superior em União da Vitória e Porto União. Além disso, lecionou na Universidade Federal de Santa Catarina, na Universidade de Coimbra (PT) e na Universidade de Mumbai (Índia). Foi consultor da Fundação Oswaldo Cruz (RJ e DF). Exerceu os o cargo de Diretor Municipal no Poder Executivo de União da Vitória, de Coordenador Jurídico na Secretaria de Atenção Especializada do Ministério da Saúde, em Brasília e de de Assistente para Probidade Adminsitrativa e Curatela do Patrimônio Público junto Ministério Público do Estado de Goiás. Atualmente é Professor de Direito Constitucional da UNIEURO (Brasília) e Consultor para o FNDE. Contato: perazzoli@gmail.com/@‌fernandodavidperazzoli.

Possui alguma sugestão?

Clique aqui para conversar com a equipe de O Comércio no WhatsApp e siga nosso perfil no Instagram para não perder nenhuma notícia!

Voltar para matérias