Crônica: Regras Sociais

O problema foi que o Rogério levou fraldas da Mamypoko, de altíssima qualidade, de tecnologia japonesa e de preço absurdamente caro. Ao fazer isso, acabou por pisar fora do mais severo e rígido código de conduta corporativo, o compliance social da galera. Dali para frente, seus dias na empresa estavam contados. Da minha parte, quando soube, fiquei muito triste, pois verdadeiramente torcia para que ele se desse bem no emprego.

Sempre que uma pessoa entra para um novo time corporativo há uma série de eventos que marcam a tradicional sequência de sua admissão, um iter que vai do momento em que ela envia o currículo até o que ela se senta à mesa de trabalho. Nesse caminho existem os momentos solenes, como a tão temida entrevista e uma eventual prova prática, sem contar a comunicação oficiosa e rebuscada que lhe enviam para dizer que foi selecionada para a vaga. De outro lado, já contratada, existem os momentos mais rés de chão, cansativos pormenores, como a configuração do desktop, as senhas internas, a biometria na portaria e, claro, a confecção do crachá. Até aí tudo bem, é um caminho feliz que tem como ponto de chegada, para bem ou para mal, um salário no final do mês.

O difícil vem depois, quando ela se percebe à deriva entre tantas outras pessoas que trabalham na firma já há mais tempo. A coisa então fica realmente difícil, eis que a necessidade de socialização no espaço laboral e a codependência para compreensão dos processos de trabalhos a obrigam, no início do novo emprego, a assumir riscos e a fazer coisas que só pela necessidade de trabalho faría. O dresscode é o primeiro desafio, sobretudo quando não há um oficial. Uma cor de gravata destoante ou mesmo um scarpin de salto diferente e, tá feito, já era! Quando se é novo no trabalho, fazer a tarefa muito rápido é ruim, desperta ciúmes e medos concorrenciais nos demais colegas mas, paradoxalmente, fazê-la muito devagar redunda nos mesmos efeitos. Nesse contexto, ausentar-se para fumar, levar o filho para o trabalho ou mesmo usar fone de ouvido surgem como desafios realmente importantes para se alcançar o bom convívio laboral. Uma ética das pequenas vicissitudes.

O Rogério, que abre a crônica com a tão errada fralda chique, passou por tudo isso como ninguém ousou passar. Ele era um doutor em termos de compliance social interno, um verdadeiro lobo da sobrevivência corporativa. As coisas lhe iam tão bem que os seus 43 dias no emprego já lhe rendiam um status de vetereno. Ele era o cara que se vestia bem quando todo mundo se vestia bem e, incrivelmente, ia trabalhar com um trapo quando o pessoal ia mal acabado. Seus relatórios nunca ficavam prontos antes ou depois do exato momento. Na portaria, nunca esquecia o crachá e, quando esquecer era preciso, metia-lhe no bolso para junto de toda gente perder quinze minutos no balcão de identificação.

Tudo ia bem, até que tiveram a ideia de organizar um lanche em prol de uma creche qualquer. Quem fosse, levaria um pacote de fraldas. Quem não fosse, ostracismo e isolamento, óbvio. No evento, cada um foi depositando numa caixa os modestos pacotes de fraldas que levavam, os quais oscilavam entre as versões premium da marca ruim e a versão normal da marca boa. Rogério, como sabemos, chegou com um pacote de fraldas Mamypoko. Vacilo imperdoável. Dali para frente, iniciou seu inferno astral e, rapidamente, desceu ele aos infernos da impopularidade corporativa. Antes de fechar o mês, naquela sexta a tarde, todos entenderam quando o telefone dele tocou às 17:30. Era do RH.

Tempos depois encontrei-o numa farmácia. Curiosamente, comprava um pacote de fraldas comuns, da promoção. Perguntei-lhe se tinha filhos. Ao que ele me respondeu que não, mas que havia um chá de fraldas na empresa e que queria ser promovido no emprego. Saí de lá rindo e, mais uma vez, torcendo por ele. Esse cara vai se dar bem, pensei comigo, antes de virar a esquina, entrar numa cafeteria e me sentar aqui para escrever.

Fernando Perazzoli é professor e Advogado, tendo atuado por mais de dez anos no ensino superior em União da Vitória e Porto União. Além disso, lecionou na Universidade Federal de Santa Catarina, na Universidade de Coimbra (PT) e na Universidade de Mumbai (Índia). Foi consultor da Fundação Oswaldo Cruz (RJ e DF). Exerceu os o cargo de Diretor Municipal no Poder Executivo de União da Vitória, de Coordenador Jurídico na Secretaria de Atenção Especializada do Ministério da Saúde, em Brasília e de de Assistente para Probidade Adminsitrativa e Curatela do Patrimônio Público junto Ministério Público do Estado de Goiás. Atualmente é Professor de Direito Constitucional da UNIEURO (Brasília) e consultor para o FNDE. Contato: perazzoli@gmail.com/@‌fernandodavidperazzoli.

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