CRÔNICA: Ressonântico Café
Ocorre que por força de meus desalinhos esportivos desalinhei um ombro no supino e fui obrigado a me alinhar com um ortopedista chamado Jaime, que por ser eu fã do Chaves, naturalmente, passei a chamar de Jaiminho e que, para evitar a fadiga, chamarei simplesmente de J. Na consulta, J. apertou meu ombro daqui e mais um pouco dali para me perguntar sobre meu manguito rotador e sobre as possíveis implicações na bursa subacromial.
– Estariam rotas? inquiriu-me machadianamente. Veja bem: para um homem que até os 40 anos não sabia que tinha tireóide, aquilo soou chinês nivel C.1. Achei fantástico e explico: J. julgou que eu poderia saber, não qualquer saber, mas aquilo que só os que levantaram a mão para Hipócrates podem saber. E se pareceu narcisista na entrada, ressoou retórico na saída:
– É possível sim, mas tenho dúvidas… respondi, serenamente.
– Pois bem, então vai fazer uma ressonância magnética!, recebi em tréplica.
A casa caiu e J. me encurralou no labirinto arcano da medicina: se algo de errado havia no meu ombro, só depois eu saberia. Que CID será? Tudo agora é uma Cid e o Google está diagnosticamente apocalíptico, fúnebre, digno de um Augusto dos Anjos. Eu, filho do carbono e do amianto, preciso é saber agora! E no meu desespero, J. emendou:
– Até lá sem exercícios físicos!
Ai não aguentei, virei o jogo com essa bola rolada sem goleiro:
– Que bom Dr, quero evitar a fadiga.
Tuchê. Ganhei. E aqui começa o café, o ressonântico café. Peguei um táxi e poucos quilômetros depois desembarquei em frente à clínica recomendada. O edifício destoava de tudo, felizmente para mais – tijolos à vista, ares de fachada inglesa e janelas diferenciadas, o que para exames clínicos equivale a achar trevo de quatro folhas brotando em pé de coelho. Logo após nela adentrar deparei-me com um lugar tão bonito, organizado e chique que eu, de tênis, camiseta e mochila nas costas, automaticamente acreditei que o simpático atendente me perguntaria para quem eu estaria trazendo a encomenda do IFood. Nada disso. Como um gentleman, entregou-me uma senha, indicou-me um confortável assento e perguntou se eu aceitava uma água ou um café. Choquei. Fiquei bege. Era o onírico, o quimérico. A realidade derretia lá fora enquanto eu, ali, via vários quadros pelas paredes. Coloridos e monocromáticos, abstratos e concretos. Até a foto da Malala que se destacava na recepção parecia feliz no lugar. Imediatamente lembrei das galerias europeias, dos óleos no Louvre, dos grafites em Brera e das manhãs ensolaradas com as meninas no Prado. Meu manguito rotador tinha me trazido até aqui e minha bursa sub-alguma coisa poderia me levar a qualquer lugar.
Fui parar no subsolo do prédio, onde entre tantos outros quadros, fotos e gravuras, pediram-me para tirar a roupa. Não exitei, afinal estava entregue, rendido. Era beleza demais para eu me esconder embaixo da minha camisa xadrez roxa. Eu queria correr nú por aqueles corredores, queria sentir na pele aquela essência de requinte e bom gosto como se eu fosse um hippie experimentando sofismas numa cantiga de Janis Joplin. – Peçam-me o que quiserem, eu aceito! bradei em pensamento. Acabei foi numa roupa azul de flanela, desajeitada e grande. Contornei a cena acreditando que eu era a arte contemporânea em pessoa, com matizes e linhas indecifráveis pelas quais o meu polock recalcado interagia em pura harmonia com a máquina do mundo drumondiana. Assim, saí do vestiário e parei no MoMa, mais dois passos e me vi na Tate, outros dois e de súbito deixei Andy Wharol para acabar numa sala absurdamente fria, com uma máquina em forma de rosquinha, que podia ser tanto obra de Stanley Kubrick quanto de Homer Simpson.
