Crônica: Reborn, só que feio

Visitar crianças recém-nascidas é algo bastante chato. A prática, que outrora já foi muito comum, inclusive a ponto de render verdadeiras procissões às maternidades, havia caído em relativo desuso. Felizes éramos com tal descontinuidade… e digo no passado porque a onda dos bebês reborn parece ter despertado o costume, para desespero de toda gente. Eu, pior, fui convidado para tal visita e, desesperado, soube de imediato: lasquei-me.

Bebês Reborn: psicanalista analisa a polêmica do brinquedo realista

Foto: acervo Jornal O Comércio

Demorei a absorver o impacto do convite. Eu, justamente eu, que não gosto de visitar bebês, agora devo ir conhecer um que não chegou pelas vias biológicas, mas pela cegonha do novo milênio, a transportadora. Angustiado, aconselhei-me com alguns amigos: o que levar? Qual o dresscode para a ocasião? Deve-se pedir para pegá-lo no colo? E se o oferecerem ao colo, como negar? Ninguém soube me orientar e, ao fim e ao cabo, sem orientações, decidi que iria. Fui.

O mais difícil foi escolher um presente. O que eu levaria para um bebê reborn? Ou para os seus adultos? Fraldas, para que? Roupas, de que tamanho? Badulaques para enfeitar o berço? Aliás, a criança reborn têm um berço? Muitas perguntas, zero respostas. Comprei uma panela, sabe-se lá como cheguei a isso, mas conclui que o presente ideal seria uma panela. É que na minha cabeça, entendi depois, uma caçarola serviria para muitas coisas, tanto para os adultos como para a criança. Ali, na panela, faz-se almoço, serve-se galinhada, cozinha-se uma sopinha, lava-se os cueiros, esteriliza-se as mamadeiras ou, a critério, faz-se nada. E lá fui eu, com uma panela de barro embrulhada para presente.

Ao chegar na casa, estranhei o fato de que imediatamente me pediram silêncio, porque a criança estava dormindo. Segundo fui informado, acabara de mamar, arrotar no ombro da mamãe e havia, sem muitas dificuldades, pegado no sono. Só então entendi que havia mesmo entrado, sem saber em que momento, no perigoso imaginário de alguém. Serviram-me bolo de laranja e café com leite. Comi lentamente, com medo de que acabasse e só sobrasse a conversa. Enquanto comia, soube das dificuldades do banho de um reborn e chegaram a me mostrar alguns presentes recebidos. Nenhum deles se aproximava de uma panela e, revelo agora, fiquei com um sentimento estranho dentro de mim, um misto de vergonha ante o fiasco com orgulho pela inovação. A adulta me falou que eu era criativo e que eu seria um ótimo padrinho para a criança. Gelou-me até a alma ante tal possibilidade e, para manter a sanidade, agarrei-me como pude no bem empregado futuro do pretérito. Em visitas a reborns, anotem, até tempos verbais são tábuas de salvação.

Aos poucos, guiei-me como Indiana Jones pelo labirinto daquele imaginário, compreendendo o mundo estranho e complexo no qual eu estava. Ofereci-me para ajudar com qualquer coisa, se preciso fosse, afinal minha experiência com bebês de verdade poderia ter alguma serventia. Enquanto tentava ser prestativo, porém, fui interrompido pelo suposto choro da criança, que no caso só o adulto e adulta do reborn em questão conseguiam ouvir. Está chorando porque deve estar com fome, disseram-me.

Demorou um pouco, mas chegou a hora, trouxeram-no a mim. Eu suava frio, contendo-me para que tudo fluísse como deveria ser, ainda que eu não tivesse ideia alguma do que pudesse ser. O adulto se aproximou e, no susto, tive um duplo choque, que fez o imaginário deles ter se tornado não mais possível para mim (se é que alguma vez o foi). Eis o nosso pequeno Leopoldo, disse-me o adulto. Meu semblante foi indisfarçável. Leopoldo? Sério? O reborn tinha o nome de Leopoldo? Eu gosto do nome Leopoldo, só não o havia associado a um reborn. Aliás, eu não havia feito isso com qualquer outro nome. O pior, porém, estava ainda por vir. Ao ver o bebê, dei-me conta de que ele era desgraçadamente feio. Atentem-se, não era de uma feiura cinematográfica, que a gente leva em consideração para efeitos cênicos, como o “Chuck”, por exemplo. Era pior, pois era uma feiura triste, uma feiura fria, era uma feiura de boneco mal pintado, feito às pressas, sem técnica, e com material de péssima qualidade. De saída, desajeitado e sem ter pegado o bebê no colo, agradeci pela oportunidade que haviam me dado e saí dali para nunca mais voltar. Visitar crianças recém-nascidas é algo bastante chato, mas nada se compara à experiência de visitar um reborn, feio. Na mesma noite, recebi uma mensagem. Imaginei que seria um comentário pela estranha visita, pela minha falta de jeito, mas era só uma preocupação boba, humana e feliz: – A panela, ela pode ir no micro-ondas?, perguntavam-me.

Fernando Perazzoli é professor e Advogado, tendo atuado por mais de dez anos no ensino superior em União da Vitória e Porto União. Além disso, lecionou na Universidade Federal de Santa Catarina, na Universidade de Coimbra (PT) e na Universidade de Mumbai (Índia). Foi consultor da Fundação Oswaldo Cruz (RJ e DF). Exerceu os o cargo de Diretor Municipal no Poder Executivo de União da Vitória, de Coordenador Jurídico na Secretaria de Atenção Especializada do Ministério da Saúde, em Brasília e de de Assistente para Probidade Adminsitrativa e Curatela do Patrimônio Público junto Ministério Público do Estado de Goiás. Atualmente é Professor de Direito Constitucional da UNIEURO (Brasília) e Consultor para o FNDE. Contato: perazzoli@gmail.com/@‌fernandodavidperazzoli.

Possui alguma sugestão?

Clique aqui para conversar com a equipe de O Comércio no WhatsApp e siga nosso perfil no Instagram para não perder nenhuma notícia!

Voltar para matérias