Crônica: Quimeras de hoje, fatos de amanhã
Uma das cenas mais marcantes do belíssimo filme “Don Juan deMarco”, de 1994, estrelado por Faye Dunaway, Marlon Brando e Johnny Depp, é o derradeiro fim, no qual o narrador, supostamente o psiquiatra (Brando) que cuidou dos devaneios românticos do seu jovem paciente (Depp), deixa-se contagiar um pouco pela fantasia que esse lhe trouxera na clínica e permite-se imaginar ser o melhor psiquiatra do mundo – ele volta até mesmo a sorrir!
Este pequeno detalhe não é uma conclusão qualquer, um desfecho improvisado. É, ao contrário, a própria pergunta que o filme nos fez ao internar num sanatório ninguém menos que Don Juan: até onde vai a nossa capacidade de imaginar algo realmente diferente para nós mesmos e, por extensão, para o mundo em que vivemos?
Corto daí para uma cena menos cinematográfica e mais pessoal: eis que por ocasião de um feliz encontro que durante a semana tive em Brasília, com um amigo de antigamente, entre uma e outra cerveja, acabamos por falar das cidades onde crescemos, União da Vitória e Porto União, um pouco Paraná, um pouco Santa Catarina, sem saber exatamente onde, no sul Brasil.
Olhar para elas de longe e depois de tanto tempo é engraçado, um pouco paradoxal até. É distanciar-se e, ao mesmo tempo, sentir pelas cidades uma proximidade incomum, uma intimidade que só o tempo foi capaz de construir. Na conversa lembramos que imaginávamos à época, começo dos anos 90, cidades outras, quiméricas e utópicas, cheias de arranha-céus, com trens de alta velocidade nos levando para onde quiséssemos, com aviões imensos pousando e decolando a todo momento para qualquer lugar do mundo e, mais incrível ainda, que antes da virada do milênio a Fórmula 1 certamente seria decidida por Ayrton Senna na última curva da Avenida Bento Munhoz, na chuva, claro.
Concluímos que tivemos algum erro de cálculo nas nossas previsões – vocês hão de concordar! Mas isso não importa, mesmo. Porque concluímos também que foi desde tal tipo de pensamentos quimérico que tantos conterrâneos acabaram por ousar, em variadas áreas, a fazer algo diferente pela cidade e a trazer, senão a Copa do Mundo, pelo menos alguma medalha para a região – quem puder se lembrar do que foi a invejável equipe de natação do Clube Aliança naquela época saberá exatamente do que estou falando.
Dos sonhos às concretizações, União da Vitória e Porto União contam hoje com um número significativo de talentos e artífices, outrora sonhadores e sonhadoras, que geram inovações, sonhos, políticas públicas, renda, trabalho e futuro para outras gerações. Talvez você não saiba, mas há Pesquisadores, Mestres e Doutoras, Advogados, Diplomatas, Analistas Públicos, Juízes e Juízas, Procuradores da República, Empresárias, Políticos e Executivos que têm as cidades gêmeas do Vale do Iguaçu como berço, casa e história – isso sem esquecer da deferência a uma geração inteira de colegas da aula de inglês na antiga Oxon que hoje levam adiante a atenção à saúde, com excelência, em todas as áreas e especialidades.
Do cinema às ruas da cidade, volto ao feliz legado da minha geração e à pergunta: até onde vai a nossa capacidade de imaginar algo realmente diferente para nós mesmos e, por extensão, para o mundo em que vivemos? A traduzir: para União da Vitória e Porto União ou mesmo para qualquer das cidades de nossas histórias? Como resposta digo e arrisco que urge, aí também, a necessidade de um pensamento quimérico, sonhador e distópico, capaz de olhar, por exemplo, para as margens do Rio Iguaçu no Parque Ambiental e imaginar ali também um final de tarde idílico, como o é nas margens do Guaíba, da Tejo ou do Danúbio, de vislumbrar os melhores sistemas de educação e de saúde do mundo entregues na porta de casa, de se imaginar com a melhor infraestrutura urbana e com os melhores meios de transporte disponíveis em qualquer rua, além acreditar que é mesmo possível a conquista do emprego, do trabalho e do futuro sonhados por e para qualquer pessoa. Talvez se assim sonharmos poderemos realmente fazer algo novo, disruptivo e distópico. O que não podemos, porém, é perder a capacidade de imaginar e de desejar dias diferentes, para nós e para o mundo em que vivemos, ainda que isso implique errar um pouco no cálculo e imaginar, vez ou outra, a final da Copa do Mundo no Estádio Municipal Antiocho Pereira.

Fernando Perazzoli é professor e Advogado, tendo atuado por mais de dez anos no ensino superior em União da Vitória e Porto União. Além disso, lecionou na Universidade Federal de Santa Catarina, na Universidade de Coimbra (PT) e na Universidade de Mumbai (Índia). Foi consultor da Fundação Oswaldo Cruz (RJ e DF). Exerceu os o cargo de Diretor Municipal no Poder Executivo de União da Vitória, de Coordenador Jurídico na Secretaria de Atenção Especializada do Ministério da Saúde, em Brasília e de de Assistente para Probidade Adminsitrativa e Curatela do Patrimônio Público junto Ministério Público do Estado de Goiás. Atualmente é Professor de Direito Constitucional da UNIEURO (Brasília) e e Consultor para o FNDE. Contato: perazzoli@gmail.com/@fernandodavidperazzoli.
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