CRÔNICA: “Ressureição”

Conversava com minha equipe nos últimos dias sobre os temas tratados nas últimas crônicas neste espaço, especialmente, sobre a sensibilidade dos casos trazidos, muitos deles relatando histórias “pesadas” verificadas em nosso cotidiano de trabalho no fórum.

Em outro olhar, rememoro que boa parte das crônicas aqui já relatadas nesse último ano são narrativas que apesar da gravidade dos atendimentos trazidos a nós, possuem algum conforto pelo seu desfecho. Por vezes sentimentos de alívio e esperança, em outros de gratidão. Muitos de passagem ou recomeço, algumas vezes de verdadeira ressureição.

No contexto da Páscoa que se aproxima, e de tudo que traz a lume os significados da ‘ressureição’, rapidamente surgem na memória situações vivenciadas por mim exatamente nestes últimos dias.

Era tarde da noite, quando recebi no WhatsApp, em uma terça-feira, o seguinte questionamento: “Gostaria de saber como é o procedimento de aborto legal (autorizado pela lei) em caso de estupro”.

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Logo a seguir, em longo áudio fiz todo o esclarecimento necessário sobre a possibilidade de realização do aborto de gravidez decorrente do crime, mesmo sem a procura da Delegacia de Polícia ou Judiciário, bem como outras medidas prévias. Pouco depois, a solicitante relatou que se tratava dela ‘a vítima da violência sexual’: “Descobri hoje. Queria esquecer tudo que aconteceu, não tenho psicológico para continuar”.

Já no dia seguinte, pela manhã a atendi pessoalmente, acompanhado da equipe de Psicologia do Fórum. Na conversa Joana, vítima de grave crime, relatou como tal havia ocorrido algumas semanas antes, quando voltava sozinha para casa à noite. Foi abruptamente puxada para dentro de um carro, agarrada à força, e alguns minutos depois o ato de abuso sexual infelizmente se consumou. Estava sem a presença da família em casa naquele final de semana, e passou dois dias chorando, sem comer ou dormir. Nem sequer conseguiu contar a alguém o ocorrido. Quando se dirigiu até uma farmácia tomar a medicação chamada “pílula do dia seguinte” na segunda-feira, já havia passado o tempo necessário e agora, semanas após, quando teve uma hemorragia, descobriu que estava grávida.

A mulher vítima, contou-nos que procurou um ginecologista particular em outra cidade, e fez os exames necessários. Lamentavelmente na consulta passou por violência institucional, realizando o médico comentários desmedidos e preconceituosos a respeito da relação sexual e da gestação.

Quando de seu atendimento no dia seguinte da consulta (e de sua procura a mim), relatou: “tenho medo doutor. Da repressão da minha família, do julgamento das pessoas. De ficarem me vitimizando a vida inteira”. Fizemos com a concordância dela contato com uma (única) pessoa de confiança para que pudesse também lhe dar algum suporte. Enquanto aguardava o acionamento da rede de saúde, permaneceu em nosso ambiente do fórum em sala reservada, na companhia da equipe de Psicologia de nosso CEJUSC. Almoçou conosco.

Antes mesmo de formalizar os ofícios necessários fiz contato com a Regional de Saúde e a Secretaria de Saúde do Município em que reside. Profissionais homens e mulheres que conversei, de forma atenta, empática e rápida providenciaram todo o atendimento necessário, iniciando sua transferência para hospital de referência em grande cidade próxima.

No mesmo dia, ao adentrar no hospital iniciou a realização dos exames pré-operatórios, quando continuava a conversar comigo: “Já estou por aqui doutor. Tive algumas reações à medicação, mas tudo sob controle. Parece que vão conseguir hoje ainda”.

Algumas horas depois: “vou entrar em procedimentos daqui a pouco!”

Naquela madrugada voltou a me enviar mensagens: “Oii Dr! Acordei agora pouco do procedimento. Foi tudo perfeito. Deu tudo certo. Amém. Deus te abençoe sempre!”.

No decorrer do dia novamente a mulher me chama: “estou de alta, saindo do hospital agora. Vou pegar a estrada com a equipe que me acompanha”.

E menos de 48 horas depois daquele primeiro contato por mensagens no celular me perguntando sobre o aborto legal, a mulher volta a me chamar no WhatsApp como que encerrando nosso atendimento: “Oiii doutor. Tudo certo. Cheguei em casa. Muito obrigado por tudo :)”

Também em data recente pela primeira vez fiz uma fala pública, por convite da “Associação Autismo sem Barreiras”. Estudei o assunto que ainda é novo para mim, e relatei na oportunidade sobre casos atendidos no fórum. A repercussão foi tamanha que recebi em seguida 8 convites para palestras semelhantes, em 6 cidades diferentes.

Foto: Reprodução/Internet

Devo reconhecer, e o faço publicamente também nessas manifestações, não sou especialista no assunto. Até por isso trato da questão com muito cuidado, e busco focar naquilo que podemos todos, mesmos os neófitos na temática, sempre promover: a reflexão sobre a importância da inclusão, do respeito, da empatia e do não preconceito.

Nesta primeira palestra sobre o tema autismo conheci Patrick, jovem adulto, universitário. Por convite da associação, ele fez a abertura do evento, quando teceu ele, autista, suas considerações sobre o que podemos e devemos promover como sociedade sobre o transtorno do espectro autista. Talvez a primeira manifestação pública de Patrick, em que conseguiu não apenas referir aos inúmeros atos de desrespeito e violências que sofreu ao longo de seu crescimento, mas também clamar pela mudança.

Patrick Willian Pinto destacou as dificuldades que passou ao longo de sua infância e adolescência, os problemas e preconceitos vivenciados na escola desde muito tempo. Dos antigos colegas que não se importavam com suas individualidades, que não possuíam qualquer comprometimento com suas dificuldades de comunicação e interação social, ou seus padrões de comportamento. Também da falta de preparo dos profissionais, de recursos públicos para atendimento do público autista, e mesmo de orientação mais básica para as famílias.

Por meio do seu jeito particular de se comunicar, Patrick nos alertou sobre a necessidade de que toda sociedade melhor estude e possa compreender como o autismo funciona, além de repreender quem age de forma errada ou causa ainda mais desconforto.

Quando escrevia a presente crônica perguntei a Patrick qual seu pedido para as pessoas neurotípicas (aquelas que não manifestam alterações neurológicas ou do neurodesenvolvimento, como o autismo), e ele assim respondeu:

“Que as pessoas ditas normais respeitem nosso espaço e nosso jeito”.

Fica o desejo de que a verdadeira ressureição por qual passaram Joana, após o trágico crime vivenciado, com seu consequente direito de escolha, e Patrick, depois de longos anos de preconceito e desrespeito, trazendo à tona o apelo público por respeito, possam efetivamente significar renascimento, trazendo-lhes paz e alento.

E que possamos todos nessa Páscoa refletir sobre a ressureição, e sobre as mudanças de comportamentos e atitudes que podemos promover nas relações profissionais e pessoais com todos que estão à nossa volta, de forma a educar o nosso olhar para uma nova vida.

*o nome da vítima aqui utilizado é fictício. Patrick, jovem de União da Vitória, passou a ser nosso parceiro na promoção da cidadania.

 

Carlos Mattioli é juiz da criança, adolescente, família e cidadania em União da Vitória (PR) 

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