Fui convidado a deitar e me pediram para eu encaixar o trapézio na cama. Gelei. Eu só sabia de tireóide, bursa rotadora e sub manguito, não exatamente nessa ordem. Desta vez apelei para a humildade e disse que não sabia o que era o trapézio mas que estava disposto a anotar o CEP para achar onde ele ficava no meu corpo. Por óbvio a colocação não foi muito bem aceita e, talvez por isso, não tenham me franqueado o devido acesso à ciência quando apontaram o lugar com o dedo. De qualquer sorte, foi com muita delicadeza que me cobriram com algo de no mínimo 600 fios em uma maca que poderia tranquilamente ter sido desenhada pela Ortobom. Colocaram um protetor de ouvidos e, quando vi que a máquina era da Siemens, sorri por saber que estava agora em mãos alemãs. Certamente a face interna da máquina conteria pinturas de Bosch e durante o exame eu escutaria no fone de ouvido alguma Stücklied de Brahms. Fechei os olhos e aqueles anjos me conduziram para dentro da rosquinha da Siemens. O teto branco, a visão limitada e a ressonância não eram muito o que eu esperava, sendo que a experiência se mostrou um negócio mais no estilo Nosso Lar. Morri, pensei, mas 20 minutos depois eu já estava de pé, ouvindo um arrependido médico que, se outrora não me dissera nada sobre o georreferenciamento anatômico do trapézio, agora me explicava nos mínimos detalhes como o magneto havia alinhado meus átomos de hidrogênio de maneira que as ondas de rádio ressonânticas externariam ao mundo variáveis numéricas pelas quais, na devida estimulação quântica, o mundo finalmente conheceria os caravaggios e os portinaris escondidos sob a epiderme do meu ombro esquerdo. Na entropia do meu hidrogênio, eu era Oil on Canvas!
E foi assim que na saída do exame, obnubilado pela magia do lugar, encontrei um espaço mágico chamado simplesmente de “Cafeteria”, com madeiras nas paredes para me lembrar o calor e o aconchego, com lustres coloridos e janelas amplas a permitir que luz iluminasse minha vida, com cadeiras confortáveis e mesas agradáveis para me fazer esquecer do mundo, das dores no ombro e da rosquinha da Siemes. Sob o balcão, queijos artesanais faziam uma pilha de qualidade e bom gosto, revezando a atenção do meu olhar com os Pastéis de Belém e com as Rosquinhas de Canela. Meu olfato foi subitamente tomado por um expresso que estava sendo tirado e eu flanei leve no ar até uma mesa próxima, na qual eu sentei para um café absurdamente perfumado, incomensuravelmente gostoso e sinestesicamente reconfortante, em uma experiência ressonanticamente magnética que demorou duas horas. Durante esse tempo, revisitei a sequência dos eventos que me levaram do ódio que se abateu quando do desalinho do supino, passando pelo horizonte fúnebre das recomendações googleanas até esse palácio de exames por imagem, numa experiência digna do realismo fantástico colombiano. O ensinamento que fica é: não importa como começa, porque pode terminar sempre num bom café. Foi assim minha sublimação após a experiência aterrorizante na máquina de ressonância magnética. Agora me resta apenas voltar ao Dr. J., receber a sentença e cumprir a via crucis fisioterápica até que, quiçá, volte eu a me ver diante da necessidade de algum outro e surreal exame por imagem. Mas tudo com calma, muita calma, afinal é preciso evitar a fadiga.

Fernando Perazzoli é professor e Advogado, tendo atuado por mais de dez anos no ensino superior em União da Vitória e Porto União. Além disso, lecionou na Universidade Federal de Santa Catarina, na Universidade de Coimbra (PT) e na Universidade de Mumbai (Índia). Foi consultor da Fundação Oswaldo Cruz (RJ e DF). Exerceu os o cargo de Diretor Municipal no Poder Executivo de União da Vitória, de Coordenador Jurídico na Secretaria de Atenção Especializada do Ministério da Saúde, em Brasília e de de Assistente para Probidade Adminsitrativa e Curatela do Patrimônio Público junto Ministério Público do Estado de Goiás. Atualmente é Professor de Direito Constitucional da UNIEURO (Brasília) e Consultor para o FNDE. Contato: perazzoli@gmail.com/@fernandodavidperazzoli.


